Das Cartas e das Palavras
As cartas são um presente, leio no título de mais uma entrada no blog, que consulto quase todos os dias, na minha volta pelas publicações de outros que, como eu, dedicam tempo a sagradas inutilidades como ilusões, quimeras, vontades, gostos, palavras…, sim, no fundo de tudo, o que resta em precipitado é não mais que isso: palavras.
Pois é delas que se fazem as cartas. Sem a sua óbvia e gráfica presença, restaria apenas a frieza de uma folha de papel nua, talvez geometricamente cortada em formato pré-estabelecido, talvez meticulosamente impressa com dezenas de linhas paralelas, talvez urdida com a gramagem conveniente para se não tornar demasiado flexível nem tampouco rígida, talvez… vazia…
Juntamo-las quando delas precisamos. São elas que nos possibilitam ser voz distante, lá, onde por força da lonjura, nunca a nossa voz chegaria. E então é vê-las correr, umas atrás das outras, na tal folha de papel, talvez com as tais linhas paralelas a servir-lhes de pista, de escorrega.. e oh, como elas correm; como alegres se encarreiram para se desdobrarem em sentido e intento.
Para tudo servem. Alguns usam-nas apenas para encher espaços, para acrescer volume. Evito-os, como evito estar onde sei que nada tenho a acrescentar. Nessas alturas prefiro a certeza sincera do silêncio, que, diga-se, nunca deverá ser confundido com a disponibilidade indiferente da página nua, porque, ao contrário desta, fala por si só, porque enche espaço que nos rodeia apenas para que ouçamos o que ele nos dá: o silvo do vento, o coaxar das rãs, o murmúrio das folhas, a síncope dos passos sobre a terra. Como é, pois, generoso o silêncio, que se auto-anula, para que tudo o resto brilhe… como então dele não gostar?
Para tudo servem, dizia… até para se erguerem em poema… e ai de quem as lê então, que tudo podem revelar... É na poesia que mais escondem segredos; que mais grávidas de sentidos se conformam.
Sei de poetas que as usavam como se de martelo e escopro se tratasse, ferramentas de pedreiro, para com elas construírem insignes edifícios. Para esses, as palavras, tanto como guardadoras de sentidos, eram tijolo e argamassa e os seus poemas forma, corpo, coisa… e haverá algo mais belo para uma palavra ser que uma pequena coisa (ou até coisa nenhuma, que o silêncio, a pausa a falta de palavra é outra forma, igualmente legítima, de encher o espaço). Se assim não fosse, todas as palavras seriam corrente e todos estaríamos para sempre presos uns aos outros numa eterna fila de confrangedora humanidade…
Descansam por vezes, também, as palavras. Merecem-no, pois são curtas e é longa a viagem.
Escrevo-as com o cuidado que guardamos para as coisas frágeis. Uma a uma, coloco-as na folha virgem do papel geometricamente cortado em formato pré-estabelecido, meticulosamente impresso com dezenas de linhas paralelas, urdido com a gramagem conveniente para se não tornar demasiado flexível, nem tampouco rígido.
Assim acondicionadas, transportam facilmente coisas tão sumamente leves que não se lhes conhece massa, como a amizade ou a paz. Por isso se usam para escrever cartas, aquelas coisas belas, mas hoje raras, que são um belíssimo presente!
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