sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

 


Lisboa - Santa Iria da Azóia
25 de Fevereiro de 2026



Prólogo

Por fim... de novo o desafio, a vontade de ir, e a dúvida: serei capaz? conseguirei chegar onde pretendo? o pé e a perna aguentarão?

Só há uma forma de o saber... nos últimos tempos retomei a minha rotina do passeio diário de quase 7 km, para reabituar o corpo - e em particular a perna ofendida - ao exercício e ao esforço que andar suscita. Fiz ainda duas tiradas de 10 km para testar a resposta e não senti inconvenientes de maior, para além de algum desconforto totalmente suportável no pé direito e da já habitual moinha no tendão de Aquiles (agora no pé esquerdo) que irá, em breve, levar-me de novo para a fisioterapia.

Queria testar uma etapa de 20 km, pois é esta a distância que considero mais adequada à minha forma e à minha vontade. 

Olhei para o mapa. Ainda me faltam bastantes etapas na Costa para a completar na fachada ocidental, mas são relativamente distantes de casa e caso quisesse regressar  antes de concluir a etapa que me proporia fazer, seria mais difícil.

Porque não as etapas do Caminho de Santiago a partir de Lisboa? Até Santarém, pelo menos,  tenho sempre a possibilidade de apanhar transporte para casa com alguma facilidade, graças ao Comboio.

Pois seja. Ademais, pelo menos as primeiras não terão desníveis acentuados, correndo sempre ao lado do Tejo. Assim seja então.

Mas se vou fazer etapas do Caminho de Santiago, mais vale fazê-lo a preceito. Foi por isso que, na véspera da primeira tirada me dirigi à Sé de Lisboa para comprar a credencial de peregrino e obter o primeiro carimbo da viagem. Quem sabe, mais tarde siga mesmo até ao Porto, e a credencial dar-me-á a possibilidade de pernoitar em albergues, se tiver essa necessidade.

Aproveitei também para enviar desde logo um primeiro postal, como habitualmente faço, uma vez que no dia a seguir queria partir muito cedo e os correios não estariam abertos para garantir que o selo seria obliterado com a marca do dia.

Já em casa, preparei a mochila e as sandes, a água e o pequeno saco com material de primeiros socorros e ditei-me cedo, com o despertador para as 5 da manhã.

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Saí de casa para uma noite húmida e escura que me acompanhou ao longo da calma viagem entre ambas as margens de um rio que ainda se não deixava ver,  quando sobre ele passei no comboio, de onde saí em Sete-rios para apanhar o metro até à estação Baixa-Chiado.

Poucos minutos passava das sete da manhã quando cheguei por fim à porta da Sé de Lisboa.

Tentava tirar as primeiras fotografias do dia quando a única outra pessoa que por ali se encontrava se me dirigiu. Um simpático asiático, japonês, talvez, pediu-me para lhe tirar  uma fotografia com o telefone. Estava ali porque estava a iniciar o Caminho de Santiago, disse-me num inglês pouco escorreito. Desejei-lhe o óbvio e sincero "Bom Caminho" e segui por fim em frente pelas ruas desertas de Alfama. "Bom caminho", desejei-me também, enquanto palmilhava o empedrado das vielas tornadas catálogo de casas de fado e alojamento local com o prazer de o fazer sem a companhia dos malfadados tuquetuques que dali a umas horas transportariam mais uma revoada de turistas.  

É tão raro passear em Lisboa, pensei. "Há quanto tempo não passava por aqui?" perguntei-me enquanto caminhava em em frente ao Museu do Fado, no largo do Chafariz de Dentro.... Na verdade, deveria pôr alguns passeios pela capital na lista de coisas a fazer, agora que a reforma me possibilita flexibilidade na gestão do tempo. Nota tomada!

Santa Apolónia. Algumas pessoas já nas paragens de autocarro, mas ainda nada do habitual frenesim de tráfego e pessoas que por aqui habitualmente se vê. 

Lá em cima, a cúpula do panteão sobrepõe-se a tudo o que a vista alcança. Em boa verdade, o caminho oficial passa lá à porta, acho, mas eu preferi vir logo cá para baixo, para não ter que vencer muitas subidas, por não saber como reagiria a perna ao esforço acrescido. Além do mais, para além de um par delas pouco depois da saída da Sé, não me lembro de ter visto quaisquer outras  indicações de direção - as tão famosas setas amarelas - nos locais em que fui obrigado a decidir-me por esta ou aquela rua...

Paro na ponte sobre a linha férrea para dar uma olhada aos inúmeros comboios lá em baixo parados nas linhas Parecem esperar por mim... um outro dia, ainda não comprei o passe...; à minha esquerda, um arco encimado pelas  armas da Ordem de Santiago de Espada - leio mais tarde - dá acesso ao Convento de Santos-o-Novo. 

Um pouco mais à frente, cruzo-me com aquele que parece ser o prédio mais estreito de Lisboa e que eu apenas me recordava de já ter visto em fotografia. Afinal, não foi mau de todo não ter seguido o caminho oficial, já vi muita coisa que não conhecia e bastante mais me aguarda...

Tomo a estrada de Chelas e, num repente, eis-me fora da cidade, o chão já não lembra Lisboa; há o verde do campo, o cheiro da terra molhada e um muro talude à minha esquerda. Não o sabia, mas estava a passar no limite oriental do Cemitério do Alto de S. João, enquanto que do outro lado velhas fábricas em ruínas atestam uma Lisboa de manufacturas que há muito desapareceram, engolidas por outras revoluções industriais.

Mais à frente, os muros ganham inusitada cor. Dir-se-ia uma galeria de street art, a estrada de Chelas, por estes lados. Os nomes mais sonantes do panorama da arte de rua oferecem cor e espanto ao passante... Bordalo II; várias são as vezes que fotografo esta reconhecida assinatura, uma delas numa obra partilhada com o outro autógrafo mais notório de quantos por cá se dedicam a encher muros e empenas com muito mais que riscos idiotas e poluentes: Vihls.

Numa Rotunda que marca a saída de Chelas para Marvila, ergue-se um curioso entrelaçado de pneus, saído da inesgotável veia criativa de Bordalo II. Aqui é essencial a ajuda do telemóvel para ver o que a grande estrutura esconde. Aponte-se para ela  a câmara do aparelho e a simpática cara de um panda revelar-se-á com toda a nitidez. Em boa hora a Câmara Municipal terá adquirido esta obra que eu vi pela primeira vez na exposição que Bordalo II teve patente em 2022 num armazém da Marchal Gomes da Costa. não muito longe daqui, portanto.

Passo o Liceu D. Dinis. Outro sítio que morava esquecido na minha memória. Tinha aberto no ano antes de eu vir dos Açores para Lisboa, e lembro-me de ter estado um dia no seu portão à espera para me encontar com alguém... já não me lembro é quem....

Desço uma paralela à Marechal Gomes da Costa. Quero ir para baixo, para o rio. Tomo o caminho para a estação do Oriente.

Por fim o rio e o ensejo para uma pausa. Levo dez quilómetros de caminhada. aproveito um dos muitos  bancos de pedra em frente ao rio. Aqui, a calma é imensa. não se vê quase ninguém, apesar de duzentos e cinquenta metros mais acima ser já hora do corrupio e das estradas estarem cheias do habitual e compacto trânsito.

Como uma sandes e bebo um iogurte. Aproveito para proteger melhor com adesivo  o calcanhar direito, para o poupar à fricção do sapato, já que, provavelmente devido à alteração da morfologia do pé depois da operação e de alguma maior sensibilidade da pele naquela zona, por duas vezes já, desenvolvi incómodas e dolorosas bolhas.

De agora em diante, vai ser sempre em frente, ao lado do rio. Primeiro pelo Passeio do Tejo, que corre ao longo do parque das Nações, depois pelo caminho que ladeia o novo Parque Tejo e, finalmente, após ultrapassar a nova ponte pedonal sobre o rio Trancão, pelo passadiço do percurso Ribeirinho de Loures / Ciclovia do Tejo, que me há de levar ao destino do dia.

O caminho é fácil, plano e agradável, mas o dia promete chuva. Há uma hora maldizia o ter trazido o impermeável na mochila, porque o dia ia ensolarado e quente. Agora, com a chuva a anunciar-se no horizonte, sentia-me bastante mais contente por o ter metido na mochila.

De repente um peneireiro salta-me inesperado do caminho e vai pousar no candeeiro. aproximo-me dele e tiro uma fotografia, embora a objectiva da máquina que levei comigo não tivesse o alcance suficiente para tornar a imagem da bonita ave em algo mais que uma desconforme mancha no resultado final.

O peneireiro, vendo-me apontar-lhe a máquina voa de novo para o local de onde fugira para ir recuperar um pequeno rato que transporta nas patas para o pé do rio, onde por fim aterra para se entregar ao repasto.

Um pingo,.. outro... e outro ainda, ela aí está, e em força. Rapidamente retiro o impermeável da mochila e visto-o de pronto; cubro também a mochila com a respetiva capa impermeável e sigo em frente. Gosto de andar à chuva, desde que esteja para isso equipado. Vai ser assim durante mais de uma hora.

Cruzo-me com um ciclista que vem em direção oposta e me grita "Bom Caminho". Agradeço-lhe com um gesto. 

Nas tábuas do passadiço vou lendo as marcações de distância, 2.000 m; 3.000 m; 4.000 m...

Tinha pensado que faria a etapa até à Póvoa de Santa Iria, onde apanharia o comboio de volta. No entanto, consultado o registo no Wikilok, tinha já ultrapassado os 20 Km e não queria esforçar mais os pés  e a perna. Uma saída de emergência dos passadiços dava passagem para a estrada que conduzia a Samta Iria da Azoia. Decidi que esse seria o termo da etapa.  Tomei pois a estrada, aproveitando a  berma decente que a ladeava. Já em Santa Iiria, dirigi-me à Junta de Freguesia para carimbar a credencial e o meu caderno de viagem, o que me obrigou à maior subida do dia, ou seja cerca de 700 metros de constante subida, com uma pendente marcada.

"Já não há senha de atendimento para hoje", disse-me a simpática funcionária da Junta, mal me viu entrar, e sem que eu tenha perguntado fosse o que fosse. 

"Eu apenas quero carimbar a minha credencial, pode ser?"

"Carimbar o quê?" 

Lá expliquei o que e porque o desejava. A amável funcionária nunca tinha sido confrontada com um pedido destes e informou-me que iria perguntar a quem de direito se poderia usar o carimbo da Junta com tal fim. 

Um rápido telefonema e, dúvidas esclarecidas, aprestou-se a embelezar a minha credencial e o meu caderno com um senhor carimbo, que exibe os escudos das três freguesias agora juntas na União de Freguesias de Santa Iria da Azóia, São João da Talha e Bobadela.


Tinha atingido o meu objetivo. Sentia-me cansado, mas não exausto e os pés estavam apenas moídos da caminhada, não me transmitindo desconforto maior.

Tinha chegado por volta das 12h30, o que perfazia  cerca de cinco horas e meia de caminhada. Depois de almoçar num pequeno restaurante local, daqueles que mais parecem uma cantina porque  toda a gente, clientes e empregados, se conhece e se trata por tu, rumei a casa de autocarro e comboio, de forma fácil e relativamente rápida, graças uma vez mais ao inestimável passe Navegante.

Espero em breve poder dar seguimento a mais este caminho e a continuar o percurso da costa, mas primeiro vou ter de passar pela fisioterapia, para ver se melhoro dos tendões de Aquiles. Em particular o esquerdo, que agora me dá bastante desconforto, quando arrefece, após o esforço de caminhar uns quilómetros.



Para um caminho começado na Sé, nada melhor que um postal editado pela própria Sé de Lisboa,
 com um vitral ilustrado com S. Vicente, patrono da Cidade.


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Lisboa,  cidade de recantos

A Sé de Lisboa, sem ninguém à porta nem Tuk-tuks em frente..... Milagre, grita o caminhante....

                                                                                         PichiAvo, Poseidon, 2018

Os comboios parecem esperar-me.... um dia far-lhes-ei a vontade....

Portal de acesso ao Convento de Santos-o-Novo

Diz-se que é o prédio mais estreito de  Lisboa...

...mas este deve mesmo ser o cipreste mais inclinado da Capital.

                   O campo tomou a cidade, dir-se-ia, quando passo sem me aperceber 
                   ue o muro esconde o limite oriental do cemitério do Alto de S. João. 
 

do outro lado da rua, a ruína é a das coisas, sem muros, mais óbvia.

Rua de Chelas, uma verdadeira galeria de arte urbana

Crime Scene ('); Bordalo II, Half Tiger, 2024

Bordalo II, Cherry Mouse, 2024

Bordalo II, Okuda, Half Piggy, 2024

Mura, 2025

Vihls e Bordalo II, Half Chimp, 2024

Panda, Bordalo II, 2022

a Belavista e as Olaias lá por trás

Antigos depósitos de gás do cais da Matinha. Leio que serão convertidos em hotel num futuro próximo....
por este andar, um dia Lisboa será isso apenas: um grande hotel....

Bordalo II, Lynx, 2019

a vista do local à beira-rio onde parei, para comer e descansar um pouco

Parque das Nações, Homem Muralha, Pedro Pires, 2008

Parque das Nações, Catarina de Bragança, Audrey Flack

A ponte Vasco da Gama

O peneireiro que tentou distrair-me para poder apanhar o seu rato em paz.

 um maçarico 

Adeus Lisboa, olá Loures

A ponte pedonal sobre o Trancão. Quando haverá uma assim entre o Barreiro e o Seixal?

dois Pernas-longas (Himantopus himantopus)


O longo passadiço que liga o Prque tejo à Póvoa de Santa Iria, já perto do final

Fim de viagem !


sexta-feira, 30 de janeiro de 2026


 Apenas um edifício, dir-se-á...

Mas não; sobretudo um edifício, respondo-me a mim mesmo, estonteado com a lembrança que repassar fotografias com uns anos me provoca.

O inesperado da cor, da forma, da beleza cromática a que até o céu parece adjuvar... e depois aquela torre, em inesperada madeira.

Lembro-me como se fosse hoje: a caminho de Adršpach-Teplice e das suas desconcertantes rochas, a saída da curva e o grito de cor, na esquina, do outro lado da estrada, na pequena vila de Staré Město u Moravské Třebové (Cidade Velha perto de Moravská Třebová).

Parei o carro, tinha que o fazer, e agarrei a máquina fotográfica para guardar a lembrança. O que seria este edifício? Que função teria, com a enorme torre? Comunicações, vigilância? Um painel, perto do local onde parei, identificava-o como "Obecní úřad a hasičská zbrojnice", que é o mesmo que dizer "nada" para um iletrado no Checo, como eu. 

Mais tarde, o computador ajudaria: "Prefeitura e quartel dos bombeiros". Suspeitava do segundo, pelas cores dos portões e até do próprio edifício, com este ar decidida e inesperadamente Bávaro; nunca lhe atribuiria a primeira....

Voltei para o carro e segui, confortado pelo calor da cor e pela alegria e prazer da descoberta. É isso o que procuro quando viajo e, de tão simples, é, ainda assim, tanto mais que apenas colecionar entradas numa egocêntrica lista de países e locais...


segunda-feira, 26 de janeiro de 2026


o tempo passa e as imagens amontoam-se. "Logo mais.... quando tiver tempo...  agora não posso...".

Por um lado ainda bem. Nada como deixar passar algum tempo para voltar atrás e descobrir que sim, há por ali uma ou outra joia, no meio do pechisbeque que alimenta a memória, mas não o ego (pelo menos da forma em que nos julgamos também tingidos por uma réstia de luz dourada...)

A confirmação da imagem, que nos levou o dedo ao botão do obturador num dado momento, apenas para ficar depois esquecida entre tantas outras, quase sempre agradáveis, recordações de lugares, coisas, pessoas, sabores, surpreende e confirma.... Navegar é preciso, viver!




2023 - Karlovy Vary, Rep. Checa

sábado, 17 de janeiro de 2026

 Do chão que não piso....

Sinto falta do caminho. Aborrece-me a inevitabilidade da imobilidade, o desgaste do repouso forçado, a constância de  horas maiores que a volta do relógio. Levo quase três meses deste despreparo. Logo eu, que tenho às copas das árvores, aos tapetes de folhas, às surpresas dos cogumelos, ao sorriso das nuvens, ao abraço do mar, constante e irrevogável adição... irrequieto-me de estar parado... Cansa-me!




Falsa Partida! Veredito médico, depois de uma consulta no fim da primeira série de fisioterapia.

Jogar pelo seguro. Antibiótico que as infeções ósseas são uma chatice...não queiramos lá chegar.

Sobrou-me a tristeza e o desalento de um desolador coitus interruptus... logo agora que o chão, a rua, a terra pareciam contentes de me ver  passar....

Está quase.... sinto-o. Mesmo quase....


 



quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

 


Sabe-me ainda melhor a luz, agora que o mundo  parece encolher-se cada vez mais sob as trevas da ignorância, da crendice manipuladora, da mais abjeta irracionalidade.

Boas Festas!

 

terça-feira, 28 de outubro de 2025

Tempo de sobra. Coisa rara em mim, que tenho sempre algo para fazer.

A contrariedade de um perónio fracturado, remete-me a tal estado.  

Deitado, de perna para o ar, procuro empurrar os ponteiros do relógio com coisas poucas, formas de andar que dispensem pernas, pés, em particular, tornozelos...

Livros... Onde estaria sem eles?...

...a  facilidade do écran pequeno do telemóvel, por agora,  minha janela para o mundo...

...o pensamento, chamemos assim ao, por enquanto, perene processador que me permite congeminar resposta à contrariedade casual que me reclama.

E porque não um poema? Feito ele também da arbitrariedade dos dias, do acaso simples da frase? Quase um singular cadavre exquis de um só autor, um jogo de construção com tijolos-palavra, tudo por puro diletantismo e necessidade de encher os sessenta segundos de um minuto com massa crítica que o estoure em foguetaço em cadeia. 

Sem outras regra que a necessidade de, no seu curso construtivo, lhe deixar espaço para algum tipo de rima, só por uma questão de musicalidade e de tornar o exercício um mícron mais exigente.

Avancemos então. Todos os dias, uma linha.

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Se o sal tem flor, mar é jardim

e as ondas vento, movimento

constante, de seara sem fim,

Vai-vem eterno, paramento

sacro que desce sobre o dia

até que  perca toda a cor

e se converta em noite fria

linho de estrelas, inverso alvor.


Contemplo o  voo das gaivotas

 dobras de ar que asas revelam

num voltejar de tantas voltas

que juraria que se atropelam.


 Procuram peixe, sobra-lhes espuma

e o desalento sobre a areia 

em que vão pousando, uma a uma,

maré de nada, inda assim cheia.


 Já não lhes ouço a gritaria

   que o ar fendia, em frenesim 

má foi a sorte da pescaria 

 de fome e frio vai o festim


Da arriba faço miradouro

só, entre as árvores, espalho o olhar

no horizonte, embarcadouro

de sonhos, almas, a borbulhar

no  fio de ouro com que se escreve

a linha luz de céu e mar

ferida no azul com traço leve

que logo a noite vai apagar


Só o tempo passa, a par do vento,

o resto é pedra ou simples terra,

imóvel tela, perene momento,

segredo fátuo, que o dia encerra

pois tudo agora é lá fora

lá, onde as brumas escondem fadas

seres de encantar e reis de outrora 

ou almas vis e desoladas.


Se azul o mar não me encantasse

por ter a cor que pinta as veias

e de outros tons o encontrasse

à luz de noites de luas cheias

razão teria p'ra questionar

o atrevimento da paleta

que imagino a derramar

as tantas cores do meu planeta.


Se ao menos luzisse um farol

se ar e luz fizessem par

se o tempo não corresse mole

 e a lua fulgisse em luar...

inútil esperança ou simples medo

 de um escuro que me invento

e para mim guardo em segredo

à sombra turva do desalento.


Mas mais palavras não vou ter

para contar o que não vi

o tempo passa a correr

e a escrita fica por aqui.....



Finalmente, após mais de 50 dias, tantos quantas as linhas que acima deixei,  quase dois meses de confinamento forçado, posso, de novo, começar  a  sustentar-me na perna que parti.... não era sem tempo!

As palavras ajudaram-me a passar estes dias; juntei-as mostrando muitas vezes uma óbvia falta de jeito. Ela próprias me empurraram na direção que escolheram... e os dias foram passando... melhor, por causa delas.... é o que importa!


sábado, 25 de outubro de 2025

 


Um ponto barco entre as ondas se adivinha, 
que nunca vela enfunou ali sozinha.
Feito vigia, procuro-lhe rumo sem duvidar:
do mar ou céu, há de vir um p'ra me levar.