terça-feira, 21 de abril de 2026

 Notas de viagem roubadas a um diário que não escrevi,

em partes, tantas quantas me promete a memória...

12 de  Abril - Espanha - Galiza

Mosteiro de San Clodio

Monumento natural de Pena Corneira



Voltar a casa... é sempre assim: o tempo passa depressa e há afazeres que não podem esperar, lá, onde temos morada e a vida de todos os dias... tomamos, por isso, a estrada com uma mistura de vontades: a de continuar, que há sempre tanto que ver e o nosso apetite pelo mundo é insaciável, e a de que, tal como nos clássicos episódios do Star Trek, pudéssemos apenas dizer "Beam me up, Scotty" para logo nos desintegrarmos e sermos reconstituídos no conforto dos espaços que nos são quotidianos, evitando assim o aborrecimento de quilómetro atrás de quilómetro de auto-estrada, que nos há de levar até à nossa porta, do outro lado da fronteira.

Queremos aproveitar ainda a manhã ao máximo. Saímos em direção a Ribadavia, dispostos a parar em qualquer local que se nos atravesse no caminho e que prometa interesse... San Clodio, tinha-nos dito a senhora que nos recebera no alojamento onde pernoitámos.... San Clodio será então:

Um enorme convento, hoje transformado em hotel,  num pequeno povoado quase deserto.  Paramos para ver o edifício por fora e espreitar o claustro, lá dentro, também deserto, à exceção da  flutuante passagem de funcionária, que o atravessa  nos seus afazeres.

O grande mosteiro medieval remonta nas origens ao sec. VI, leio mais tarde,  conduzido sob a direção dos Monges de Cister desde o sec. XVI até ao seu abandono, no sec. XVIII.

Declarado bem de interesse Cultural em 1981, foi transformado em hotel em 2000.







Já na estrada de novo, um sinal chama-nos a atenção: Monumento Natural de Pena Cordeira... não fica longe, vejamos de que se trata.

A estrada serpenteia serra acima e, aqui e ali, avistam-se pequenas aldeias nas suas encostas



Os hórreos, que deste lado da fronteira designamos por espigueiros, amontoam-se também nos campos, criando imagens que obrigam a mais uma parada fotográfica... que imagens destas gritam Galiza e não as poderia perder... tal como não poderia perder a inusitada rotunda que se cruza  à nossa frente na estrada, com uma árvore no centro que me lembra uma magnífica estátua alada....



Por fim atingimos o topo da estrada e o pequeno desvio que dá acesso ao parque de Pena Cordeira... olhando para as enormes e redondas rochas graníticas, imediatamente me recordo de Sintra ou da Penha, em Guimarães. 

Passeio pelo parque um pouco com pena de não ter tempo para uma caminhada até ao topo da serra. Talvez noutra visita, quem sabe...

O chão está também juncado de lindas flores azuis e em todo o parque apenas as nossas vozes se ouvem... ah, que calma, que pena não poder ficar.






De volta à estrada e quase a chegar a Ribadavia uma bonita ponte exige que paremos de novo: é a ponte medieval de San Clodio, datada do sec. XVI.


Nas margens do Avia, ao lado da ponte, dois pescadores preparam-se para entrar na água e lançar as suas moscas; eu, lanço antes um último olhar ao rio, que por aqui corre calmo por entre o verde, numa imagem que, de alguma forma, é, tal como a dos espigueiros, uma retrato da alma da Galiza





segunda-feira, 20 de abril de 2026

 Notas de viagem roubadas a um diário que não escrevi,

em partes, tantas quantas me promete a memória...

11 de  Abril - Espanha - Galiza

 Allariz 


Nunca aqui chegara, mas há uns anos que Allariz não me era um nome estranho, entrelaçado que um dia se me oferecera nos vídeos do magnífico Carlos Núñez... só poderia ser terra de encanto, ou não fosse inspiração para a belíssima marcha que o Maestro teceu.

Parámos no terreiro da feira de que, infelizmente, já só uma ou duas bancas em desmontagem restava, e partimos para uma volta pela vila, quase deserta, acompanhados por um vento frio, a roçar o desagradável, que dava uma nota invernal ao sol que, não obstante, teimava em brilhar desafogado.

Casas de pedra, ruas estreitas e a evocação de um filho da terra, que eu também desconhecia por completo, mas bastou-me uma sua fotografia - pois de um fotógrafo se tratava - em boa hora mostrada na rua como parte de uma exposição evocativa que parecia aquecer o frio granito das casas, para perceber que a honra era mais que devida.




O rapaz segura o barco e nele segura provavelmente o seu futuro, ou não fosse a Galiza terra de gentes do mar, enquanto dirige o olhar para um horizonte que o espetador não vislumbra no enquadramento, tal como, provavelmente,  acontece com o do próprio sujeito do retrato: incerteza, a sorte (a má e a boa), o futuro... e a recordação do diabo em Gil Vicente: "À barca, à barca, senhores, barca mui nobrecida, à barca, à barca da vida!"

Uma obra a descobrir, pelo menos por mim: José Suarez, fotógrafo Galego.


Passamos em frente ao museu do brinquedo. Optamos por não visitar que o relógio avança. Descemos até ao cemitério prostrado sobre a encosta que leva ao rio Arnoia e que marca o limite da vila e voltamos para o local de partida, continuando por vielas estreitas e ensombradas por fria pedra.


mais à frente a estrada alarga. Um trobone e uma trompete, algures de dentro das paredes do conservatório local, propõem uma tarde de ensaio do West Side Story. Nada contra o meu tão querido Bernstein, mas o que eu gostava mesmo era que tivesse sido uma gaita e a tal marcha do Carlos Núñez...

Uma última volta pelo terreiro da feira para chegar à Igreja de São Bento e espreitar pelo gradeamento que proteje a entrada



São horas de ir, o dia está terminado. Seguiremos em direção a Ribadavia, de onde amanha partiremos de volta a casa, mas deixo na pedra a sombra. Sei que se erguerá sempre que soarem os primeiros acordes da Marcha do Entrelazado de Allariz...


~


 Notas de viagem roubadas a um diário que não escrevi,

em partes, tantas quantas me promete a memória...

11 de  Abril - Espanha - Galiza

 Orense 


Orense. Outra cidade que não visitava há largos anos.... a última vez, tínhamo-lo feito eram ainda crianças as minha filhas... tempus fugit... por supuesto!...

Certamente  por essa razão, poucas memórias restavam... todos os locais me pareciam novos (salvo um de que falarei mais tarde)... até mesmo a Praza Mayor por onde começámos o passeio depois de uma primeira paragem junto das termas da Chavasqueira, um dos curiosos espaços termais à beira do Minho que por aqui se encontram para disfrute gratuito pela população e visitantes. 

Para nós foi antes o local da pausa para umas sandes,  num dos bancos  ali instalados e de um curto passeio à beira-rio para estirar as pernas.

Toda a zona do centro histórico de Orense é pedonal, o que permite um passeio despreocupado e mais atento às particularidades do entorno que às vicissitudes do tráfego. Mais ainda quando se o faz numa tarde ventosa e fria de sábado, quando tudo se encontra já fechado, salvo alguns restaurantes, espalhados por uma ou duas das estreitas ruas que lhe servem de artérias.

Orense é também cidade que se arrasta por uma encosta e o nosso passeio levou-nos cerca de cinquenta metros acima da cota da Praza Mayor até ao miradouro em frente ao Convento de San Francisco, onde pretendíamos visitar o claustro. Infelizmente só abriria de novo às cinco da tarde, pelo que voltámos para a zona baixa da cidade, para visitar o único local da cidade de que me lembrava claramente: as burgas.

"Pai, a água é boa para beber?", perguntou-me a minha filha mais velha

Eu, sabendo que a água era quente, mas julgando que jorraria a uma temperatura inofensiva, irrefletidamente, respondi "Experimenta".

Felizmente apenas tocou com os lábios na água que soube depois jorra a mais de 60 graus celsius, o que ainda assim lhe causou uma pequena queimadura, felizmente sem necessidade de qualquer cuidado especial.... já eu, fiquei com o desconforto para sempre....

O Minho e uma curiosa escultura  ao pé das Termas da Chavasqueira

Praza Mayor


Não visitei o claustro do convento de San Francisco, mas pude passar por várias e fotogénicas arcadas na Praza Mayor

 

Algo quase impensável hoje em dia...: ruas de centro histórico completamente vazias ao início da tarde... como é bom 😊

O cruzeiro na rua de Bailen  protege talvez os peregrinos (por aqui passa o Caminho de Santiago) ou , quem sabe, os visitantes, na sua ascensão ao mirador, passando por ...


... uma curiosa praceta de um enorme edifício em crescente.

A vista lá de cima, no entanto, não é propriamente avassaladora, já que, tirando a torre e o campanário da  catedral, as retinas apenas alcançam o laranja dos telhados 


Pelo caminho, fui-me dedicando a outra das minhas obsessões fotográficas: portas, a sua óbvia e expectável geometria e a sua inesperada e nem sempre enriquecedora policromia.

A fonte da Praza do Ferro onde lavámos a desilusão... 

...por o Bar Orejas estar fechado e não podermos provar uma das suas afamadas sandes das ditas que lhe dão nome....

Alguma da estatuária da cidade

 Xaime Quessada,  O Mouchiño

Acisclo Manzano, Maternidad                              Ramón Conde,  La Lechera

César Lombera, O Carrabouxo, personagem de banda desenhada com presença no imprensa local e tão querido dos Ouresenses que teve direito a uma divertida estátua numa das praças da cidade.


 O Interessante  edifício Viacambre, datado de 1974, também conhecido como "A colmeia", 
 concebido por Juan Rodríguez de la Cruz., que alberga hoje  a radio Ourense




E por fim.. as Burgas, e as memórias que, em família, recordamos não com prazer, mas com alguma bonomia e com a certeza de ser  um daqueles momentos que nunca se nos apagarão da lembrança...

"Experimenta..."