domingo, 16 de agosto de 2026

Dos eclipses....

Que eu acredite, haverá eclipses desde que estrelas e planetas  começaram a formar sistemas solares, algures no tempo depois da grande explosão que inaugurou o maravilhoso cinescópio que nos cobre a vista quando dirigimos o olhar no sentido oposto ao que conduz aos nossos pés.

Na verdade, não são uma ocorrência particularmente invulgar e, para nós, habitantes do terceiro planeta a contar da estrela, num dado ano, o número de eclipses solares –  concentremo-nos nestes apenas, já que, ultimamente, não se tem falado de outra coisa,  - pode ascender a cinco (facto esse, sim, extremamente raro, dizendo-me a Wikipedia  que apenas se verificará de novo em  2206, tendo a última vez acontecido em 1935), não sendo nunca inferior a dois.

Da mesma forma, em média, um século guardará nos seus anais astronómicos 240 eclipses. totais e parciais.

Vendo assim as coisas, é fácil concluir que comprar um bilhete com o primeiro prémio da lotaria é uma tarefa muito mais difícil de concretizar que observar um eclipse, no transcurso de uma vida média normal.

Tomado pelo entusiasmo astronómico que parece ter descido sobre todos nós, tenho tentado lembrar-me de quando foi a última vez que observei a lua a transitar em frente ao sol e, embora conseguisse colocar tal momento algures na década de noventa do século passado, durante o verão – observei-o na praia, estou certo – não recordava com precisão quanto tal acontecera.

Voltei-me pois para a Internet apenas para descobrir que afinal tinham ocorrido eclipses visíveis em Portugal em 1999, 2005 e 2015… e eu que só me lembro do que vi na praia (1999, pude entretanto confirmar) já com um par de óculos especiais, que comprei na altura e depois guardei em qualquer lugar cá de casa, de que não me consegui recordar…, agora que precisava deles….

Não ter memória de dois eclipses tão recentes serve-me de indicador. Por certo saíram nas notícias, na TV, nos Jornais (coisa que folheava então com regularidade e afinco…); admito até que tenham suscitado conversas com colegas e amigos….

E, ainda assim, esqueci-os…. totalmente.

Mas então porque gerou o eclipse do dia 12 de Agosto tamanho frémito, que também eu acabei por viajar para o norte, mais concretamente para Trás-os-Montes, para melhor o observar, ainda que já tivesse esta viagem  há algum tempo programada, como proposta dois-em-um,  uma vez que queríamos visitar familiares que por ali moram?

A resposta não me parece de difícil extração: tratava-se de um eclipse total, algo que não ocorria em Portugal desde 1912 (curiosamente, também me não lembro deste… 😀), embora a franja de totalidade apenas abarcasse uma tira fina do distrito de Bragança (que, de resto, ficou de acesso interdito, pelas condições propícias a incêndios, que se verificavam).

No entanto, o estado generalizado de euforia celestial que por esse mundo fora se viveu e que teve, de alguma forma, o epicentro em Espanha, mais que à singularidade do evento, deverá, estou convicto, assacar-se ao efeito multiplicador que as redes sociais  têm sobre a  propensão humana para o comportamento ovino.

De facto, o todo-poderoso algoritmo, qual Flautista de Hamelin, conduz os embeiçados meninos e meninas a seu bel-prazer, encarcerando-os na luminosa caverna do écran do ubíquo smartphone e eles lá seguem em fila, alheios ao que a seu lado se passa.

Têm no entanto, na sua grande maioria,  um  propósito em mente: fotografar, capturar (como também gostam de dizer) o evento.

Não é  pois a fria e escura circunferência escura da lua a fundir-se momentaneamente na roda abrasadora do sol que procuram observar, mas antes fazer como todos os outros, novamente: obter fotografias (péssimas, no geral, que fotografar o sol não é tarefa simples) para depois enviar freneticamente a amigos e familiares uma vez e rapidamente esquecer tudo, trocado o eclipse por uma nova e inescapável proposta do algoritmo condutor; um verdadeiro registo de presença, à falta de um dos  letreiros idiotas que agora por todo o lado se veem, para ao lado, ou em cima, ou por baixo, ou no meio se selfierizarem e poderem dizer  “também já lá estive”.

Eu vi o eclipse. Não tirei fotografias, porque não estava equipado para o fazer, mas poderia tê-lo feito também, como todos os outros. Não me sinto particularmente diferente de todos os que ao pé de mim apontavam os telemóveis para o sol. Talvez só (e, perdoem-me o pedantismo, é já muito….) na consciência, no olhar crítico sobre o olhar que, nos dias que correm, deitamos a tudo… a maior parte das vezes, sem nada ver.

Foi um dia cheio

De manhã tive outro eclipse, igualmente total, mas igualmente saboroso.

O Tuela corre, frio e com algum caudal, perto de onde pernoitei.

Sempre que por ali ando, guardo uma manhã, para ir até ao rio, cedo, ver se consigo uma ou outra imagem que me agrade.

Assim foi desta vez também, embora nada de particularmente fotogénico me cruzasse o olhar. Sim, havia a água a correr por entre as rochas, mas procurei e procurei e não descobria composição que me agradasse…

De repente, um reflexo inesperado chamou-me a atenção. Virei a cara, nada vi.. de novo um movimento… uma cabeça pequena, escura, que traz atrás um corpo esquio que corta a água e dela sai para a rocha, dá dois passos e volta nela a meter-se. Apercebo-me do que é, retiro apressadamente a máquina do tripé; aponto-a. Não tenho tempo para alterar as configurações… nem tampouco um filtro que tenho colocado à frente da objectiva e que me retira preciosa luz de que agora necessitava. Disparo ainda assim. Três fotos. Apenas numa se apercebe o feliz encontro, embora tenha ficado tão tremida e desfocada que nem me atrevo a mostrá-la.

Aguardo ansiosamente que  a lontra reapareça; é a primeira vez que vejo uma em ambiente natural. 

Não tenho sorte... a vegetação cobre densa a borda do rio frente ao local onde estou. Vejo-a agitar-se aqui e ali, à medida a que o esquivo animal progride margem acima, sem se voltar a mostrar…

- Eclipsou-se (digo para comigo); totalmente….

 


 

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Abro a mensagem com um misto de curiosidade e desconforto... na verdade, já adivinhava a resposta, que leio com a certeza que alguém fez o que, de facto, era o melhor:

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"O animal em questão é uma águia-calçada (Aquila pennata) e à entrada apresentava um quadro muito grave de trauma, com fratura exposta do úmero esquerdo (o osso principal da asa) complicada com desvitalização do tecido ósseo, sem possibilidade de recuperação cirúrgica ou clínica. O animal apresentava também grande debilidade e provável início de sépsis, bem como contaminação por formigas, o que é indicativo de que deveria estar na situação em que o encontrou há bastante tempo. Assim, atendendo à irrecuperabilidade deste animal e aos critérios de bem-estar, a equipa clínica decidiu pela eutanásia."

Não era o que gostava de ter ficado a saber, mas era o que esperava. A pobre ave estava tão debilitada que não lhe ouvi um pio, desde que a vi pela primeira vez até ao momento em que a deixei aos cuidados do Centro de Recuperação de Animais Silvestres.

Que o céu lhe seja azul, agora que pousou no topo da alta árvore de onde nos espreita, lá na floresta que lhe inventamos para não nos consumirmos na angústia do indecifrável.

Bons voos, bicho amigo; bons voos Coruja-águia!


u

sexta-feira, 31 de julho de 2026



S
ó o inesperado quebra a quietude e previsibilidade da rotina, dir-se-á. E, por rotina..., não quererei forçosamente mergulhar tal palavra no desconforto conotativo que a mesma costuma implicar, vendo-a como atributo sensaborão e proto-geriátrico de dias que, procuro, me façam ainda agitar as terminações sensoriais com o tremor dos prazeres vários que condensamos no vocábulo "bem-estar".

Por isso busco o prazer em formas simples, procurando interpretar o mundo em meu torno, olhando, ouvindo, sentindo, ao longo do caminho que escrevo em passos, que me levam tantas vezes aos mesmos locais que, sim, lhes poderíamos atribuir a classificação de rotina.

Hoje foi um desses dias de sobressalto no hábito.

Caminhava eu já no regresso a casa do meu higiénico passeio matinal, que venho tentando compatibilizar com a recuperação dos tendões de Aquiles, o que, infelizmente, nem sempre tem sido linear, quando me cruzei com ela.

Deitada no chão, imóvel, silente, olhava-me, de frente, com grandes olhos redondos, com tanto de amarelo como de desafiantes, como se interrogasse a minha intenção.



Aproximei-me, não reagiu; mais próximo ainda: moveu-se e compreendi que tinha, pelo menos, uma asa partida.

Liguei para a GNR. Ficaria ali com ela até a virem buscar, se preciso fosse.

Atenderam-me do posto:

- Vou passar a chamada aos colegas dos animais, mas informo-o já que não o devem ir buscar... vou passar...

bip.  bip.. bip... bip....

Desliguei.

Procurei outras opções na internet:

Linha SOS Ambiente e Território

bip.. bip.. ... o número que marcou não está disponível (ou algo do género e com o mesmo efeito)

PSP Almada

bip.. bip... lamento mas esse assunto é com os colegas da GNR que têm brigada especializada...

Novamente GNR

bip... bip...

- Desculpe, liguei há pouco, mas ninguém me atendeu do número para que depois me passaram...

- Ah, sim. E não pode ir a um veterinário?

- Um veterinário??????
- Não abrem às oito? já passa das oito.
- Não é vossa competência?

Claro que não vou contar o que se passou depois, durante o triálogo que mantive com dois guardas, porque não é edificante (e não me refiro a mim...)

- ... vou passar outra vez...

bip. bip.. bip... bip... click (som de chamada desligada automaticamente)

Tentei também um número da Câmara de Almada. É cedo, ainda os serviços estão fechados, pelo que não atenderam (espero que tenha sido só por isso...).

Vejo que há um Centro de Recuperação de Animais em Monsanto. Talvez seja mesmo a melhor opção, mas tenho que ir a casa buscar uma caixa, umas luvas e uma toalha para apanhar o pobre animal, que não deixa de ser uma ave de rapina, com bico e garras afiados...

Por sorte estou perto; em 10 minutos chego a casa e apanho o necessário para poder recuperar o que me parecia ser uma coruja, tão grandes os olhos que olhavam frontalmente para mim.

Volto com o carro e estaciono o mais perto possível do local onde  deixara a ave. Por ali, àquela hora, por vezes pessoas passeiam com cães soltos e, se tal acontecesse, duvido que o resultado fosse o melhor, por isso apresso-me.

Lá está ela... avanço com a toalha na sua direção;  já muito perto, levanta-se e tenta fugir, mas não consegue, coitada.

Atiro a toalha para cima dela; não resiste. 

Com cuidado apanho-a, embrulhada no pano turco, e meto-a na caixa que também trouxera. Não emite um som; não se mexe.

Partimos para Lisboa; felizmente não há trânsito e a chegada a Monsanto é rápida. Tão rápida que chego ainda meia-hora antes da abertura do Centro.

Por fim, dois trabalhadores camarários indicam-me onde me devo dirigir e lá vou eu transportando a caixa como se de nitroglicerina se tratasse, tentando não perturbar a infeliz ocupante.

- Então que temos aqui?
- Uma coruja;  encontrei-a com a asa partida quando passeava, há cerca de hora e meia.
- Uma coruja? Nada disso. É uma águia.
- Uma águia? Erro de palmatória... que vergonha. Como pude eu confundir? (Eu, que tenho a mania que sei distinguir algumas aves e outros animais....) 

Foram os olhos, grandes, redondos, e a cabeça redonda a olhar para mim, e a verdade é que nem olhei com muita atenção, preocupado que estava em garantir o socorro, o mais rapidamente possível.

Agora, é com os veterinários do Centro, que, sei, farão o melhor. Espero que se safe... estava tão fraquinha.... segunda-feira telefono. Depois digo alguma coisa....

                                                                                                                      (Contínua....)



                                                                                                                                















Já no LxCRAS - Centro de Recuperação de Animais Silvestres de Lisboa ... Boa sorte!

sexta-feira, 10 de julho de 2026

 




Diacrítica


Escorre branco oblíquo pelo muro

e a sombra cinza finge-se perplexa

por sobre o céu escrever-se a escuro

um acento  na ponte circunflexa



quarta-feira, 17 de junho de 2026


 Igreja de S. Paulo, Lisboa. Mais um sítio onde nunca cantei (...nem entrei)...

sexta-feira, 5 de junho de 2026

 

Notas de viagem roubadas a um diário que não escrevi,

Valencia

 Posfácio Postal, com coisas que não vi... 


Não é fácil selar uma carta só com selos que estejam intimamente relacionados com o conteúdo da mesma, e no entanto....




quinta-feira, 4 de junho de 2026

 Notas de viagem roubadas a um diário que não escrevi,

 que me lembram um prato... que não comi,

à maneira de epílogo para a minha visita a Valência


Arroz à Valenciana, era assim que a minha mãe lhe chamava, e não só ela, porque o dito prato era convidado habitual dos menus de muitos dos pequenos restaurantes que, um pouco por todo o país, ofereciam comida com sabor de prato feito por alguém que de nós gosta.

Que eu me lembre até, o arroz solto e fumegante,  em que despontavam aros de lula, redondas e verdes ervilhas, pedaços rosados de salsicha fresca, rodelas de chouriço, nacos de frango e um sem número de outras possibilidades, podia ascender à categoria de manjar de ocasião festiva, chegando mesmo a coroar bufetes de boda ou batizado.

Hoje, que eu me lembre, é raro, senão impossível, encontrar tal proposta na carta de um dos muitos comedouros hodiernos que tomaram o lugar das velhas tascas de bairro, propondo agora coisas muito mais ao gosto dos adeptos da massificação instagramada, como o inefável brunch, os pratos livres desse assassino do corpo e alma que dá pelo nome de glúten ou da não menos perigosa lactose, ou ainda seja o que for acompanhado das absolutamente horríveis batatas congeladas pré-fritas.

E eu gostava, quando a minha mãe fazia aquele arroz… tanto que agora que vou escrevendo estas linhas e dele me vou lembrando, quase salivo de antecipação….

Arroz à Valenciana…. Só muito mais tarde compreendi a razão de tal designação, quando descobri que a paella era coisa tradicional na terra ao lado da minha, e que a mesma tinha as suas origens na região de Valência… ora aí estava: o Arroz à Valenciana que a D. Hortense (todas as mães deviam ter nome de flor… a minha tem!) fazia com tanto esmero e cuidado era não mais que uma versão lusitana da paella Valenciana…

E como poderia ser de outra forma. Espanha e Portugal são nomes de irmãos. Com algumas diferenças, é certo, até com algumas embirrações mútuas. Mas todos os irmãos as têm; eu sei e posso dizê-lo de experiência, porque não sou filho único…

Muitos serão seguramente os pratos que compartilhamos em versões levemente diferentes. A gastronomia tradicional é filha do modo de vida das populações e Portugal e Espanha (no seu todos, com todas as suas Nacionalidades) partilharam ao longo dos séculos muito do caminho que os teceu como culturas indissociáveis por fronteiras, esses riscos artificiais que se tecem sobre os mapas, mas que não apagam as ligações de sangue e amor que constantemente as cruzam.

Pote ou Fabada nas Astúrias, Cozido à Portuguesa, Cozido de Garbanzos da Andaluzia e do nosso Alentejo… tudo declinações da mesma tabela periódica que nos fez elementos raros, únicos: Os Ibéricos

Os mesmos que há 40 anos, num dia de sorte pela clarividência de políticos que saíam de ditaduras cruéis e teimavam em procurar caminhos de desenvolvimento e aproximação, assinaram no Mosteiro dos Jerónimos e no Palácio Real, ambos nas capitais dos respetivos países, tratados de adesão a um sonho…

Tem sido difícil, hoje parece até em retrocesso, mas as boas ideias são difíceis de concretizar, têm escolhos pelo caminho, e, inevitavelmente, nem sempre agradam a todos da mesma maneira.

Mas hoje, eu, que amo a liberdade de movimento e de palavra, posso escrever o que quero, dizer o que quero, meter-me num carro e conduzir sem parar de minha casa até à fronteira com a Ucrânia, sem sequer ter que mudar de moeda pelo caminho….

Graças ao fim das ditaduras, passei a sentir-me em casa, tanto em Portugal como ao seu lado, em qualquer das maravilhosas cidades Espanholas;

Graças à CEE e depois à União Europeia, passei a sentir-me em casa também em mais 26 países  e isso não há ninguém que me tire. Agora que, passados 40 anos, aprendi a ser, além de Português, primeiro Ibérico e depois Europeu, só me falta ser do mundo… e não deve ser difícil, afinal Sócrates já o afirmava há quase 2500 anos…..

Será que o afamado filósofo também gostava de Paella? Arroz à Valenciana?

Obrigado Eva pelo curioso postal e pelas boas memórias que em mim invocou.