quinta-feira, 16 de abril de 2026

Notas de viagem roubadas a um diário que não escrevi,

em partes, tantas quantas me promete a memória...

10 de  Abril - Espanha - Galiza

 A Coruña 

Das Artes...

El boyero castellano, Joaquim Sorolla, 1913

Museu de Belas Artes... Como se pudessem existir arte que não o fossem, Feias Artes, portanto... 

A designação sempre me causou estranheza. Na verdade, Arte é um nome que me parece encapsular o sema da beleza, mesmo quando se procura chocar, transgredir, iludir... "afeiar".

Nos locais que visito, procuro sempre estes emocionantes depósitos de belo, em particular as coleções de pintura e desenho, formas que são para mim incessantes motivos de descoberta e prazer. Não podia deixar de ser assim na Corunha. 

Lá dentro, 3 pisos em duas alas, com paredes recheadas com obras dos séculos XVI ao XX e várias turmas de imensamente barulhentos alunos de colégios que descobriam, acompanhados pelos tão insistentes quanto infrutíferos apelos ao silêncio dos professores que os acompanhavam, a infinita magia traçada em tela por um dos muitos pintores maioritariamente galegos, representados na coleção.

Passei com agrado pelos pisos inferiores subindo depois àquilo que mais me interessava: o Séc XX, a modernidade...

e uma vez mais pude confirmar que só tenho razões para gostar tanto da pintura que se fez e faz desde o final do sec. XIX: as cores, os temas, as formas, a continua transgressão criativa que se revela em constantes universos que tantas vezes se completam e outras tantas se excluem uns aos outros, uma imensa vertigem   sim... as artes... As Belas Artes!


Jaime Morera y Galicia (1854-1927)
Mariña

Retrato de Doña Herminia Rodríguez-Borrell Feijóo
Elena Olmos Mesa (1899-1983)

Mujer saliendo del baño
Germán Taibo González (1889-1919)


     Francisco Lloréns  (1874-1948)                                             Ignacio Zuloaga y Zabaleta (1870-1945)
        Xardín do Pazo de Marcial del Adalid                                                     Antonia, a galega                              


Las Mariscadoras
Luís Seoane López (1910-1979)

Estes apenas alguns exemplos de quadros que me chamaram particular atenção, apesar de muitos outros haver que poderia ter fotografado, como por exemplo o magnífico "Epílogo" de Vicente Cutanda y Toraya, que só não fotografei porque iria interromper a explicação que um professor sobre ele dava aos seus alunos. 

A Corunha sempre foi generosa para comigo. Lembro-me, com particular prazer, numa das minhas visitas à cidade de me ter deparado com uma extraordinária exposição antológica de Ansel Adams que ainda hoje recordo com imenso prazer, não fosse ele um dos fotógrafos que mais aprecio.

Desta vez a sorte cruzou-se novamente no meu caminho com uma não menos deslumbrante exposição da obra de René Lalique, que juntava a muitas peças da coleção Gulbenkian que eu já algumas vezes vira, acervo do próprio museu Lalique e de outras coleções particulares.

Joias, peças decorativas, desenhos, peças funcionais, tudo um encanto, oscilando entre a mais bela arte nova e a não menos deslumbrante arte déco.





Mas como não há duas sem três, nas instalações da Fundación Barrié estava ainda patente uma exposição do acervo próprio daquela instituição de um nome da pintura Galega com que  me tinha cruzado apenas (que me lembrasse) há pouco, na visita ao Museu de Belas Artes: Francisco Lloréns, mas que me tinha decididamente chamado a atenção, ao ponto de fotografar um dos seus quadros.
Pelas notas da folha de sala, fiquei a saber que fora discípulo de Joaquim Sorolla, de quem eu tanto gosto

Puerto de la Coruña: Muelle de Santa Lucia, 1910

La del gorro encarnado, 1924

Só espero que esta tendência para ser prendando com magníficas exposições de que não estava à espera continue em eventuais novas visitas à generosa cidade.

O périplo artístico do dia completou-se com uma visita à Casa Museu Picasso, que embora não exibindo obras originais do artista, arvora a dignidade de local intimamente frequentado por  ele e pela sua família, o que é suficiente para desencadear no visitante a estranha e difícil de explicar sensação a meio caminho entre  voyeurismo e falsa intimidade com a ilustre personagem que locais com história semelhantes sempre provocam.

A escadaria da casa é, por si só, digna de um olhar mais detalhado, mas a luz era muito fraca e as fotos não lhe fazem total justiça, pelo tremor que as perturba. Não obstante, não poderia deixar de as fotografar, já que por ali passei, cruzando o mesmo chão que o autor de Les Demoiselles d'Avignon ou de Guernica.

Desconhecia qualquer interesse de Picasso pela fotografia, para além da sua relação com Dora Maar,
 mas na casa museu esta interessante máquina lá estava... sem legenda.... seria dele? do pai?



A curiosa escadaria que dá acesso à casa onde Picasso viveu
 com a família, na Corunha, na  Rua Payo Gómez, 14.

quarta-feira, 15 de abril de 2026

    Notas de viagem roubadas a um diário que não escrevi,

em partes, tantas quantas me promete a memória...

9 de  Abril - Espanha - Galiza

 A Coruña


A primeira coisa que notei foi o desaparecimento dos carros elétricos. Irmãos gémeos dos elétricos de Lisboa (e em muitos casos, os próprios, trabalhando para outro patrão) coloriam de amarelo a linha que corria ao longo do passeio marítimo, com as catenárias suspensas nos belos postes vermelhos que ainda lá estão, agora apenas remetidos ao papel de interessantes candeeiros.

A segunda, decorre da primeira: a última vez que tinha estado na Corunha ainda os elétricos circulavam por ali. Uma rápida consulta à internet informam-me que o serviço foi terminado em 2011, na sequência de um descarrilamento; ora, concluo assim que pelo menos há quinze anos que não enchia o horizonte com a eterna Torre de Hércules, também ela por estes dias fechada a visitas, por obras de manutenção.

O dia estava meio gasto. Grande parte fora passado na estrada que de casa aqui se ultrapassam os seiscentos quilómetros, a que se acrescentava o tempo fruído na visita à exposição da Annie Leibovitz. 

Como habitualmente levava uma lista de lugares para passar. O monte San Pedro era um deles. Nunca lá tinha estado, por isso para ele me dirigi, com a facilidade que agora temos de um caminho apresentado na janela do telemóvel a debitar instruções de "vira para aqui" ou "segue por ali", tão diferente dos tempos em que levava folhas e folhas de instruções de trânsito, recolhidas no Autoroute Express da Microsoft.

Pelo caminho, a primeira paragem: o obelisco do milénio, obra de 2000, concebida por Gerardo Porto. 47 metros de altura de uma estrutura de aço forrada a cristal de rocha, cujos primeiros 13 metros encapsulam cenas da história da corunha, visíveis quando o obelisco está iluminado, o que não era o caso.


Iluminado ou não, a flecha ergue-se para o céu como se fosse resposta aos mais de 50 metros da Torre de Hércules, lá ao longe do outro lado da baía e acrescenta interesse a um passeio já de si  recomendável pelas vistas que dele se disfrutam e pelo ar puro e tisnado a azul que sobe do Cantábrico.

Frio, vento, cinzento o céu. Enfim, como eu gosto, diria mesmo. De que vale por aqui passar nos dias em nada tuge nem muge e o céu em vez de azul tem aquela cor desmaiada dos dias de canícula, que desconcerta, só de para ela olhar?

Deve ser fundo aqui o mar, a julgar pelo escuro que contrasta com a branca espuma que sobra da base das rochas e dos muitos carneiros que saltitam no azul.

Um pouco mais à frente uma curiosa e bem humorada evocação da Galiza: Um enorme polvo, feito banco para a fotografia, mas por si só uma atraente escultura, verdadeira homenagem ao delicioso molusco que  povoa as cozinhas de restaurantes, arraiais e feiras, para acabar cozido, cortado às fatias nos típicos pratos de madeira, regado a azeite e acrescentado de flor de sal e pimentão... quem disse que a delícia tem de ser complicada?


No topo do Monte San Pedro há um mirador, mas há também um bateria de artilharia de costa datada do período entre as duas guerras mundiais. Votadas ao abandono, foram em boa hora reconvertidas em espaço museológico, tendo toda a zona sido também convertida num agradável parque, ao qual se pode ascender diretamente desde o passeio marítimo por um ascensor que, lamentavelmente, se encontra desativado.


Aqui acima chegado, o visitante pode aventurar-se por um curioso labirinto de Metrosideros (deve ser belíssimo, quando em flor), passear pela bateria de costa visitando o centro de interpretação ou apenas deixar tomar-se pelas magníficas vistas que alguém orgulhosamente decidiu reclamar como as melhores do mundo.



Tirando o labirinto, (em que não me atrevi a entrar não fosse o minotauro esperar-me) aproveitei em pleno as duas outras possibilidades, esticando as pernas durante largos minutos pelo aconchegante relvado do morro, passeando entre os enormes canhões a lembrar o épico "os canhões de Navarone". 

  















O sol caminhava rápido para o ocaso e a temperatura baixava com promessa de chuva eminente, era pois hora de procurar o local de pernoita e pensar em jantar. Amanhã voltaríamos à cidade, que, do outro lado da baía, se nos oferecia, aberta, larga, disponível, como que gritando: "Venham, que muito têm ainda para ver".



   Notas de viagem roubadas a um diário que não escrevi,

em partes, tantas quantas me promete a memória...

9 de  Abril - Espanha - Galiza

 A Coruña



O Pretexto.

Annie Leibovitz. Um nome que é sinónimo de um certo século vinte, que também foi e é o meu século vinte, tecido nas páginas da Rolling Stone, da Vanity Fair e da Vogue, mas que fácil e rapidamente transbordou para o panteão dos fazedores da memória.

Eu nunca li a Rolling Stone; eu nunca li a Vanity Fair ou a Vogue, muito embora esporadicamente me tenha cruzado com as três, quanto mais não fosse nos escaparates das lojas de revistas (coisa que também remete logo para um tempo em que os anos se escreviam sem um dois na ordem dos milhares).  Primeiro porque neste país que habito, revistas estrangeiras, antes que alguém abanasse um cravo na rua, eram raras e caras; depois, porque deixaram de ser raras, mas continuaram a ser caras e, depois ainda, porque quando finalmente as podia comprar e ler, os meus interesses estavam, como estão, muito distantes da alta ou até da baixa costura e das peripécias das vidas das pessoas que em geral habitam as páginas de títulos como os citados (muito embora a música e os músicos seja tema que  desde sempre me interessou).

As fotos de Annie Liebovitz, no entanto, transcendem o suporte que habitam. Não há quem goste de fotografia que nunca dela tenha ouvido falar. É um nome inescapável em qualquer antologia fotográfica da segunda metade do tal século que nomeei e eternamente colado nas imagens que guardamos na memória de alguns dos outros nomes que, de alguma forma, nos habitam a existência, sejam eles uma respeitável senhora de nome Patti Smith, um rapaz não menos respeitável chamado Bruce Springsteen, ou até a eterna soberana do Reino Unido, Elizabeth, segunda de ordem, mas primeira na duração do respetivo reinado em terras Britânicas.

E depois há o bom gosto.... o dos prodígios de composição e iluminação que se estatelam no papel impresso, independentemente dos sujeitos retratados, para deleite do (permitam-me que o diga) igualmente bom gosto de quem os admira, pendurados numa parede

como as das salas da exposição organizada pela Fundação  MOP, ali bem no centro da sempre recomendável cidade de A Coruña.

Foi esta a razão primeira de ir. O resto, e foi muito, veio pela constante vontade de ver e descobrir que me acossa e que me importa saciar..



domingo, 29 de março de 2026

 

Das Cartas e das Palavras


As cartas são um presente, leio no título de mais uma entrada no blog, que consulto quase todos os dias, na minha volta pelas publicações de outros que, como eu, dedicam tempo a sagradas inutilidades como ilusões, quimeras, vontades, gostos, palavras…, sim, no fundo de tudo, o que resta em precipitado é não mais que isso: palavras.

Pois é delas que se fazem as cartas. Sem a sua óbvia e gráfica presença, restaria apenas a frieza de uma folha de papel nua, talvez geometricamente cortada em formato pré-estabelecido, talvez meticulosamente impressa com dezenas de linhas paralelas, talvez urdida com a gramagem conveniente para se não tornar demasiado flexível nem tampouco rígida, talvez… vazia…

Juntamo-las quando delas precisamos. São elas que nos possibilitam ser voz distante, lá, onde por força da lonjura, nunca a nossa voz chegaria. E então é vê-las correr, umas atrás das outras, na tal folha de papel,  talvez com as tais linhas paralelas a servir-lhes de pista, de escorrega.. e oh, como elas correm; como alegres se encarreiram para se desdobrarem em sentido e intento.

Para tudo servem. Alguns usam-nas apenas para encher espaços, para acrescer volume. Evito-os, como evito estar onde sei que nada tenho a acrescentar. Nessas alturas prefiro a certeza sincera do silêncio, que, diga-se, nunca deverá ser confundido com a disponibilidade indiferente da página nua, porque, ao contrário desta, fala por si só, porque enche espaço que nos rodeia apenas para que ouçamos o que ele nos dá: o silvo do vento, o coaxar das rãs, o murmúrio das folhas, a síncope dos passos sobre a terra. Como é, pois, generoso o silêncio, que se auto-anula, para que tudo o resto brilhe… como então dele não gostar?

Para tudo servem, dizia… até para se erguerem em poema… e ai de quem as lê então, que tudo podem revelar... É na poesia que mais escondem segredos;  que mais grávidas de sentidos se conformam.

Sei de poetas que as usavam como se de martelo e escopro se tratasse, ferramentas de pedreiro, para com elas construírem insignes edifícios. Para esses, as palavras, tanto como guardadoras de sentidos, eram tijolo e argamassa e os seus poemas forma, corpo, coisa… e haverá algo mais belo para uma palavra ser que uma pequena coisa (ou até coisa nenhuma, que o silêncio, a pausa a falta de palavra é outra forma, igualmente legítima, de encher o espaço). Se assim não fosse, todas as palavras seriam corrente e todos estaríamos para sempre presos uns aos outros numa eterna fila de confrangedora humanidade…

Descansam por vezes, também, as palavras. Merecem-no, pois são curtas e é longa a viagem.

Escrevo-as com o cuidado que guardamos para as coisas frágeis. Uma a uma, coloco-as na folha virgem do papel geometricamente cortado em formato pré-estabelecido, meticulosamente impresso com dezenas de linhas paralelas, urdido com a gramagem conveniente para se não tornar demasiado flexível, nem tampouco rígido.

Assim acondicionadas, transportam facilmente coisas tão sumamente leves que não se lhes conhece massa, como a amizade ou a paz. Por isso se usam para escrever cartas, aquelas coisas belas, mas hoje raras, que são um belíssimo presente!

terça-feira, 24 de março de 2026

 


Que bom poder voltar a cantar, após ter falhado o último concerto por causa da perna partida....

sábado, 21 de março de 2026


   Dia Internacional da Árvore

Dia Mundial da Poesia

Parabéns Joan Sebastian Bach

(histórias de um dia que é só um,
embalado em óbvia redundância)



Nunca tocarás o céu;
parece dizer-me, nua, a árvore,
tampouco as estrelas,
mesmo candentes ou proscritas,
que também por aí as há.

Quem te-lo disse?
Se serei um dia teu sustento
far-me-ei galho, folha ou até flor
para que, antes de cair, 
raspe insurrecto alguma nuvem.
Serei causa de chuvada,
mas jamais se saberá.
  
Ah, mas se antes eu secar?
Se a praga me roer 
ou o vento me derrubar?

Ter-te-ei antes escrito 
como desenho de palavras.
Em tinta, poderei tudo dizer:
que nunca por ali te vi, 
ou que sempre árvore me vivi,
que ninguém desmentirá.


P.S. para ler com a ária das variações Goldberg como música de fundo