Dos eclipses....
Que eu acredite, haverá eclipses desde que estrelas e planetas começaram a formar sistemas solares, algures
no tempo depois da grande explosão que inaugurou o maravilhoso cinescópio que
nos cobre a vista quando dirigimos o olhar no sentido oposto ao que conduz aos
nossos pés.
Na verdade, não são uma ocorrência particularmente invulgar
e, para nós, habitantes do terceiro planeta a contar da estrela, num dado ano, o
número de eclipses solares – concentremo-nos
nestes apenas, já que, ultimamente, não se tem falado de outra coisa, - pode ascender a cinco (facto esse, sim, extremamente
raro, dizendo-me a Wikipedia que apenas
se verificará de novo em 2206, tendo a
última vez acontecido em 1935), não sendo nunca inferior a dois.
Da mesma forma, em média, um século guardará nos seus anais
astronómicos 240 eclipses. totais e parciais.
Vendo assim as coisas, é fácil concluir que comprar um
bilhete com o primeiro prémio da lotaria é uma tarefa muito mais difícil de concretizar
que observar um eclipse, no transcurso de uma vida média normal.
Tomado pelo
entusiasmo astronómico que parece ter descido sobre todos nós, tenho tentado
lembrar-me de quando foi a última vez que observei a lua a transitar em frente
ao sol e, embora conseguisse colocar tal momento algures na década de noventa do
século passado, durante o verão – observei-o na praia, estou certo – não recordava com
precisão quando tal acontecera.
Voltei-me pois para a Internet apenas para descobrir que
afinal tinham ocorrido eclipses visíveis em Portugal em 1999, 2005 e 2015… e eu
que só me lembro do que vi na praia (1999, pude entretanto confirmar) já com um
par de óculos especiais, que comprei na altura e depois guardei em qualquer
lugar cá de casa, de que não me consegui recordar…, agora que precisava deles….
Não ter memória de dois eclipses tão recentes serve-me de
indicador. Por certo saíram nas notícias, na TV, nos Jornais (coisa que folheava
então com regularidade e afinco…); admito até que tenham suscitado conversas
com colegas e amigos….
E, ainda assim, esqueci-os…. totalmente.
Mas então porque gerou o eclipse do dia 12 de Agosto tamanho
frémito, que também eu acabei por viajar para o norte, mais concretamente para
Trás-os-Montes, para melhor o observar, ainda que já tivesse esta viagem há algum tempo programada, como proposta
dois-em-um, uma vez que queríamos visitar
familiares que por ali moram?
A resposta não me parece de difícil extração: tratava-se de
um eclipse total, algo que não ocorria em Portugal desde 1912 (curiosamente,
também me não lembro deste… 😀), embora a franja de totalidade apenas
abarcasse uma tira fina do distrito de Bragança (que, de resto, ficou de acesso
interdito, pelas condições propícias a incêndios, que se verificavam).
No entanto, o estado generalizado de euforia celestial que
por esse mundo fora se viveu e que teve, de alguma forma, o epicentro em
Espanha, mais que à singularidade do evento, deverá, estou convicto, assacar-se ao efeito
multiplicador que as redes sociais têm
sobre a propensão humana para o
comportamento ovino.
De facto, o todo-poderoso algoritmo, qual Flautista de
Hamelin, conduz os embeiçados meninos e meninas a seu bel-prazer,
encarcerando-os na luminosa caverna do écran do ubíquo smartphone e eles lá seguem em fila, alheios ao que a seu lado se
passa.
Têm no entanto, na sua grande maioria, um
propósito em mente: fotografar, capturar
(como também gostam de dizer) o evento.
Não é pois a fria e
escura circunferência escura da lua a fundir-se momentaneamente na roda abrasadora
do sol que procuram observar, mas antes fazer como todos os outros, novamente:
obter fotografias (péssimas, no geral, que fotografar o sol não é tarefa
simples) para depois enviar freneticamente a amigos e familiares uma vez e
rapidamente esquecer tudo, trocado o eclipse por uma nova e inescapável
proposta do algoritmo condutor; um verdadeiro registo de presença, à falta de
um dos letreiros idiotas que agora por
todo o lado se veem, para ao lado, ou em cima, ou por baixo, ou no meio se selfierizarem e poderem dizer “também já lá estive”.
Eu vi o eclipse. Não tirei fotografias, porque não estava
equipado para o fazer, mas poderia tê-lo feito também, como todos os outros. Não
me sinto particularmente diferente de todos os que ao pé de mim apontavam os
telemóveis para o sol. Talvez só (e, perdoem-me o pedantismo, é já muito….) na
consciência, no olhar crítico sobre o olhar que, nos dias que correm, deitamos
a tudo… a maior parte das vezes, sem nada ver.
Foi um dia cheio
De manhã tive outro eclipse, igualmente total, mas igualmente
saboroso.
O Tuela corre, frio e com algum caudal, perto de onde pernoitei.
Sempre que por ali ando, guardo uma manhã, para ir até ao
rio, cedo, ver se consigo uma ou outra imagem que me agrade.
Assim foi desta vez também, embora nada de particularmente
fotogénico me cruzasse o olhar. Sim, havia a água a correr por entre as rochas,
mas procurei e procurei e não descobria composição que me agradasse…
De repente, um reflexo inesperado chamou-me a atenção. Virei
a cara, nada vi.. de novo um movimento… uma cabeça pequena, escura, que traz
atrás um corpo esquio que corta a água e dela sai para a rocha, dá dois passos
e volta nela a meter-se. Apercebo-me do que é, retiro apressadamente a máquina
do tripé; aponto-a. Não tenho tempo para alterar as configurações… nem tampouco para desenroscar um filtro que tenho colocado à frente da objectiva e que me retira preciosa luz
de que agora necessitava. Disparo ainda assim. Três fotos. Apenas numa se
apercebe o feliz encontro, embora tenha ficado tão tremida e desfocada que nem
me atrevo a mostrá-la.
Aguardo ansiosamente que a lontra reapareça; é a primeira vez que vejo uma em ambiente natural.
Não tenho sorte... a vegetação cobre densa a borda do rio frente ao local onde estou. Vejo-a agitar-se aqui e ali, à medida a que o esquivo animal progride
margem acima, sem se voltar a mostrar…
- Eclipsou-se (digo para comigo); totalmente….