Lisboa - Santa Iria da Azóia
25 de Fevereiro de 2026
Prólogo
Por fim... de novo o desafio, a vontade de ir, e a dúvida: serei capaz? conseguirei chegar onde pretendo? o pé e a perna aguentarão?
Só há uma forma de o saber... nos últimos tempos retomei a minha rotina do passeio diário de quase 7 km, para reabituar o corpo - e em particular a perna ofendida - ao exercício e ao esforço que andar suscita. Fiz ainda duas tiradas de 10 km para testar a resposta e não senti inconvenientes de maior, para além de algum desconforto totalmente suportável no pé direito e da já habitual moinha no tendão de Aquiles (agora no pé esquerdo) que irá, em breve, levar-me de novo para a fisioterapia.
Queria testar uma etapa de 20 km, pois é esta a distância que considero mais adequada à minha forma e à minha vontade.
Olhei para o mapa. Ainda me faltam bastantes etapas na Costa para a completar na fachada ocidental, mas são relativamente distantes de casa e caso quisesse regressar antes de concluir a etapa que me proporia fazer, seria mais difícil.
Porque não as etapas do Caminho de Santiago a partir de Lisboa? Até Santarém, pelo menos, tenho sempre a possibilidade de apanhar transporte para casa com alguma facilidade, graças ao Comboio.
Pois seja. Ademais, pelo menos as primeiras não terão desníveis acentuados, correndo sempre ao lado do Tejo. Assim seja então.
Mas se vou fazer etapas do Caminho de Santiago, mais vale fazê-lo a preceito. Foi por isso que, na véspera da primeira tirada me dirigi à Sé de Lisboa para comprar a credencial de peregrino e obter o primeiro carimbo da viagem. Quem sabe, mais tarde siga mesmo até ao Porto, e a credencial dar-me-á a possibilidade de pernoitar em albergues, se tiver essa necessidade.
Aproveitei também para enviar desde logo um primeiro postal, como habitualmente faço, uma vez que no dia a seguir queria partir muito cedo e os correios não estariam abertos para garantir que o selo seria obliterado com a marca do dia.
Já em casa, preparei a mochila e as sandes, a água e o pequeno saco com material de primeiros socorros e ditei-me cedo, com o despertador para as 5 da manhã.
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Saí de casa para uma noite húmida e escura que me acompanhou ao longo da calma viagem entre ambas as margens de um rio que ainda se não deixava ver, quando sobre ele passei no comboio, de onde saí em Sete-rios para apanhar o metro até à estação Baixa-Chiado.
Poucos minutos passava das sete da manhã quando cheguei por fim à porta da Sé de Lisboa.
Tentava tirar as primeiras fotografias do dia quando a única outra pessoa que por ali se encontrava se me dirigiu. Um simpático asiático, japonês, talvez, pediu-me para lhe tirar uma fotografia com o telefone. Estava ali porque estava a iniciar o Caminho de Santiago, disse-me num inglês pouco escorreito. Desejei-lhe o óbvio e sincero "Bom Caminho" e segui por fim em frente pelas ruas desertas de Alfama. "Bom caminho", desejei-me também, enquanto palmilhava o empedrado das vielas tornadas catálogo de casas de fado e alojamento local com o prazer de o fazer sem a companhia dos malfadados tuquetuques que dali a umas horas transportariam mais uma revoada de turistas.
É tão raro passear em Lisboa, pensei. "Há quanto tempo não passava por aqui?" perguntei-me enquanto caminhava em em frente ao Museu do Fado, no largo do Chafariz de Dentro.... Na verdade, deveria pôr alguns passeios pela capital na lista de coisas a fazer, agora que a reforma me possibilita flexibilidade na gestão do tempo. Nota tomada!
Santa Apolónia. Algumas pessoas já nas paragens de autocarro, mas ainda nada do habitual frenesim de tráfego e pessoas que por aqui habitualmente se vê.
Lá em cima, a cúpula do panteão sobrepõe-se a tudo o que a vista alcança. Em boa verdade, o caminho oficial passa lá à porta, acho, mas eu preferi vir logo cá para baixo, para não ter que vencer muitas subidas, por não saber como reagiria a perna ao esforço acrescido. Além do mais, para além de um par delas pouco depois da saída da Sé, não me lembro de ter visto quaisquer outras indicações de direção - as tão famosas setas amarelas - nos locais em que fui obrigado a decidir-me por esta ou aquela rua...
Paro na ponte sobre a linha férrea para dar uma olhada aos inúmeros comboios lá em baixo parados nas linhas Parecem esperar por mim... um outro dia, ainda não comprei o passe...; à minha esquerda, um arco encimado pelas armas da Ordem de Santiago de Espada - leio mais tarde - dá acesso ao Convento de Santos-o-Novo.
Um pouco mais à frente, cruzo-me com aquele que parece ser o prédio mais estreito de Lisboa e que eu apenas me recordava de já ter visto em fotografia. Afinal, não foi mau de todo não ter seguido o caminho oficial, já vi muita coisa que não conhecia e bastante mais me aguarda...
Tomo a estrada de Chelas e, num repente, eis-me fora da cidade, o chão já não lembra Lisboa; há o verde do campo, o cheiro da terra molhada e um muro talude à minha esquerda. Não o sabia, mas estava a passar no limite oriental do Cemitério do Alto de S. João, enquanto que do outro lado velhas fábricas em ruínas atestam uma Lisboa de manufacturas que há muito desapareceram, engolidas por outras revoluções industriais.
Mais à frente, os muros ganham inusitada cor. Dir-se-ia uma galeria de street art, a estrada de Chelas, por estes lados. Os nomes mais sonantes do panorama da arte de rua oferecem cor e espanto ao passante... Bordalo II; várias são as vezes que fotografo esta reconhecida assinatura, uma delas numa obra partilhada com o outro autógrafo mais notório de quantos por cá se dedicam a encher muros e empenas com muito mais que riscos idiotas e poluentes: Vihls.
Numa Rotunda que marca a saída de Chelas para Marvila, ergue-se um curioso entrelaçado de pneus, saído da inesgotável veia criativa de Bordalo II. Aqui é essencial a ajuda do telemóvel para ver o que a grande estrutura esconde. Aponte-se para ela a câmara do aparelho e a simpática cara de um panda revelar-se-á com toda a nitidez. Em boa hora a Câmara Municipal terá adquirido esta obra que eu vi pela primeira vez na exposição que Bordalo II teve patente em 2022 num armazém da Marchal Gomes da Costa. não muito longe daqui, portanto.
Passo o Liceu D. Dinis. Outro sítio que morava esquecido na minha memória. Tinha aberto no ano antes de eu vir dos Açores para Lisboa, e lembro-me de ter estado um dia no seu portão à espera para me encontar com alguém... já não me lembro é quem....
Desço uma paralela à Marechal Gomes da Costa. Quero ir para baixo, para o rio. Tomo o caminho para a estação do Oriente.
Por fim o rio e o ensejo para uma pausa. Levo dez quilómetros de caminhada. aproveito um dos muitos bancos de pedra em frente ao rio. Aqui, a calma é imensa. não se vê quase ninguém, apesar de duzentos e cinquenta metros mais acima ser já hora do corrupio e das estradas estarem cheias do habitual e compacto trânsito.
Como uma sandes e bebo um iogurte. Aproveito para proteger melhor com adesivo o calcanhar direito, para o poupar à fricção do sapato, já que, provavelmente devido à alteração da morfologia do pé depois da operação e de alguma maior sensibilidade da pele naquela zona, por duas vezes já, desenvolvi incómodas e dolorosas bolhas.
De agora em diante, vai ser sempre em frente, ao lado do rio. Primeiro pelo Passeio do Tejo, que corre ao longo do parque das Nações, depois pelo caminho que ladeia o novo Parque Tejo e, finalmente, após ultrapassar a nova ponte pedonal sobre o rio Trancão, pelo passadiço do percurso Ribeirinho de Loures / Ciclovia do Tejo, que me há de levar ao destino do dia.
O caminho é fácil, plano e agradável, mas o dia promete chuva. Há uma hora maldizia o ter trazido o impermeável na mochila, porque o dia ia ensolarado e quente. Agora, com a chuva a anunciar-se no horizonte, sentia-me bastante mais contente por o ter metido na mochila.
De repente um peneireiro salta-me inesperado do caminho e vai pousar no candeeiro. aproximo-me dele e tiro uma fotografia, embora a objectiva da máquina que levei comigo não tivesse o alcance suficiente para tornar a imagem da bonita ave em algo mais que uma desconforme mancha no resultado final.
O peneireiro, vendo-me apontar-lhe a máquina voa de novo para o local de onde fugira para ir recuperar um pequeno rato que transporta nas patas para o pé do rio, onde por fim aterra para se entregar ao repasto.
Um pingo,.. outro... e outro ainda, ela aí está, e em força. Rapidamente retiro o impermeável da mochila e visto-o de pronto; cubro também a mochila com a respetiva capa impermeável e sigo em frente. Gosto de andar à chuva, desde que esteja para isso equipado. Vai ser assim durante mais de uma hora.
Cruzo-me com um ciclista que vem em direção oposta e me grita "Bom Caminho". Agradeço-lhe com um gesto.
Nas tábuas do passadiço vou lendo as marcações de distância, 2.000 m; 3.000 m; 4.000 m...
Tinha pensado que faria a etapa até à Póvoa de Santa Iria, onde apanharia o comboio de volta. No entanto, consultado o registo no Wikilok, tinha já ultrapassado os 20 Km e não queria esforçar mais os pés e a perna. Uma saída de emergência dos passadiços dava passagem para a estrada que conduzia a Samta Iria da Azoia. Decidi que esse seria o termo da etapa. Tomei pois a estrada, aproveitando a berma decente que a ladeava. Já em Santa Iiria, dirigi-me à Junta de Freguesia para carimbar a credencial e o meu caderno de viagem, o que me obrigou à maior subida do dia, ou seja cerca de 700 metros de constante subida, com uma pendente marcada.
"Já não há senha de atendimento para hoje", disse-me a simpática funcionária da Junta, mal me viu entrar, e sem que eu tenha perguntado fosse o que fosse.
"Eu apenas quero carimbar a minha credencial, pode ser?"
"Carimbar o quê?"
Lá expliquei o que e porque o desejava. A amável funcionária nunca tinha sido confrontada com um pedido destes e informou-me que iria perguntar a quem de direito se poderia usar o carimbo da Junta com tal fim.
Um rápido telefonema e, dúvidas esclarecidas, aprestou-se a embelezar a minha credencial e o meu caderno com um senhor carimbo, que exibe os escudos das três freguesias agora juntas na União de Freguesias de Santa Iria da Azóia, São João da Talha e Bobadela.
Tinha atingido o meu objetivo. Sentia-me cansado, mas não exausto e os pés estavam apenas moídos da caminhada, não me transmitindo desconforto maior.
Tinha chegado por volta das 12h30, o que perfazia cerca de cinco horas e meia de caminhada. Depois de almoçar num pequeno restaurante local, daqueles que mais parecem uma cantina porque toda a gente, clientes e empregados, se conhece e se trata por tu, rumei a casa de autocarro e comboio, de forma fácil e relativamente rápida, graças uma vez mais ao inestimável passe Navegante.
Espero em breve poder dar seguimento a mais este caminho e a continuar o percurso da costa, mas primeiro vou ter de passar pela fisioterapia, para ver se melhoro dos tendões de Aquiles. Em particular o esquerdo, que agora me dá bastante desconforto, quando arrefece, após o esforço de caminhar uns quilómetros.
Para um caminho começado na Sé, nada melhor que um postal editado pela própria Sé de Lisboa,
com um vitral ilustrado com S. Vicente, patrono da Cidade.
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Lisboa, cidade de recantos
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A Sé de Lisboa, sem ninguém à porta nem Tuk-tuks em frente..... Milagre, grita o caminhante....
PichiAvo, Poseidon, 2018
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| Os comboios parecem esperar-me.... um dia far-lhes-ei a vontade.... |
Portal de acesso ao Convento de Santos-o-Novo
Diz-se que é o prédio mais estreito de Lisboa...
...mas este deve mesmo ser o cipreste mais inclinado da Capital.
O campo tomou a cidade, dir-se-ia, quando passo sem me aperceber
ue o muro esconde o limite oriental do cemitério do Alto de S. João.
do outro lado da rua, a ruína é a das coisas, sem muros, mais óbvia.
Rua de Chelas, uma verdadeira galeria de arte urbana
Crime Scene ('); Bordalo II, Half Tiger, 2024
Bordalo II, Cherry Mouse, 2024
Bordalo II, Okuda, Half Piggy, 2024
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| Mura, 2025 |
Vihls e Bordalo II, Half Chimp, 2024
Panda, Bordalo II, 2022
a Belavista e as Olaias lá por trás
Antigos depósitos de gás do cais da Matinha. Leio que serão convertidos em hotel num futuro próximo....
por este andar, um dia Lisboa será isso apenas: um grande hotel....
Bordalo II, Lynx, 2019
a vista do local à beira-rio onde parei, para comer e descansar um pouco
Parque das Nações, Homem Muralha, Pedro Pires, 2008
Parque das Nações, Catarina de Bragança, Audrey Flack
A ponte Vasco da Gama
O peneireiro que tentou distrair-me para poder apanhar o seu rato em paz.
um maçarico
Adeus Lisboa, olá Loures
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A ponte pedonal sobre o Trancão. Quando haverá uma assim entre o Barreiro e o Seixal?
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dois Pernas-longas (Himantopus himantopus)
O longo passadiço que liga o Prque tejo à Póvoa de Santa Iria, já perto do final
Fim de viagem !