quarta-feira, 29 de abril de 2026

 GR11-E9 (Parte 16) -  Bom-Sucesso - Cabo Carvoeiro 

24 de Abril de 2026


Total 22,16 km

"Não vai ser fácil", penso, enquanto transcorro os primeiros passos no asfalto já com o pequeno-almoço tomado, obrigando as pernas e os pés doridos  a um exercício de flexão que retorna desconforto, em particular no tendão e  gémeo esquerdo.  

O  pé direito, por seu lado, apesar da lubrificação que sempre faço com um pouco de vaselina, está a ficar "queimado" na almofada que antecede os dedos, algo que nunca me aconteceu e que julgo prender-se com o facto de a bota me estar agora apertada, com a tendência que este pé tem para inchar com mais facilidade, depois da operação ao perónio.

Sei, no entanto, que com o ganhar de ritmo e o aquecimento das articulações, o desconforto passará ou pelo menos tornar-se-á menor, por isso procuro ganhar alguma constância de passo, à medida a que me dirijo estrada acima, para ganhar a cota do terreno que ladeia do lado sul a Lagoa de Óbidos.

Inicialmente o plano era seguir desde logo pela costa, mas não arriscarei fazê-lo. Todos os registos de trilhos na zona que consultei indicavam que os caminhantes se tinham debatido com passagens vedadas e eu não queria arriscar ter que voltar atrás, não estando nas melhores condições físicas.

A alternativa seria seguir pela areia, o que permitiria seguir até à praia do Baleal, mas a maré estava cheia, pelo que também esta possibilidade estava fora de questão. 

No final acabei por confiar a definição de trajeto ao Google maps, que me indicou o caminho mais rápido a pé, ladeando os grandes culpados da impossibilidade de o fazer pelas arribas como pretendia: campos de golfe.

De facto, dois grandes empreendimentos turísticos com campos de golf associados ocupam pelo menos metade da orla de costa entre o Bom-Sucesso e o Baleal, o que provavelmente  torna impraticável o seu atravessamento direto.

Pelo caminho notei ainda sinais de novos empreendimentos em construção, pelo que esta situação só tenderá a agravar-se no futuro.

Não obstante, ainda um dia gostaria de tentar fazer aqui uns troços mais pequenos, tão perto da orla quanto possível, para ver até onde se pode verdadeiramente ir.

Por agora, como disse, seguiria pelo caminho recomendado pelo Google maps, até porque  a orografia da zona, não parecia permitir passagem entre as zonas limite de ambos os campos de golfe e também porque  ao chegar ao primeiro portão de um dos empreendimentos e ter perguntado se havia passagem para a costa, me responderam logo que não, que as passagens ai estariam fechadas.

Desta forma, toda a primeira parte da caminhada, em direção à praia do Baleal, local onde finalmente retomaria a costa, foi feita em estrada de asfalto alternado depois para terra batida, numa zona agrícola, que bordejava o campo de Golfe da Praia d'El-Rey.

Ao chegar ao baleal voltei a encontrar marcações de percurso, que sabia-o de antemão, me conduziriam ao destino:  o Cabo Carvoeiro.

Na entrada da vila e já com mais de 12 quilómetros percorridos, parei num café para descansar um pouco e comer algo açucarado junto com uma boa bica cheia, coisa por que vinha ansiando desde o início do dia.

Ao levantar-me da mesa, lá tive que vencer novamente a falta de vontade das pernas e dos pés para colaborarem e só mesmo já na zona de praia, comecei a andar com  desenvoltura (não a ideal, mas a possível...)

Agora era só seguir a costa pela ciclovia que ali está instalada e depois, à chegada a Peniche, infletir para poente, para contornar a península que tem no seu extremo o cabo e o Farol que marcariam o fim da etapa.

O caminho, como o aproximar do fim, tornava-se cada vez mais desconfortável para os meus sacrificados pés. Sentia uma abrasão extensa no pé direito, que me causava verdadeiro desconforto, e a pressão no tendão de Aquiles  do esquerdo também não deixava de me incomodar.

Chegado por fim ao Farol,  local em que no  último ano, por uma razão ou outra, estive já umas quatro ou cinco vezes, e alcançado que estava o meu objetivo, pousei desde logo a mochila e apressei-me a chamar um TVDE para me levar ao centro de Peniche, pois queria ainda passar pelo posto de turismo, para carimbar o meu caderno e deixar um postal dos que ainda trazia desde a Foz do Arelho (à falta de postal local, que nem sequer me atrevi a ir procurar, pois andar, agora que já estivera parado um bom pedaço, era novamente um exercício dorido) no marco de correio ali perto instalado.

Tinha bilhete para Lisboa para o Expresso das 17h00, mas pouco passava do meio-dia, por isso dirigi-me para o terminal rodoviário onde consegui trocar o meu bilhete para o expresso da 13h30, em que segui viagem para Lisboa, finalmente a descansar de três dias de boa mas por vezes sofrida caminhada, não por culpa do terreno, mas sim por falta de treino e por ainda alguma limitação em virtude do acidente com o perónio do final do ano passado.

Não obstante, com estes três dias consegui fechar a ligação entre Setúbal  e a Nazaré, conforme me tinha proposto... e sabe sempre bem alcançar um objectivo, mesmo que à custa de algumas irritantes e dolorosas bolhas nas solas dos pés....!



A linha de costa, a cerca de dois quilómetros de onde me encontrava, onde se implantava o 

campo de golfe que até aqui chegava....



em breve mais empreendimentos surgirão por aqui. Este ligado ao surf, pelo que percebi.



Esta foi uma etapa aborrecida em termos de trajeto. Não só não pude ir pela costa, como a paisagem ao lado da estrada também não se mostrava muito interessante.... longa uma mata de eucaliptos acompanhou-me durante alguns quilómetros




ah, por fim a costa... não... apenas mais um campo de golfe...



Do green das couves e das cebolas, para o green do buraco número ...


um simples toque de cor pode alegrar  o caminho de quem passa



finalmente as marcas de caminho e a estrada que me levou á praia do Baleal


de onde já era possível avistar Peniche.



O caminho pela ciclovia marginal á costa com a duna a poucos metros do mar


a entrada em Peniche, terra de pescadores e de devoção, como são sempre as terras das gentes que convivem com o mar e dele tiram sustento.


A velha muralha da cidade.


Painel de Azulejo no lavadouro público. Ao lado há um pequeno mas agradável parque de merendas, onde já um dia parei para almoçar.


Para a frente é que é caminho, que o farol já se vê, na distância.

a cratera do vulcão e o ilhéu da Papoa 


a berlenga, no horizonte

mais sinais de devoção.... uma estação da via sacra 
que por aqui se cumpre tradicionalmente, na Páscoa.

Quase lá...



eu devia de ir bastante combalido, a julgar pelo ar de gozo deste velho pirata....


Mas quem ri por último, ri melhor....



terça-feira, 28 de abril de 2026

 GR11-E9 (Parte 15) -  Volta à Lagoa de Óbidos

23 de Abril de 2026




Acordei com os pés doridos e as pernas presas. Em particular a perna esquerda, que sentia pouco flexível na ligação entre o gémeo e o calcanhar.... o esforço no tendão não estava a passar ao lado... 

Os primeiros passos pareciam quase tirados de um velho filme do Charlot.... pequenos... corpo e perna direitos.. sem dobrar os calcanhares... iria ser assim durante algum tempo até aquecer e ganhar alguma flexibilidade.

Vinguei-me no pequeno-almoço, que terminei com um saboroso pastel de nata, porque sabia que o açúcar iria dar jeito, para os mais de vinte quilómetros que tinha pela frente, na circum-navegação da Lagoa de Óbidos. 

Saí para o caminho por volta das 8 da manhã, o que, apesar de não ser propriamente cedo,  representava um ganho de mais de duas horas e meia em relação ao início do dia anterior.

Gosto de começar a andar logo pelo início do dia, podendo beneficiar da sempre agradável visão da bola amarela a levantar-se sobre o horizonte. Hoje, no entanto, ela já estava no céu quando dei o primeiro passo em direção à pista que contorna o lado norte da Lagoa.

Durante os primeiros quilómetros, a pista acompanha literalmente o contorno do plano de água e, pelo caminho, cruzei-me com madrugadores praticantes de  corrida ou de passeio dos respetivos animais de estimação. Uma característica unia-os a todos eles: nenhum era português. O litoral Oeste está efetivamente povoado por uma multidão de imigrantes europeus que, finda a vida ativa, por ali encontraram um pouso para, em paz e segurança, gozarem a terceira parte do trânsito pelo existência, e inflacionarem a economia local...

Com as pernas já quentes, a progressão era fácil, porque o caminho era todo a direito e, pouco tempo depois, chegava à Freguesia de Nadadouro, que se faz anunciar na estrada com um bonito e comprido mural que não resisti a fotografar.

Mais à frente um cais palafítico , de construção recente e industrial, (provavelmente substituindo outro, artesanal, que por ali terá existido) surge na margem da lagoa, embora nenhum barco por ali se encontre atracado.

A estrada inflete para norte para acompanhar o braço da lagoa que para aquele ponto cardeal se alarga, e eu sigo-a, até deixar o asfalto voltar a entrar numa zona florestal, onde a lama, a espaços, se me atravessa no caminho. Com cuidado consigo sempre contornar as zonas mais escorregadias até que, num cruzamento de trilha tomo uma opção errada, que me obriga a uma subida de umas centenas de metros apenas para depois notar que a terei de transformar em descida, porque o caminho não seguia por ali.

Retomada a pista correcta vou seguindo as indicações de percurso, que continuam a aparecer, referentes ao Caminho do Atlântico - Troço das Caldas da Rainha. o que me leva durante algum tempo por estrada asfaltada, até infletir de novo para uma área de pinhal, passando mais tarde por uma ETAR e seguindo ao longo de um estradão, que me há de conduzir ao termo desta pista marcada.

Um banco de betão aqui instalado, propõe uns minutos de descanso e contemplação, mas para mim a surpresa é outra: há aqui uma escada que leva lá abaixo ao canal que desagua na lagoa.

Este canal tem aqui cerca de 7 metros de largo e as imagens do Google Earth confirmam a existência de uma ponte sobre ele, identificada como ponte pedonal do Arelho.

Ora a ponte não está mais lá. Provavelmente terá sido vítima das intempéries do início do ano, concluo. 

Não me resta alternativa para seguir em frente. Vou ter de contornar esta parte da lagoa, o que me obriga a mais um desvio de cerca de 4 quilómetros, o que, considerando o desconforto que começo a sentir nos pés, não me agrada nada. Mas contra factos, não há argumentos e, por isso, lá me ponho de novo a caminho, remoendo a contrariedade....

De novo na estrada, passo por um parque de merendas com mesas e sombra. Decido parar aqui para comer uma sandes e tirar as botas para refrescar os pés. Levo já quase 15 quilómetros de passeio e estou a começar a sentir abrasão da pele na almofada do pé direito, algo que nunca me acontecera e que eu creio se prende com o facto das botas me estarem agora apertadas, com a alteração da morfologia do pé, na sequência da operação e da tendência deste para inchar com mais facilidade...

Retemperado e  descansado, retomo o  caminho, que depois inflete para uma estrada de terra batida que passa ao lado do aeródromo de Óbidos.

Seguindo em frente vou por fim econtrar de novo a pista que pretendia seguir antes do desvio que fui forçado a fazer.

Daqui para a frente não há mais que enganar: é só seguir o caminho que, deviamente marcado como percurso de pequena rota local,  vai bordejando a margem da lagoa, contornando  um seu braço que inflete para nascente, para logo retomar já a margem sul, com uma pequena paragem para me dessedentar no "Covão dos Musaranhos", onde existem instalações sanitárias e  apoio de bar.

Mais à frente, um pequeno braço da lagoa não tem, felizmente, que ser contornado, porque uns 40 metros de ponte de madeira permitem o seu atravessamento fácil e rápido. 

Na lagoa, aqui e ali, garças aguardam  imóveis que algum peixe se ponha a jeito.... de quando em vez, uma desfere uma certeira bicada e puxa para terra um peixe que com artes de malabarismo engole depois.

Cruzo-me ainda com um ou outro praticante de windsurf  e com outro caminhante que, mais fresco que eu, me ultrapassa a bom ritmo. 

A estrada seguirá até à praia do Bom-Sucesso, no fundo da Lagoa, mas eu não vou chegar lá agora (irei à vila depois, para jantar) porque o local onde pernoitarei fica a pouco mais de um 1 quilómetro dela. Para ele me dirijo, ansioso por me descalçar e pelo conforto do descanso que me aguardará e resguardará até à hora do jantar.

Por hoje chega. Amanhã seguirei até ao Cabo Carvoeiro, se os pés, cada vez mais queixosos, me lo permitirem.  

Não terei desta etapa qualquer carimbo ou postal, porque o primeiro não consegui obter em local algum e o segundo porque pensava que não iria encontrar marco do correio aqui nesta pequena vila. Afinal havia um no local onde jantei, mas não tinha os postais nem os selos comigo....
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O bonito escudo da Vila da Foz do Arelho, que adorna a entrada para a Junta de Freguesia, de cujas funcionárias guardo amistosa recordação.


Tal como eu, outros se atiravam ao caminho com os pertences sobre o dorso....; tal como este companheiro, também eu, mais à frente, escolheria a curva, como trajeto mais curto entre dois pontos, contrariando o que sempre nos ensinaram....


A Lagoa de Óbidos, na calma de uma manhã fresca, sem vento... e sem pessoas.


E o viço de um pinheiro, com a primavera nos ramos, cuja simples presença me chamou a tenção.



Muda-se de Freguesia, mas não fora a tabuleta e ninguém o diria, olhando o calmo e continuo plano de água da lagoa.







Detalhes do interessante mural que nos acolhe no Nadadouro




O cais palafítico da Barrosa, inaugurado em Outubro de 2023


Parecia Trevo vermelho (trifolium encarnatum), mas as folhas não condizem.... A verdade é que enchiam um pequeno talude de côr..


Lírios dos pântanos (Iris pseudacorus)


Dedaleira (Digitalis purpurea) a crescer no tronco em decomposição.





O pântano no braço norte da lagoa


Iria jurar que um duende me observava, escondido entre o matagal...


Indicações de percurso, entre as quais a do GR11 E), Caminho do Atlântico, que eu seguia.


Uma bela casa ..


... merece uma bela vista.


Um cidadão ativo e dois mais recatados...

É variada a fauna avícola da lagoa, e, pelo caminho, passei por vários bem localizados e confortáveis observatórios.


A cor, que não se espera, quando se não espera... não pude deixar para trás este bonito rosa numa folha de eucalipto, sem lhe trazer a alma para casa.


A vista a partir do alto onde se encontra instalada a ETAR da Charneca.

O banco no miradouro onde pude constatar que teria de fazer um bom desvio para reganhar o caminho...

 ...lá em baixo, na borda de água, porque uma ponte deixara de existir.


Restava-me disfrutar da vista, para pelo menos minorar o descontentamento...


As instalações do Aero clube de Óbidos. com um ar um pouco de "época baixa"...


Deste lado da lagoa pude atravessar o canal do rio Arnoia por uma ponte ponte. Antes de lá chegar temi que também esta já não existisse, o que seria uma tragédia para os meus pés, mas felizmente assim não foi


No centro da fotografia vê-se claramente o local onde iniciei o desvio, ao pé do que parece ser uma vinha.


o conforto da cor por várias vezes serviu para amenizar o desconforto que já sentia, em particular no pé direito,

Ao fundo, do outro lado da água, o Covão dos Musaranhos, onde termina o braço sul da lagoa e se inicia o trajeto reto em direção ao mar 



Daqui em diante é sempre para a frente até ao fim da Lagoa...


... por vezes na companhia dos Eucaliptos.




A ponte que possibilita não ter de contornar mais um pequeno braço de lagoa.


As pacientes garças íam calmamente enchendo o estômago com o resultados as suas bicadas certeiras


Uma esperança, pousada sobre um chorão.



As últimas imagens da Lagoa, antes de virar para dentro para a povoação de... 


... Casais do Pinhal Velho, onde terminei a etapa e pude por fim dar descanso ao corpo e, em particular aos pés, que acusavam já o esforço.