Dos meus dias
sexta-feira, 5 de junho de 2026
quinta-feira, 4 de junho de 2026
Notas de viagem roubadas a um diário que não escrevi,
que me lembram um prato... que não comi,
à maneira de epílogo para a minha visita a Valência
Arroz à Valenciana, era assim que a minha mãe lhe chamava, e não só ela, porque o dito prato era convidado habitual dos menus de muitos dos pequenos restaurantes que, um pouco por todo o país, ofereciam comida com sabor de prato feito por alguém que de nós gosta.
Que eu me lembre até, o arroz solto e fumegante, em que despontavam aros de lula, redondas e verdes ervilhas, pedaços rosados de salsicha fresca, rodelas de chouriço, nacos de frango e um sem número de outras possibilidades, podia ascender à categoria de manjar de ocasião festiva, chegando mesmo a coroar bufetes de boda ou batizado.
Hoje, que eu me lembre, é raro, senão impossível, encontrar tal proposta na carta de um dos muitos comedouros hodiernos que tomaram o lugar das velhas tascas de bairro, propondo agora coisas muito mais ao gosto dos adeptos da massificação instagramada, como o inefável brunch, os pratos livres desse assassino do corpo e alma que dá pelo nome de glúten ou da não menos perigosa lactose, ou ainda seja o que for acompanhado das absolutamente horríveis batatas congeladas pré-fritas.
E eu gostava, quando a minha mãe fazia aquele arroz… tanto que agora que vou escrevendo estas linhas e dele me vou lembrando, quase salivo de antecipação….
Arroz à Valenciana…. Só muito mais tarde compreendi a razão de tal designação, quando descobri que a paella era coisa tradicional na terra ao lado da minha, e que a mesma tinha as suas origens na região de Valência… ora aí estava: o Arroz à Valenciana que a D. Hortense (todas as mães deviam ter nome de flor… a minha tem!) fazia com tanto esmero e cuidado era não mais que uma versão lusitana da paella Valenciana…
E como poderia ser de outra forma. Espanha e Portugal são nomes de irmãos. Com algumas diferenças, é certo, até com algumas embirrações mútuas. Mas todos os irmãos as têm; eu sei e posso dizê-lo de experiência, porque não sou filho único…
Muitos serão seguramente os pratos que compartilhamos em versões levemente diferentes. A gastronomia tradicional é filha do modo de vida das populações e Portugal e Espanha (no seu todos, com todas as suas Nacionalidades) partilharam ao longo dos séculos muito do caminho que os teceu como culturas indissociáveis por fronteiras, esses riscos artificiais que se tecem sobre os mapas, mas que não apagam as ligações de sangue e amor que constantemente as cruzam.
Pote ou Fabada nas Astúrias, Cozido à Portuguesa, Cozido de Garbanzos da Andaluzia e do nosso Alentejo… tudo declinações da mesma tabela periódica que nos fez elementos raros, únicos: Os Ibéricos
Os mesmos que há 40 anos, num dia de sorte pela clarividência de políticos que saíam de ditaduras cruéis e teimavam em procurar caminhos de desenvolvimento e aproximação, assinaram no Mosteiro dos Jerónimos e no Palácio Real, ambos nas capitais dos respetivos países, tratados de adesão a um sonho…
Tem sido difícil, hoje parece até em retrocesso, mas as boas ideias são difíceis de concretizar, têm escolhos pelo caminho, e, inevitavelmente, nem sempre agradam a todos da mesma maneira.
Mas hoje, eu, que amo a liberdade de movimento e de palavra, posso escrever o que quero, dizer o que quero, meter-me num carro e conduzir sem parar de minha casa até à fronteira com a Ucrânia, sem sequer ter que mudar de moeda pelo caminho….
Graças ao fim das ditaduras, passei a sentir-me em casa, tanto em Portugal como ao seu lado, em qualquer das maravilhosas cidades Espanholas;
Graças à CEE e depois à União Europeia, passei a sentir-me em casa também em mais 26 países e isso não há ninguém que me tire. Agora que, passados 40 anos, aprendi a ser, além de Português, primeiro Ibérico e depois Europeu, só me falta ser do mundo… e não deve ser difícil, afinal Sócrates já o afirmava há quase 2500 anos…..
Será que o afamado filósofo também gostava de Paella? Arroz à Valenciana?terça-feira, 26 de maio de 2026
Notas de viagem roubadas a um diário que não escrevi,
em partes, tantas quantas me promete a memória...
21 de Maio - Espanha - Comunidade Valenciana
Valencia (III)
De novo no metro para o centro da cidade. Prático, rápido mas não tão confortável quanto isso, porque embora esta fosse apenas a segunda estação da linha, as carruagens vinham já com os assentos todos tomados, o que me fez aguentar de pé os mais de 20 minutos que passámos dentro do comboio.
Na verdade, a primeira estação da linha é a do Aeroporto, e o facto dos assentos já estarem todos tomados apenas reflete a procura turística que Valencia já regista, quando faltam três meses para o pico do verão.
Dirigíamo-nos para a Cidade das Arte e Ciências, onde íriamos passar a manhã, o que nos obrigou a transbordo modal entre metro e autocarro frente a um majestoso arco - A Porta de la Mar - que, leio, é uma reprodução da porta que ali existiu, com o nome de Porta del Real, próximo de um antigo palácio real cujo tempo se encarregou de apagar.
O monumento foi erguido em 1944, durante a ditadura, como homenagem aos caídos e, leio também, continha uma placa de homenagem ao ditador, hoje tapada por uma laje de pedra.
No caminho até à paragem do autocarro reparo em mais um belíssimo edifício modernista numa esquina do outro lado da rua. O Edifici dels dracs, assim chamado por ostentar várias dessas criaturas fantásticas na frontaria e alçado, obra datada de 1901, do arquiteto José Manuel Cortina.

segunda-feira, 25 de maio de 2026
Notas de viagem roubadas a um diário que não escrevi,
em partes, tantas quantas me promete a memória...
20 de Maio - Espanha - Comunidade Valenciana
Valencia (II)
Fui exposto pela primeira vez à obra de Joaquin Sorolla y Bastida (1863 - 1923), talvez o mais sonante nome da pintura Valenciana, graças a uma exposição que, há já alguns anos, o Museu Nacional de Arte Antiga teve patente, na galeria de exposições temporárias do belo palácio das janelas verdes, sobranceiro ao Tejo.
Foi um caso de amor à primeira vista, portanto: as cenas, em particular as marinhas, os retratos, os corpos, as paletas, a luz que irradia das telas... sim, creio que é isso mesmo, a luz, a magnífica luz que parece inundar as telas onde deixou a marca do seu génio, deixaram uma indelével marca na memória.
De então para cá, tenho-me cruzado com a sua obra em locais vários como Bordéus, Paris, Corunha e, fundamentalmente, na Casa Museu que leva o seu nome na capital espanhola, local que alberga uma deslumbrante coleção de obras do génio Valenciano.
Quando comecei a preparar a visita a Valencia, o museu local de belas artes, como habitualmente, ocupou posição de destaque na lista dos locais a visitar.
Uma consulta ao sítio Web do Museu de Belles Arts de València confirmou-me o que já suspeitava: a coleção do museu tinha várias obras deste filho da cidade em exposição. Por isso, não podia estar mais entusiasmado com a visita com que iniciámos a tarde do nosso primeiro dia de passeio pela cidade.
Estávamos munidos de passe para os transportes públicos, mas a verdade é que as distâncias entre os principais pontos de interesse da urbe são perfeitamente acomodáveis a pé, tanto mais que o centro histórico é pedonal e que para chegar à paragem do autocarro se anda quase tanto como para chegar ao local que queremos visitar.
Por isso seguimos a pé, cruzando uma inesperada fila de pessoas que se prolongava por mais de uma centena de metros, por entre baias instaladas em frente a uma nova igreja, a Reial Basílica de la Mare de Déu dels Desamparats.Perguntei a duas senhoras que acabavam de chegar e que iam ocupar o respetivo lugar na fila, a que a mesma se devia.
Responderam-me que era a festa de Nossa Senhora dos Desamparados e que a multidão esperava na fila pela oportunidade de beijar a imagem da Senhora, observada de perto pela figura tutelar de Túria, a personificação do rio que banha a cidade, do alto da fonte que lhe toma o nome. (Ouvi na televisão, no dia seguinte, que a fila só acabara depois das 2h30 da manhã...)
O caminho leva-nos agora a atravessar o antigo leito do rio Turia, hoje transformado em reconfortante e prazeroso jardim, na ponte de la Trinitat, que desemboca quase em frente ao Museu de Belles Arte de València, antigo colégio Seminário de São Pio V, cuja construção se iniciou em 1693. Do alto da ponte, a estátua de San Luis Bertrán, da autoria de Jacobo Antonio Ponzanelli, parece indicar-nos o caminho e convidar à visita ao museu, que se anuncia pela sua enorme cúpula coberta a azulejo azul, quase parecendo refletir o anil arroxeado e inesperado dos jacarandás.
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| Gárgula da capella Sant Joan de l'Hospital, vista da varanda do CAHH |
domingo, 24 de maio de 2026
Notas de viagem roubadas a um diário que não escrevi,
em partes, tantas quantas me promete a memória...
20 de Maio - Espanha - Comunidade Valenciana
Valencia (I)
Valencia... um nome que me evoca os ininterruptos quilómetros de laranjais e o cheiro químico que exalavam, naquele verão da última década do milénio passado, quando por ali passámos, durante umas férias passadas num aldeamento algures na Costa Blanca.
Duas recordações apenas guardo dessa passagem... o estranho sabor da Horchata, a que não me afeiçoei, e as obras que então decorriam para edificação do que é agora o magnífico complexo da cidade das artes e ciências, que irrompe do antigo leito do rio Turia, hoje desviado para um canal artificial mais a sul, na sequência de uma DANA (que por aqui se chama de Gota Fria) em 1957... o mesmo canal que transbordou com a DANA de 2024.....
Tinha portanto apenas folhas em branco no caderno de memórias... era tempo de as preencher e a ocasião proporcionou-se com uma voo baratucho de ida e volta, mesmo a pedir que preparássemos a mochila e a máquina fotográfica.
Assim foi. Tendo tocado de novo o solo no aeroporto de Valência já na madrugada do dia 20, apressámo-nos a chegar ao hotel para podermos ainda descansar um pouco antes de começar dois dias que, sabíamos, seriam bastante preenchidos, pois com tão pouco tempo para tanto ver não haveria outro resultado.
Uma primeira nota para os transportes coletivos de Valência, que me pareceram rápidos, fiáveis e frequentes, pelo menos nas zonas por onde nos deslocámos, com o metro e os autocarros a não nos obrigarem a esperas maiores que alguns minutos apenas.
A estação de metro que mais perto fica do centro histórico é Xátiva. Foi dela que saímos numa manhã que se anunciava quente, mas não demasiado. Do outro lado da rua, a primeira descoberta: O belíssimo edifício arte nova da Estação do Norte, encostado à grande praça de touros.

























































































