quinta-feira, 14 de agosto de 2025

Notas de viagem roubadas a um diário que não escrevi,

em partes, tantas quantas me promete a memória...

28 de Julho de 2025 - Letónia - Parte II

Talsi - Mērsrags - Ragaciems - Parque Kmeri - Jurmala 

O velho barco descansa por fim, em Ragaciems

Pouco menos de uma hora, levou a nossa viagem de Kuldiga a Talsi.

A minha mulher tinha já estado nesta cidade em trabalho e aproveitou para voltar a ver as amigas que então fez e que encontrámos num café onde passamos uma boa hora a "pôr a escrita em dia".

Saídos para seguir viagem, aproveitámos ainda para um curto passeio ao pé do lago que existe na cidade, no meio dos chuviscos que entretanto começavam a cair.

Tal como em Kuldiga, o passado lembrava-se
 num velho Moskovitch 412 transformado em jarra...

O dono deste restaurante bem se pode dar
ao luxo de "dizer para os seus botões..."


Uma outra colega da minha mulher que não tinha dado pela "reunião" no café a tempo de nela participar telefonou mesmo quando íamos já a entrar de novo no carro.

    

   


O lago de Talsi

Por ali ficámos então, mais um pouco, à espera, até que amizades antigas e novas se teceram ou renovaram, que viajar tem também o condão de nos aproximar uns dos outros.

Por fim lá nos metemos de novo à estrada no meio da chuva que entretanto se adensou. Direção: Mērsrags, e o seu farol, coisa que me entusiasmava verdadeiramente, dado o meu fraco pelas altas torres luminosas.

Imagine-se uma linha de costa rasa, quase infinita, com floresta até à borda de água, onde para além do marulhar da água, do restolhar das folhas e do ocasional pio de uma qualquer ave, nada mais se ouve... Pois há pessoas que têm a sorte de ter casas (e que casas) em locais como este, com corte tradicional e telhado de colmo acabado de renovar....

Resta-me a  inveja... feio sentimento, mas nem por isso menos sincero....

Praia deserta a perder de vista...

Como são belos os pinheiros nórdicos,
 com os seus reluzentes troncos castanhos 

Os que não têm casa, podem alugar um dos simpáticos bungalows do recatado e verde parque de campismo no meio de qual se ergue então o motivo da minha ida aqui, o bonito farol que este ano cumpre 150 translações do local em que se encontra implantado em torno do astro rei, o que dará uns bons milhões de rotações da sua própria luz, que se ligou pela primeira vez em 1875.






Danificado por um incêndio durante a Grande Guerra, foi recuperado em 1922, sendo a estrutura então reforçada com as 8 chapas metálicas verticais que agora ostenta cm seu torno.

De novo na estrada, no infinito verde que a ampara de ambos os lados e não deixa perceber que ali ao lado, a poucos metros anda o Golfo de Riga, cidade de que nos vamos paulatinamente aproximando.

Uma entrada para uma localidade, a praia... decidimos parar um pouco, explorar....

Estamos em Klapkalnciems. Bonitas casas ladeiam a estrada interior que corre até um pouco mais à frente. Paramos o carro e seguimos a pé pela floresta.... como me saberia bem fazer por aqui parte do trilho do Báltico, da GR11... para mais é tudo plano,  com bons pisos, até a areia é mais dura que estrada....


De repente um pequeno e inesperado memorial.... Uma pedra, trazida da Finlândia, honra os soldados finlandeses que aqui combateram e morreram ao lado dos alemães durante a primeira guerra mundial. O memorial foi  instalado em 1929 e posteriormente destruído durante a era soviética, tendo sido reimplantado em em 2004.

Memorial dos soldados finlandeses

A praia, em frente, está deserta; na orla da mata dezenas de orquídeas, de uma espécie que nunca vi antes (Epipactis atrorubens, creio, embora não esteja absolutamente seguro). Impossível fotografá-las: está imenso vento aqui sobre a areia, sem a proteção das árvores. 

De volta ao carro, vou colhendo doces framboesas. Paro pra fotografar uma borboleta - Argynnis paphia. Também uma primeira vez. Deste género, só tinha visto a pandora, em Trás-os-Montes, há uns anos. 

Argynnis paphia

Ragaciems é a paragem seguinte. Pequena vila piscatória conhecida como ponto de venda de peixe fumado, produto que tencionamos comprar mais tarde, antes do regresso a casa, que ainda falta muita viagem e os dias estão quentes demais para andar com peixe fumado no carro...

Ao pé da costa, pequenos abrigos de madeira servem de armazém de barcos,  redes e outras alfaias de pescadores. São os sedums, outro dos ex-libris da pequena vila. 


Não posso deixar de pensar que também em Portugal estruturas como estas eram comuns nas zonas piscatórias... os palheiros de Mira e da Costa Nova, da Caparica (hoje transformados em alojamentos locais de preço exorbitante para deleite dos aficionados do instagram....)

Os seduns em Ragaciems

Na praia, imensa e deserta como por aqui se usa, apenas um grupo de senhoras, mais velhas que nós, que falam russo entre si. Insistem em fazer-nos uma fotografia com o nosso telemóvel junto das curiosas estruturas. Aceitamos agradecidos... daria uma boa recordação.... não fosse a senhora ter-se desentendido com o telefone e ter gravado um vídeo em vez da fotografia, o que acrescenta ao pequeno filme um intervalo de cena com rotação da imagem, enquanto a simpática senhora passava a "fotografia" do formato horizontal para o formato vertical....

Agradecemos entre sorrisos recíprocos e voltamos ao carro. Já não falta muito para o destino final do dia: Jurmala, estância turística, que, nos tempos da ocupação soviética, era visitada pelos altos quadros do estado e do partido. 

Jurmala alberga uma grande variedade de
 interessantes edifícios de madeira dos sec. XIX e XX 

Após a independência Jurmala manteve o seu posicionamento como destino de férias e um passeio pela cidade, como o que fizemos depois de nos instalarmos fora da área de condicionamento de tráfego, confirma esta ideia, acentuada pelas muitas pessoas que ocupam os restaurantes e passeiam pelas amplas e limpas ruas, paralelas ou perpendiculares à praia e ao verde da mata, que apesar de estarmos em área urbana, se afirma em profusão.

A imponente Igreja Ortodoxa Russa de São Nicolau 
Igreja Luterana de Dubulti

A circulação automóvel numa faixa da cidade, que corre paralela ao mar durante vários quilómetros, é sujeita ao pagamento de uma taxa diária (3 Euros) de congestionamento. Não logramos perceber como a  pagar e só o conseguiremos fazer no dia seguinte via internet (conseguimos pagar o dia em atraso, também). Não queríamos arriscar a multa de 50 Euros que o não pagamento poderia acarretar.


no nosso passeio pela cidade demos de caras com algumas interessantes esculturas 

Também aqui, a praia parece não ter fim, o que não é seguramente o caso do dia, como nos lembra o sol que, devagar, vai recolhendo sobre o horizonte...


Até amanhã Jurmala...

quarta-feira, 13 de agosto de 2025

Notas de viagem roubadas a um diário que não escrevi,

em partes, tantas quantas me promete a memória...

28 de Julho de 2025 - Letónia

Kuldiga

Uma manhã meia cinzenta, húmida e não demasiadamente quente, espera-nos, quando estacionamos o carro não muito longe da ponte de tijolo que une as duas margens do rio Venta e é um dos ex-libris de Kuldiga.

O centro histórico da cidade é, desde 2023, Património Mundial UNESCO, tendo a organização justificado a atribuição da distinção com o facto de este configurar " um excecionalmente bem preservado exemplo de  um núcleo urbano tradicional que se desenvolveu a partir de um pequeno povoado para se tornar no centro administrativo do Ducado da Curlândia e Semigalia, entre os sec. 16 e 18".

A diversidade arquitectónica é também destacada pela UNESCO e este facto é facilmente comprovável na nossa visita pelas velhas ruas do centro da cidade. 

Estamos no pico do verão, numa cidade Património Mundial e, no entanto, as ruas estão praticamente desertas. Passeio despreocupado, de máquina apontada a este ou aquele detalhe, sem que pessoa ou grupos delas me perturbem a composição, o prazer da descoberta, a imagem que fixo com o indicador no botão do obturador... como é diferente fazê-lo aqui (e tão sumamente melhor) ou numa das cidades da berra... 

Encontro o centro histórico decididamente fotogénico, mas não sei se pelas melhores razões. É verdade (já o disse) que a variedade arquitetónica é grande: construções antigas de enxaimel ou totalmente em madeira contrastam com edifícios mais modernos, mas também eles longe de recentes. Quase todos, no entanto, mostram claras marcas de desgaste e envelhecimento, em alguns casos, severas marcas, diria mesmo.








E é esta patina decadente, este profundo desgaste, que tanto contribui para a plasticidade de algumas imagens que aqui e ali fixo com a minha fiel Canon.

Uma velha fábrica abandonada, de produção de papel, leio, chama-me a atenção ao lado da pequena cascata  que o rio  Alekšupīte ali criou, e  que  a alimentava de força motriz, no seu curso para se juntar ao Venta uns poucos metros abaixo. A seu lado, uma bonita ponte, também ela de azulejo, e o não menos interessante edifício do tribunal um pouco mais ao fundo...



Embrenhamo-nos, a pé, pelas ruas que levam ao largo da câmara municipal. É cedo, mas o posto de turismo já está aberto. Uma curiosa exposição de tapeçaria "fotográfica" ocupa uma das salas do edifício. Não imagino mas deve ser mesmo muito o trabalho de escolha de fio, para replicar com o detalhe que nos é dado a ver, imagens fotográficas de peixes transformadas em tapeçaria.

O campanário da igreja de Sta. Catarina e a Câmara Municipal

As curiosas tapeçarias da artista textil Baiba Rïtere

Portas, janelas, paredes, tudo a pedir olhar demorado, atento aos detalhes. 


O Alekšupīte meandra pelo centro, a caminho do castelo que hoje já não existe. Fotografo-o, lento, estreito entre duas esquinas de velhos edifícios de madeira..

Seguimos para a outra margem pela estrada que corre sobre os arcos da grande ponte de tijolo, uma das maiores da Europa feita com recurso a este material. Do outro lado, poucos metros de trilho dão acesso à mais longa cascata da europa, diz-se.


A cascata do Venta - enfim, um pequeno salto de água que não deve exceder um ou dois metros  de altura - é realmente extensa, cerca de 110 metros. Nesta altura do ano, que há pouca água no rio, pode-se sobre ela caminhar e vejo algumas, poucas, de novo, pessoas, fazê-lo, na procura da almejada selfie de férias.


No inverno, também sobre ela se poderá andar, mas desta vez sobre o gelo que a cobrirá.

No parque de estacionamento, um  Zhiguli, o Fiat 124 construído sob licença no bloco soviético, com um ar decididamente retro, com malas e tudo em cima do tejadilho, evoca tempos passados, agora história. 

Altura de seguir em frente, de continuar viagem... espera-nos uma paragem próxima em Talsi, com a alegria do reencontro com amigos.



domingo, 10 de agosto de 2025

 Notas de viagem roubadas a um diário que não escrevi,

em partes, tantas quantas me promete a memória...

27 de Julho de 2025 - Parte III -  Letónia

Liepaja - Pavilosta - Arribas de Jurkalne



Lembro-me bem da primeira vez que cruzei uma fronteira. 

Tal como terá acontecido a muitos portugueses da minha geração, excitante internacionalização aconteceu com um rio pelo meio, atravessado de barco, e uma nervosa passagem pelo posto fronteiriço de Vila Real de Santo António, ante o olhar inquisitório dos agentes da Guarda Fiscal, Guarda Nacional Republicana  ou Polícia de Segurança Pública, não posso precisar. Provavelmente, também, por ali haveria lugar para um agente da infame Polícia Internacional de Defesa do Estado, que o acontecimento teve lugar antes de 1969, altura em que passou a chamar-se Direcção-Geral de  Segurança.

Lembro-me da minha prenda comprada em uma das lojecas de  Ayamonte que tudo vendiam, e onde os portugueses se abasteciam  de caramelos Vda. Solano, pós de arroz e sabonetes Maderas de Oriente e Anisette Marie Brizard em troca de algumas pesetas (fascinava-me a moeda de 25 pesetas, com um buraco ao centro...)

Um cavalo preto, com um pelo como que de pó também preto que, com o tempo e a esfrega da mãos, acabava por sair, revelando o plástico também preto por baixo. Tenho um aligeira impressão que vinha com um cowboy de chapéu e cinturão vermelho.... mas não sei, não posso ter a certeza, foi já há tanto tempo....

Mas o que mais me encrustado na minha memória ficou foi o nervosismo dos meus pais e  dos amigos que os acompanhavam durante o controlo fronteiriço do lado português.

Mais tarde, já bastante mais crescido, também eu ficaria algumas vezes nervoso por conta das latas de pasta de fígado, pratos de pirex, brinquedos e outras coisas que, com os meus pais, "importaria" para o território nacional nas nossas raras saídas ao "estrangeiro", esse local mítico a que poucos aspiravam e que continuava a ser fundamentalmente ali, do outro lado da única fronteira terrestre que envolve o rectângulo de onde houve Portugal...

Na estrada cruzo um grande painel na berma. É azul e tem um círculo de estrelas amarelas ao centro. Dentro do círculo leio LATVIJA.

Não fora isso e não me daria conta que a estrada que piso agora tem outro dono, apesar de tudo em seu redor parecer igual: verde, em imenso contínuo.

Que ideia fenomenal esta da Europa a que pertenço, sendo e sentindo-me Português. 

Por uma vez somos pássaros, vento, mar... tudo aquilo que não para em postos de controle fronteiriço...

Sim, concordo: há muito que aprofundar, muto que aperfeiçoar, muito que melhorar e tudo isto é árdua tarefa... depois, circula por essa europa fora uma baforada cinzenta, bafienta, que já chegou ao meu pais e que a erode na essência... mas as boas ideias, as que verdadeiramente contribuem para o avanço e desenvolvimento, são perenes, independentes. vencedoras. Assim o creio, assim o espero.

Liepajas. Visitamos rapidamente (se assim se pode dizer) a cidade, de carro. Algumas casas,  chamam-me a atenção. Em particular uma que encontro num cruzamento de uma das principais avenidas da cidade. Fotografo a fachada e seguimos de novo para a estrada principal. Direção: Pavilosta, uma pequena localidade balnear e pesqueira atravessada pelo rio Saka que ali desagua. 


Liepajas


Paramos para comer uma peça de fruta e descansar um pouco. Nada de extremamente interessante para ver, mas esticar as pernas sabe bem...





Pavilosta

Antes de chegar a Kuldiga, destino do dia, o programa que nos tínhamos estabelecido obrigava-nos ainda a uma passagem pelas arribas de Jurkalne, a partir de onde deixaríamos, por hoje, a estrada ao longo da costa para infletirmos para o interior. Intrigava-me  a designação do local. Se algo havia que caracterizava toda a costa que até agora víramos, para além da floresta que ao longo dela sempre parecia correr, era a sua planura... com a areia a entrar pelo mar e pela floresta  quase ao mesmo nível.

Mas de facto assim não é em Jurkalne. Não que as arribas sejam altíssimas: na verdade, da floresta à areia, o desnível será inferior a 10 metros.... mas tão rara deve ser por aqui esta diferença que  o local assume honras de destaque orográfico.


O que não posso deixar de notar outra vez é a imensa qualidade da praia quase deserta que se estende aos meus pés, ou melhor aos meus olhos, para um lado e outro de onde me encontro: que calma, que beleza....

Arribas de Jurkalne

A mata acompanha-nos até ao carro, como nos acompanham aqui e ali framboesas maduras colhidas por entre os troncos dos pinheiros. Outras bagas vermelhas, a lembrar groselhas, estão por toda a parte. Têm um ar decididamente comestível, até pelo cheiro que exalam uma vez esmagadas.. mas não me atrevo...

Kuldiga e o alojamento esperam... amanhã haverá mais estrada.