terça-feira, 26 de maio de 2026

Notas de viagem roubadas a um diário que não escrevi,

em partes, tantas quantas me promete a memória...

21 de Maio - Espanha - Comunidade Valenciana

Valencia (III)  


De novo no metro para o centro da cidade. Prático, rápido mas não tão confortável quanto isso, porque embora esta fosse apenas a segunda estação da linha, as carruagens vinham já com os assentos todos tomados, o que me fez aguentar de pé os mais de 20 minutos que passámos dentro do comboio.

Na verdade, a primeira estação da linha é a do Aeroporto, e o facto dos assentos já estarem todos tomados apenas reflete a procura turística que Valencia já regista, quando faltam três meses para o pico do verão.

Dirigíamo-nos para a Cidade das Arte e Ciências, onde íriamos passar a manhã, o que nos obrigou a transbordo modal entre metro e autocarro frente a um majestoso arco - A Porta de la Mar - que, leio, é uma reprodução da  porta que ali existiu, com o nome de Porta del Real, próximo de um antigo palácio real cujo tempo se encarregou de apagar. 

O monumento foi erguido em 1944, durante a ditadura, como homenagem aos caídos e, leio também, continha uma placa de homenagem ao ditador, hoje tapada por uma laje de pedra.


No caminho até à paragem do autocarro reparo em mais um belíssimo edifício modernista numa esquina do outro lado da rua. O Edifici dels dracs, assim chamado por ostentar várias dessas criaturas fantásticas na frontaria e alçado, obra datada de 1901,  do arquiteto José Manuel Cortina.


A espera pelo autocarro foi breve e em pouco tempo descíamos finalmente ao pé da Cidade das Artes e Ciências. 

É impossível ficar indiferente à magnífica obra de Santiago Calatrava cujo puro branco brilhava tanto ao sol que feria os olhos, se dirigíssemos o olhar para os enormes reflexos que se irradiavam das alvas superfícies.

Toda aquela branca modernidade contrasta com o verde das muitas árvores que correm nas laterais da depressão em que o complexo se inscreve e que criam uma cortina de separação para modernas áreas residenciais que, embora com grande densidade de utilização, parecem exsudar qualidade de vida e afluência. 






O primeiro edifício do complexo, a Opera, ou melhor o Palau de les Arts Reina Sofia, lembrou-me uma imensa concha futurista de cujas aberturas laterais não me admiraria nada que saíssem velozes naves, como via nas séries de ficção científica da minha adolescência.

Uma concha? Um gato? Um anjo de asas abertas?




A programação de  2016  estava indicada me grandes painéis na lateral do edifício. Do Flamenco à Ópera, da Zarzuela ao Pop, muito haverá para encher os ouvidos ao mais exigente melómano. Infelizmente, para a noite que passámos em Valencia não havia espetáculo....

Navegámos calmamente pelas laterais do complexo, passando em frente ao Hemisfèric, auditório multi-usos, adaptado para a projeção de filmes no sistema IMAX 3D, até ao jardim de Astronomia, com a sua multitude de instrumentos que nos permitem calibrar o tempo astronómico de forma prática, anterior à ponte, para lá da qual se encontra instalado o desconcertante (pela altura, volumetria, forma e pelo intenso azul que o cobre) Àgora e, mais à frente, o Oceanographic (um espaço dedicado aos oceanos e seus habitantes).



Uma vez descidas as escadas para o nível do solo onde se implanta o museu das ciências, fui surpreendido pelo sorte de um vistoso reflexo na água que enchia por alguma razão que não descortinei (lavagem, manutenção) grande parte do espaço nu que antecedeo assombroso edifício do museu das ciências e cuja estrutura me lembra um esqueleto de um estranho peixe, como penso fácil perceber na fotografia que abre este post.  .

Largos minutos passamos em calmo passeio por entre os edifícios, tirando partido da sombra que estes projetavam e aproveitando para ver uma exposição de excelentes fotografias do fotógrafo de natureza Sérgio Izquierdo, patente no exterior, até que parámos um pouco para comermos à sombra do Hemisfèric o mais clássico dos clássicos alimentos de passeio: um ovo cozido. Enquanto descascava o meu, não pude deixar de pensar na forma que segurava nas mãos que, ampliada, por certo, não se sentiria ali fora de sítio....









De volta ao piso superior, dirigimo-nos à paragem de autocarro onde esperámos escassos minutos para apanhar transporte para o último item da nossa lista de visitas; o IVAM - Institut Valencià d'Art Modern, aberto em 1989 como o primeiro centro dedicado à arte moderna criado em Espanha.



Ali tive uma vez mais o prazer da descoberta de artistas modernistas que nos deixaram um acervo de enorme relevo histórico, técnico e estético como o pintor e escultor Julio González, cuja obra patente na sala que lhe é dedicada nos foi gentilmente explicada pela Patrícia, funcionária do Museu, que de imediato nos cativou pela simpatia, facilidade de exposição e conhecimento demonstrado. Obrigado!

Julio González viveu entre 1876 e 1942. olhando para as obras expostas é possível perceber uma progressão estética que condensa grande parte da evolução discursiva das artes plásticas da primeira metade do sec.XX, desde o figurativismo da art noveau e art deco até um pulsante abstracionismo alicerçado na evolução natural da estética cubista.

Outro dos momentos altos do museu, para mim, foi a passagem pela galeria a que se acede pelo exterior, onde estava patente uma exposição reunindo obras de três gerações do mesmo apelido: "A Aura de uma Saga Moderna: Ignacio, José, and Marisa Pinazo". Como a virtude, dizem, está no centro, dos três, o que mais concorreu para me encher de felicidade por ter podido ver tão belas pinturas foi José Pinazo, que viveu entre 1879 e 1933.

Uma última visita a uma exposição temporária que punha em destaque a relação (a péssima relação...) entre o homem e os oceanos concluiu a nossa vista ao IVAM.

Restavam-nos apenas duas ou três horas antes que tivéssemos que estar de novo no no aeroporto. Voltámos ao centro histórico a pé, aproveitando para um último passeio por ruas que desconhecíamos e que inesperadamente revelavam alguns segredos de cor e  boa arte urbana.








 
Pouco depois da saída do metro, na tal paragem antes do Aeroporto, onde saímos para ir buscar os nossos pertences ao hotel, a ceramista no topo do monumento que lhe é dedicado lá continuava o seu trabalho, indiferente ao inclemente sol que, apesar da hora já avançada na tarde, parecia tão forte quanto o tínhamos sentido, todo o dia.



... mal sabia eu que ainda me esperavam quase quatro horas pela frente, fruto de um atraso no voo que nos traria de regresso.... duas dessas horas poderiam bem ainda ter usado na cidade... afinal havia ainda tanto para ver...



Sem comentários:

Enviar um comentário