segunda-feira, 20 de abril de 2026

 Notas de viagem roubadas a um diário que não escrevi,

em partes, tantas quantas me promete a memória...

11 de  Abril - Espanha - Galiza

 Orense 


Orense. Outra cidade que não visitava há largos anos.... a última vez, tínhamo-lo feito eram ainda crianças as minha filhas... tempus fugit... por supuesto!...

Certamente  por essa razão, poucas memórias restavam... todos os locais me pareciam novos (salvo um de que falarei mais tarde)... até mesmo a Praza Mayor por onde começámos o passeio depois de uma primeira paragem junto das termas da Chavasqueira, um dos curiosos espaços termais à beira do Minho que por aqui se encontram para disfrute gratuito pela população e visitantes. 

Para nós foi antes o local da pausa para umas sandes,  num dos bancos  ali instalados e de um curto passeio à beira-rio para estirar as pernas.

Toda a zona do centro histórico de Orense é pedonal, o que permite um passeio despreocupado e mais atento às particularidades do entorno que às vicissitudes do tráfego. Mais ainda quando se o faz numa tarde ventosa e fria de sábado, quando tudo se encontra já fechado, salvo alguns restaurantes, espalhados por uma ou duas das estreitas ruas que lhe servem de artérias.

Orense é também cidade que se arrasta por uma encosta e o nosso passeio levou-nos cerca de cinquenta metros acima da cota da Praza Mayor até ao miradouro em frente ao Convento de San Francisco, onde pretendíamos visitar o claustro. Infelizmente só abriria de novo às cinco da tarde, pelo que voltámos para a zona baixa da cidade, para visitar o único local da cidade de que me lembrava claramente: as burgas.

"Pai, a água é boa para beber?", perguntou-me a minha filha mais velha

Eu, sabendo que a água era quente, mas julgando que jorraria a uma temperatura inofensiva, irrefletidamente, respondi "Experimenta".

Felizmente apenas tocou com os lábios na água que soube depois jorra a mais de 60 graus celsius, o que ainda assim lhe causou uma pequena queimadura, felizmente sem necessidade de qualquer cuidado especial.... já eu, fiquei com o desconforto para sempre....

O Minho e uma curiosa escultura  ao pé das Termas da Chavasqueira

Praza Mayor


Não visitei o claustro do convento de San Francisco, mas pude passar por várias e fotogénicas arcadas na Praza Mayor

 

Algo quase impensável hoje em dia...: ruas de centro histórico completamente vazias ao início da tarde... como é bom 😊

O cruzeiro na rua de Bailen  protege talvez os peregrinos (por aqui passa o Caminho de Santiago) ou , quem sabe, os visitantes, na sua ascensão ao mirador, passando por ...


... uma curiosa praceta de um enorme edifício em crescente.

A vista lá de cima, no entanto, não é propriamente avassaladora, já que, tirando a torre e o campanário da  catedral, as retinas apenas alcançam o laranja dos telhados 


Pelo caminho, fui-me dedicando a outra das minhas obsessões fotográficas: portas, a sua óbvia e expectável geometria e a sua inesperada e nem sempre enriquecedora policromia.

A fonte da Praza do Ferro onde lavámos a desilusão... 

...por o Bar Orejas estar fechado e não podermos provar uma das suas afamadas sandes das ditas que lhe dão nome....

Alguma da estatuária da cidade

 Xaime Quessada,  O Mouchiño

Acisclo Manzano, Maternidad                              Ramón Conde,  La Lechera

César Lombera, O Carrabouxo, personagem de banda desenhada com presença no imprensa local e tão querido dos Ouresenses que teve direito a uma divertida estátua numa das praças da cidade.


 O Interessante  edifício Viacambre, datado de 1974, também conhecido como "A colmeia", 
 concebido por Juan Rodríguez de la Cruz., que alberga hoje  a radio Ourense




E por fim.. as Burgas, e as memórias que, em família, recordamos não com prazer, mas com alguma bonomia e com a certeza de ser  um daqueles momentos que nunca se nos apagarão da lembrança...

"Experimenta..."

Notas de viagem roubadas a um diário que não escrevi,

em partes, tantas quantas me promete a memória...

11 de  Abril - Espanha - Galiza

 A Coruña



Partia... de novo.

A torre lá ficaria, seguramente muito para lá do que eu por aqui estiver. Queria, no entanto, dizer-lhe adeus.. ou até à próxima, porque sinto que aqui hei de voltar... quanto mais não seja porque um dia há de aparecer outra exposição de fotografia que o justifique e, afinal, hoje as distâncias são mais curtas, se medidas nas possibilidades de transporte que temos ao nosso dispor e na qualidade das vias rodoviárias que ligam os nossos dois países.

Vento, fresco e forte, como compete a um local destes. Que seria da Costa da Morte sem o vento que trás o sal e o iodo que aspiro pelas narinas, enquanto procuro um olhar menos habitual sobre a  'Taça do Sol', do escultor Corunhês Pepe Galán.

Quase ninguém por aqui anda, posso fotografar à vontade, como gosto. Sabe-me bem. Não tivesse ainda bastantes quilómetros e visitas pela frente e deixar-me-ia estar por aqui uma boa parte da manhã, passeando de escultura em escultura.

Mas há uma que eu não posso mesmo deixar para trás, afinal foi por ela que aqui vim esta manhã. Vou até à sua beira pelo caminho forrado a laje de pedra que a ela conduz.


A inusitada forma da "Caracola" parece convidar-me à escuta. Por um momento pensei que, se perto da sua redonda boca me colocasse, iria ouvir outro som que não o do mar e do vento que me enchem os ouvidos. Talvez segredos, talvez histórias, talvez a pulsação da pedra, da terra, das gentes da Galiza... mas não. Nada mais ouço, talvez por ser estrangeiro, que os segredos, se os há, são para quem aqui tem raízes, ou emprestou o azul das veias  ao mar que aqui lhe toma a côr.

Adeus Caracola; adeus Hércules: como os teus, também os meus trabalhos aqui estão concluídos, e a verde Galiza chama-me...





sexta-feira, 17 de abril de 2026

Notas de viagem roubadas a um diário que não escrevi,

em partes, tantas quantas me promete a memória...

10 de  Abril - Espanha - Galiza

 A Coruña 

Parte II - Da cidade


Visitar uma cidade obriga  a várias deslocações por dentro do seu corpo, sejam estas previamente estruturadas num racional mapa de planeamento, ou apenas definidas quando a isso o obriga o simples facto de se querer ir de um lado para o outro.

Na verdade, quase sempre acabo por usar uma mistura de ambas, já que por mais planeamento prévio que o visitante possa estabelecer, aparecerá sempre algo imprevisto que motivará alterações à programação previamente estabelecida.

E depois,  algumas cidades são feitas para passear, em particular as suas zonas históricas, com uma dimensão decididamente mais humana do que os vastos e extensos conglomerados de almas em que todas, quase sem excepção, se tornaram.

Entre as deslocações aos vários museus e locais que pretendíamos visitar optámos sempre por andar a pé, já que as distâncias estavam dentro do razoável e o tempo de feição.

Estamos ainda na época baixa e apesar de se verem alguns autocarros de turistas e de se ouvir italiano e grego nas imediações da Torre de Hércules, passeava-se pela cidade e pelos seus pontos de interesse turístico sem se avistarem as avantajadas concentrações de humanidade que o verão irá sem dúvida atrair.

Tanto assim é que, à hora da siesta, passatempo que por aqui também se pratica com afinco, havia ruas literalmente desertas no centro da cidade velha, para gáudio deste visitante que tem uma proto-fobia de multidões, por causa do hábito que há muito cultiva de fotografar (de preferência sem gente pelo meio....)

Entre o passeio marítimo e a  cidade velha, muitos foram os motivos de interesse a exigir a paragem do olhar e um calmo clique de obturador. Por aqui os deixo:


Caronte, o barqueiro que levava as almas na sua barca no Hades,  obra do escultor galego Ramon Conde, observa os visitantes que percorrem o parque da Torre de Hércules, talvez procurando a quem oferecer serviços....


 

Breogan, o fundador de Brigantia (Corunha) e, reza a lenda,  construtor de uma enorme torre, a que os Romanos mais tarde deram corpo, com a construção da Torre de Hércules. A estátua de pedra é uma criação do escultor galego Xosé Cid.



A Caracola, obra do escultor Corunhês Mocho Amigo. Sempre me fascinou esta escultura que parece a casca de uma qualquer habitante marinho... ou um cachimbo invertido... ou uma antiga corneta auxiliar de audição


Se há coisa que seja típico da Corunha são as suas belas marquises envidraçadas, que mais belas ainda ficam quando o sol as faz brilhar, tanto que até fere a vista....





Não se pode passar pela Corunha sem se passar pela Praça Maria Pita, e pelo seu majestoso edifício do paço Municipal...


... Mas há mais modernismo para se espreitar naquelas ruas, se estivermos bem atentos....


Maravilhosa, esta porta Déco....


A hora da sesta pode não ser a melhor hora de luz para fotografar, mas comporta vantagens óbvias....




Curiosos e atraentes os efeitos estéticos das quadriculas , dos vidros, da luz, das cores.... 


Quando a rua vai deserta, e a luz ajuda, até uma simples tampa de poço de visita pode dar vida a uma fotografia


O pequeno farol do Castillo de San Antón não aguenta comparação com a majestosa Torre de Hércules, mas lá terá também cumprido a sua função....


O castillo de San Antón e a casa do respetivo governador.



A Marina de hoje com a torre de controle do porto e algo bem mais tradicional....



O Passeio Marítimo e os belíssimos suportes das antigas catenárias dos carros elétricos que, felizmente, ainda por ali se mantêm.