segunda-feira, 25 de maio de 2026

Notas de viagem roubadas a um diário que não escrevi,

em partes, tantas quantas me promete a memória...

20 de Maio - Espanha - Comunidade Valenciana

Valencia (II) 



Fui exposto pela primeira vez à obra de Joaquin Sorolla y Bastida  (1863 - 1923), talvez o mais sonante nome da pintura Valenciana, graças a uma exposição que, há já alguns anos, o Museu Nacional de Arte Antiga teve patente, na galeria de exposições temporárias do belo palácio das janelas verdes, sobranceiro ao Tejo.

Foi um caso de amor à primeira vista, portanto: as cenas, em particular as marinhas, os retratos, os corpos, as paletas, a luz que irradia das telas... sim, creio que é isso mesmo, a luz, a magnífica luz que parece inundar as telas onde deixou a marca do seu génio, deixaram uma indelével  marca na memória.

De então para cá tenho-me cruzado com a sua obra em locais vários como Bordéus, Paris, Corunha e fundamentalmente, na Casa Museu que leva o seu nome na capital espanhola, local que alberga uma deslumbrante coleção de obras do génio Valenciano.

Quando comecei a preparar a visita a Valencia, o museu local de belas artes, como habitualmente, ocupou posição de destaque na lista dos locais a visitar.

Uma consulta ao sítio Web do Museu de belas artes de Valencia confirmou-me o que já suspeitava: a coleção do museu tinha várias obras deste filho da cidade em exposição. Por isso, não podia estar mais entusiasmado com a visita, com que iniciámos a tarde do nosso primeiro dia de passeio pela cidade.

Estávamos munidos de passe para os transportes públicos, mas a verdade é que as distâncias entre os principais pontos de interesse da Cidade são perfeitamente acomodáveis a pé, tanto mais que o centro histórico é pedonal e que para chegar à paragem do autocarro se anda quase tanto como para chegar ao local que queremos visitar.

Por isso seguimos a pé, cruzando uma inesperada fila de pessoas que se prolongava por mais de uma centena de metros, por entre baias instaladas em frente a uma nova igreja, a Reial Basílica de la Mare de Déu dels Desamparats. 

Perguntei a das senhoras que acabavam de chegar e que iam ocupar o respetivo lugar na fila, a que a mesma se devia.

Responderam-me que era a festa de Nossa Senhora dos Desamparados e que a multidão esperava na fila pela oportunidade de beijar a imagem da Senhora, observada de perto pela figura tutelar de Túria, a personificação do rio que banha a cidade, do alto da fonte que lhe toma o nome. (Ouvi na televisão, no dia seguinte, que a fila só acabara depois das 2h30 da manhã...)


O caminho leva-nos agora a  atravessar o antigo leito do rio Turia, hoje transformado em reconfortante e prazeroso jardim,  na ponte de la Trinitat que desemboca quase em frente ao Museu de Belles Arte de València, antigo colégio Seminário de São Pio V, cuja construção se iniciou em 1693. Do alto da ponte, a estátua de San Luis Bertrán, da autoria de Jacobo Antonio Ponzanelli, parece indicar-nos o caminho e convidar à visita ao museu que se anuncia pela sua enorme cúpula coberta a azulejo azul, quase parecendo refletir o azul inesperado dos jacarandás.



O museu alberga uma extensa coleção de pintura dos séculos XIV ao século XX e era esta última que mais me interessava ver, ocupando a ala que está dedicada aos séculos XIX e XX 3 pisos, a que se acede após transcorrer um maravilhoso pátio azul.


No terceiro piso pude, finalmente. ver os trabalhos de Sorolla por que tanto ansiava, e novamente a luz, os corpos, os apontamentos regionalistas, as paisagens, tudo o que me despertou para a sua obra naquela exposição do Museu de Arte Antiga de Lisboa, tudo ali se repetia, para meu grande prazer.

Mas não foi só Sorolla que me encheu as medidas. O museu alberga uma rica coleção de pintores Espanhois da trasição do sec. XIX para o XX, entre os quais figuram vários dos discípulos do Mestre, como José Benlliure Ortiz ou Francisco Pons Arnau, que casou com Maria Sorolla, filha do pintor, e também ela pintora e um sem número de outros nomes ilustres das artes plásticas Espanholas.

Enumerá-los seria aqui despropositado, mas uma visita à galeria do sítio web do museu. que inclui algumas das muitas obras em exposição, permitirá perceber a razão do meu entusiamo.

Uma menos detalhada, mas não menos atenta, visita à nave central do edifício que alberga o espólio de obras dos secs. XIV a XVII, permitiu ainda descobrir algumas peças de nomes sonantes como Tiziano ou El Greco , bem como um triptico atribuído à oficina de Hieronymus Bosch.

No final houve ainda tempo para percoirrer a exposição temporária "Tiempos Modernos" que agrega a coleção de Museu de obras de artistas contemporâneos.

retomando a caminhada já na rua, voltámos a atravessar o jardim pela mesma ponte que anhtes tínhamos utilizado para nos dirigirmos às Torres de Serranos, verdadeiro ex-libris da cidade.

As duas torres, datadas do sec. XIV, guardam no centro uma das portas que davam acesso à cidade. Hoje servem principalmente de miradouro, como atestam as muitas pessoas que podíamos ver na varanda que liga as duas construções poligonais, depois de terem servido como prisão, até finais do séc. XIX.

Não subimos. Depois do que já andáramos, dispensávamos escadas. Ficámo-nos por uma volta por fora do edifício, e por algumas fotos.






Necessitávamos de uma paragem, até porque estava na hora de passar pelos correios para enviar os habituais postais. Mas primeiro era preciso escrevê-los, por isso sentámo-nos por algum tempo numa esplanada frente a duas bebidas frescas, para pôr a escrita em dia, como se costuma dizer.

O dia ia já bastante avançado quando saímos do edifício dos correios com a filatélica missão cumprida e duas hipóteses nos contemplavam: o Centro de Arte Hortensia Herrero, sugestão de uma amiga, instalado num palácio do sec. XVII recentemente recuperado e perto de onde nos encontrávamos, ou a fundação Bancaja, onde se anunciava uma exposição de pintura que, por certo, não desiludiria.


Gárgula da capella Sant Joan de l'Hospital, vista da varanda do CAHH

Optámos pelo primeiro. E em boa hora o fizemos, maravilhados que ficámos com a qualidade da coleção exposta ao público complementada por uma exposição temporária de obras do artista Alemão Anselm Kiefer, todas de uma dimensão que, só por si, impressionava, não ficasse o visitante assombrado pela riqueza dos contrastes expressionistas entre o sombrio chumbo e o luminoso ouro, num processo de alquimia que parece perpassar as suas criações.

David Hockney está também bem representado no museu, com  uma curiosa instalação videográfica sobre as quatro estações e alguns trabalhos de grande formato, já saídos da fase Ipad do artista.

Eu, que gosto muito de fotoghrafia, fiquei também especialmente contente por ter visto podido ver pela primeira vez um original grande formato de Andreas Gursky... uma lição de estrutura e composição...

Creio que teremos sido os últimos visitantes a sair do CAHH, eram já quase oito horas, hora de fecho.

Pela rua, em direção ao metro, continuei a passar por fascinantes exemplares arquitetónicos  como o belo Edifício Gomez II, ou até mesmo a singela porta do casino de Agricultura de Valência





O dia estava terminado. Jantar e descanso pedia-nos o corpo, que amanhã haveria mais....

domingo, 24 de maio de 2026

Notas de viagem roubadas a um diário que não escrevi,

em partes, tantas quantas me promete a memória...

20 de Maio - Espanha - Comunidade Valenciana

Valencia (I)


Valencia... um nome que me evoca os ininterruptos quilómetros de laranjais e o cheiro químico que exalavam, naquele verão da última década do milénio passado, quando por ali passámos, durante umas férias passadas num aldeamento algures na Costa Blanca.

Duas recordações apenas guardo dessa passagem... o estranho sabor da Horchata, a que não me afeiçoei, e as obras que então decorriam para edificação do que é agora o magnífico complexo da cidade das artes e ciências, que irrompe do antigo leito do rio Turia, hoje desviado para um canal artificial mais a sul, na sequência de uma DANA (que por aqui se chama de Gota Fria) em 1957... o mesmo canal que transbordou com a DANA de 2024.....

Tinha portanto apenas folhas em branco no caderno de memórias... era tempo de as preencher e a ocasião proporcionou-se com uma voo baratucho de ida e volta, mesmo a pedir que preparássemos a mochila e a máquina fotográfica.

Assim foi. Tendo tocado de novo o solo no aeroporto de Valência já na madrugada do dia 20, apressámo-nos a chegar ao hotel para podermos ainda descansar um pouco antes de começar dois dias que, sabíamos, seriam bastante preenchidos, pois com tão pouco tempo para tanto ver não haveria outro resultado.

Uma primeira nota para os transportes coletivos de Valência, que me pareceram rápidos, fiáveis e frequentes, pelo menos nas zonas por onde nos deslocámos, com o metro e os autocarros a não nos obrigarem a esperas maiores que alguns minutos apenas.

A estação de metro que mais perto fica do centro histórico é Xátiva. Foi dela que saímos numa manhã que se anunciava quente, mas não demasiado. Do outro lado da rua, a primeira descoberta: O belíssimo edifício arte nova da Estação do Norte, encostado à grande praça de touros. 







Ainda a digerir a sorte da surpresa, embalados pela beleza das formas temperada pelas suaves cores dos painéis de azulejo nas salas da estação,  dirigimos o passo para a cidade velha, não sem deixar de conduzir o olhar, pelo caminho, para os torreões, também de corte modernista, que sobressaíam da linha de edificações que, pouco depois, se abre para a larga Plaça de l'Ajuntament, a maior da cidade, onde se implantam vários edifícios relevantes, como a casa consistorial, sede do Conselho municipal ou o Palácio dos Correios.











Procurávamos o Mercado central. O Primeiro dos vários  locais que, como habitualmente,  tínhamos previamente identificado para que a visita fosse o mais produtiva possível, tão só as nossas pernas e pés aguentassem o programa ambicioso que nos tínhamos fixado.

Poderei estar enganado, mas Valência parece ainda conviver com o turismo de uma forma que Lisboa, por exemplo, já não faz. A cidade velha e o seu entorno mais próximo, parecem ainda local de vida quotidiana de pessoas que ali habitam e o comércio parece vivo e frequentado. Não obstante grupos organizados de turistas (em particular italianos) enchiam já os vários pontos de interesse da cidade, como o Mercado Central, para o qual nos dirigíamos, outro marco da Arte Nova Valenciana.



Lá dentro, transcorrida uma da três portas que lhe dão acesso, encimadas por funcionais marquises,  o olhar é de imediato levado para o centro do edifício , onde se ergue uma enorme cúpula envidraçada, como envidraçados são os topos e as laterais do edifício, o que permite a entrada de luz natural em profusão, não obstante complementada, nas bancas, com iluminação artificial.




Mas esta não seria necessária, acho, tamanha a luz que as bem compostas bancas irradiam na policromia tentadora das mais frescas alfaces, escarolas, pepinos,  cebolas, cenouras, pimentos que tão bem se complementariam com os deliciosos queijos e frutos frescos e secos, entrada ou sobremesa para pratos mais consistentes, confecionados com os mais variados peixes e mariscos ou carnes, que em quantidade e qualidade se propõem ao consumidor.... pena é que tudo esteja tão caro.... lá, como em todo o lado, enquanto a economia mundial se esboroa por conta dos caprichos de gente que, por certo, nunca precisou de ir a um mercado em busca de uma alface...


Cá fora o torreão da Llotgeta, primeiro dos edifícios  do complexo do mercado a ser construído, datado de 1914 e hoje albergando um centro cultural especializado em fotografia (descubro quando agora escrevo, e, como tal, mais uma razão para um dia voltar a Valencia....)  aponta-se ao sol que brilha forte mas que, ainda assim, não gera sombra que se possa registar no enorme quadrante solar na porta traseira da Igreja de Sant Joan del Mercat, mesmo ali ao lado,...


... cujo campanário, parece desafiar a geometria gótica das enormes janelas da Llotja de la Seda, mesmo em frente, edifício do séc. XV-XVI, que serviu de bolsa para o comércio da seda,  cuja relevância foi reconhecida pela UNESCO em 1996, com a atribuição do estatuto de Património Mundial.




Quero entrar, mas não o quero fazer agora, que dois grupos de viajantes italianos  se preparam para atravessar a porta. Em frente à Llotja há uma outra igreja, a Basílica del Sagrat Cor de Jesús. Aproveitamos para a visitar, esperando que a aglomeração de pessoas na Llotja diminua.

Por fim lá entramos e, com alguma paciência, consigo um par de minutos com pouca gente dentro da belíssima nave com os seus pilares  que quase se diriam de cordame Manuelino....




Seguimos para a Catedral, próximo ponto da nossa lista de locais a visitar. À medida que o dia avança, nota-se um crescendo no número de pessoas com que nos vamos cruzando na rua, para mais agora que nos dirigimos a uma das praças mais concorridas da cidade - Plaça de la Reina.

Fazêmo-lo despreocupadamente. Esta é uma zona pedonal e podemos fruir a cidade, mirar os seus recantos, alguns de verdadeiros encantos, sem sequer pensarmos que temos que estar atentos, não vá um carro pisar-nos os pés...





Adoro zonas pedonais nas grandes cidades. Em particular em zonas de elevado interesse histórico e turístico, como é caso desta praça que tem numa das esquinas a imponente Catedral e onde as pessoas passeiam tranquilamente ou visitam o pequeno mercado de cerâmica que ali está, por estes dias, montado.

Mais tarde, depois da visita à catedral, aproveitaremos a sombra de algumas árvores que aqui crescem e o convidativo murete que sob elas corre, para descansarmos um pouco e comermos a nossa habitual sandes de almoço, desta vez complementada por um saboroso gelado comprado numa das gelatarias da praça.

Mas, por enquanto, é pela pequena escadaria que dá acesso ao portal de entrada que entramos na grande catedral, cujos trabalhos de construção começaram no século XIII e só terminariam no sec. XVII, o que faz que do românico ao barroco, passando pelo gótico, predominante, todos os grandes movimentos arquitetónicos ocidentais lhe tenham deixado marcas facilmente identificáveis, bastando para isso contorná-la por fora, para observar as várias fachadas e portais.

Mas é lá dentro, que, numa pequena capela lateral, se guarda o tesouro que inúmeros e devotos crentes, procuram aqui ver: o Santo Cálice, o Graal, que Jesus Cristo teria utilizado na última ceia e que aqui teria sido depositado em 1437, depois de trazido de Roma no sec. III e guardado pela Coroa Aragonesa durante todos aqueles anos...

Este é apenas um dos muitos Graais que por esse ocidente fora se guardam em Igrejas e edifícios religiosos, com a reivindicação de ser O Graal, o verdadeiro, o original. Não obstante, melhor que qualquer exercício de datação baseado em critérios científicos (e haverá, no caso, estudos que colocam a origem da taça de ágata num intervalo temporal e geográfico coadunável 
com a reivindicação de originalidade), o fervor da crença é, para muitos, prova suficiente. Ámen!


No museu da catedral, para além de uma impressionante custódia processional barroca com um peso de 600 quilos de talha e ouro,  que recebe o visitante, mal este franqueia a porta, podem ser vistas, entre muitas e variadas peças, as esculturas  originais da porta gótica de Los Apóstoles, do século XIV, cuja "modernidade" figurativa me impressionou, bem como um belíssimo baixo relevo, entitulado "Dormición o tránsito de la Virgen", datado de 1498 e da autoria de Carles Gonçálbez.







Não sou crente, mas as igrejas são espaços que convidam quem nelas entra ao recolhimento, à reflexão, à contemplação, ou até e apenas, a um respeitoso descanso, no conforto da temperatura constante e amena que dentro delas se costuma sentir.

Também nós nos deixámos cativar por estes convite, durante vários minutos, sentados na lateral do belíssimo altar, cuja cúpula ornada com travejamento de talha barroca deixa ver magníficos frescos renascentistas de múltiplos anjos músicos,  anteriormente escondidos sob o teto barroco, que foram, felizmente,  postos à vista  e  competentemente restaurados em 2004.



Metade da programação que tínhamos previsto para o dia estava concluída. Era tempo de nos dirigirmos para uma visita que esperava com bastante ansiedade, e a primeira que tinha apontado na nossa lista, quando a certeza da vista a Valência se cristalizou.

Na rua, uma estátua parecia brandir uma espada, talvez zangada com alguém que deixa o cão aliviar a bexiga ali, mesmo a seus pés, perante a indiferença de uma turista que aproveita o banco para mais um reforço de melanina.... Leio depois que se trata de Rafael Gustavino Moreno o arquitecto que deu a conhecer aos Estado Unidos da América, e em particular a Nova York,  o segredo da construção de abóbodas em tijolo, sendo que a espada que parece brandir é, na realidade uma fita metálica flexível com que molda um arco no espaço.

Da visita seguinte falarei então na próxima entrada do blog, para não alongar em demasia o post nem sobrecarregar a paciência de quem, porventura, vier a passar por estas linhas...