domingo, 24 de maio de 2026

Notas de viagem roubadas a um diário que não escrevi,

em partes, tantas quantas me promete a memória...

20 de Maio - Espanha - Comunidade Valenciana

Valencia (I)


Valencia... um nome que me evoca os ininterruptos quilómetros de laranjais e o cheiro químico que exalavam, naquele verão da última década do milénio passado, quando por ali passámos, durante umas férias passadas num aldeamento algures na Costa Blanca.

Duas recordações apenas guardo dessa passagem... o estranho sabor da Horchata, a que não me afeiçoei, e as obras que então decorriam para edificação do que é agora o magnífico complexo da cidade das artes e ciências, que irrompe do antigo leito do rio Turia, hoje desviado para um canal artificial mais a sul, na sequência de uma DANA (que por aqui se chama de Gota Fria) em 1957... o mesmo canal que transbordou com a DANA de 2024.....

Tinha portanto apenas folhas em branco no caderno de memórias... era tempo de as preencher e a ocasião proporcionou-se com uma voo baratucho de ida e volta, mesmo a pedir que preparássemos a mochila e a máquina fotográfica.

Assim foi. Tendo tocado de novo o solo no aeroporto de Valência já na madrugada do dia 20, apressámo-nos a chegar ao hotel para podermos ainda descansar um pouco antes de começar dois dias que, sabíamos, seriam bastante preenchidos, pois com tão pouco tempo para tanto ver não haveria outro resultado.

Uma primeira nota para os transportes coletivos de Valência, que me pareceram rápidos, fiáveis e frequentes, pelo menos nas zonas por onde nos deslocámos, com o metro e os autocarros a não nos obrigarem a esperas maiores que alguns minutos apenas.

A estação de metro que mais perto fica do centro histórico é Xátiva. Foi dela que saímos numa manhã que se anunciava quente, mas não demasiado. Do outro lado da rua, a primeira descoberta: O belíssimo edifício arte nova da Estação do Norte, encostado à grande praça de touros. 







Ainda a digerir a sorte da surpresa, embalados pela beleza das formas temperada pelas suaves cores dos painéis de azulejo nas salas da estação,  dirigimos o passo para a cidade velha, não sem deixar de conduzir o olhar, pelo caminho, para os torreões, também de corte modernista, que sobressaíam da linha de edificações que, pouco depois, se abre para a larga Plaça de l'Ajuntament, a maior da cidade, onde se implantam vários edifícios relevantes, como a casa consistorial, sede do Conselho municipal ou o Palácio dos Correios.











Procurávamos o Mercado central. O Primeiro dos vários  locais que, como habitualmente,  tínhamos previamente identificado para que a visita fosse o mais produtiva possível, tão só as nossas pernas e pés aguentassem o programa ambicioso que nos tínhamos fixado.

Poderei estar enganado, mas Valência parece ainda conviver com o turismo de uma forma que Lisboa, por exemplo, já não faz. A cidade velha e o seu entorno mais próximo, parecem ainda local de vida quotidiana de pessoas que ali habitam e o comércio parece vivo e frequentado. Não obstante grupos organizados de turistas (em particular italianos) enchiam já os vários pontos de interesse da cidade, como o Mercado Central, para o qual nos dirigíamos, outro marco da Arte Nova Valenciana.



Lá dentro, transcorrida uma da três portas que lhe dão acesso, encimadas por funcionais marquises,  o olhar é de imediato levado para o centro do edifício , onde se ergue uma enorme cúpula envidraçada, como envidraçados são os topos e as laterais do edifício, o que permite a entrada de luz natural em profusão, não obstante complementada, nas bancas, com iluminação artificial.




Mas esta não seria necessária, acho, tamanha a luz que as bem compostas bancas irradiam na policromia tentadora das mais frescas alfaces, escarolas, pepinos,  cebolas, cenouras, pimentos que tão bem se complementariam com os deliciosos queijos e frutos frescos e secos, entrada ou sobremesa para pratos mais consistentes, confecionados com os mais variados peixes e mariscos ou carnes, que em quantidade e qualidade se propõem ao consumidor.... pena é que tudo esteja tão caro.... lá, como em todo o lado, enquanto a economia mundial se esboroa por conta dos caprichos de gente que, por certo, nunca precisou de ir a um mercado em busca de uma alface...


Cá fora o torreão da Llotgeta, primeiro dos edifícios  do complexo do mercado a ser construído, datado de 1914 e hoje albergando um centro cultural especializado em fotografia (descubro quando agora escrevo, e, como tal, mais uma razão para um dia voltar a Valencia....)  aponta-se ao sol que brilha forte mas que, ainda assim, não gera sombra que se possa registar no enorme quadrante solar na porta traseira da Igreja de Sant Joan del Mercat, mesmo ali ao lado,...


... cujo campanário, parece desafiar a geometria gótica das enormes janelas da Llotja de la Seda, mesmo em frente, edifício do séc. XV-XVI, que serviu de bolsa para o comércio da seda,  cuja relevância foi reconhecida pela UNESCO em 1996, com a atribuição do estatuto de Património Mundial.




Quero entrar, mas não o quero fazer agora, que dois grupos de viajantes italianos  se preparam para atravessar a porta. Em frente à Llotja há uma outra igreja, a Basílica del Sagrat Cor de Jesús. Aproveitamos para a visitar, esperando que a aglomeração de pessoas na Llotja diminua.

Por fim lá entramos e, com alguma paciência, consigo um par de minutos com pouca gente dentro da belíssima nave com os seus pilares  que quase se diriam de cordame Manuelino....




Seguimos para a Catedral, próximo ponto da nossa lista de locais a visitar. À medida que o dia avança, nota-se um crescendo no número de pessoas com que nos vamos cruzando na rua, para mais agora que nos dirigimos a uma das praças mais concorridas da cidade - Plaça de la Reina.

Fazêmo-lo despreocupadamente. Esta é uma zona pedonal e podemos fruir a cidade, mirar os seus recantos, alguns de verdadeiros encantos, sem sequer pensarmos que temos que estar atentos, não vá um carro pisar-nos os pés...





Adoro zonas pedonais nas grandes cidades. Em particular em zonas de elevado interesse histórico e turístico, como é caso desta praça que tem numa das esquinas a imponente Catedral e onde as pessoas passeiam tranquilamente ou visitam o pequeno mercado de cerâmica que ali está, por estes dias, montado.

Mais tarde, depois da visita à catedral, aproveitaremos a sombra de algumas árvores que aqui crescem e o convidativo murete que sob elas corre, para descansarmos um pouco e comermos a nossa habitual sandes de almoço, desta vez complementada por um saboroso gelado comprado numa das gelatarias da praça.

Mas, por enquanto, é pela pequena escadaria que dá acesso ao portal de entrada que entramos na grande catedral, cujos trabalhos de construção começaram no século XIII e só terminariam no sec. XVII, o que faz que do românico ao barroco, passando pelo gótico, predominante, todos os grandes movimentos arquitetónicos ocidentais lhe tenham deixado marcas facilmente identificáveis, bastando para isso contorná-la por fora, para observar as várias fachadas e portais.

Mas é lá dentro, que, numa pequena capela lateral, se guarda o tesouro que inúmeros e devotos crentes, procuram aqui ver: o Santo Cálice, o Graal, que Jesus Cristo teria utilizado na última ceia e que aqui teria sido depositado em 1437, depois de trazido de Roma no sec. III e guardado pela Coroa Aragonesa durante todos aqueles anos...

Este é apenas um dos muitos Graais que por esse ocidente fora se guardam em Igrejas e edifícios religiosos, com a reivindicação de ser O Graal, o verdadeiro, o original. Não obstante, melhor que qualquer exercício de datação baseado em critérios científicos (e haverá, no caso, estudos que colocam a origem da taça de ágata num intervalo temporal e geográfico coadunável 
com a reivindicação de originalidade), o fervor da crença é, para muitos, prova suficiente. Ámen!


No museu da catedral, para além de uma impressionante custódia processional barroca com um peso de 600 quilos de talha e ouro,  que recebe o visitante, mal este franqueia a porta, podem ser vistas, entre muitas e variadas peças, as esculturas  originais da porta gótica de Los Apóstoles, do século XIV, cuja "modernidade" figurativa me impressionou, bem como um belíssimo baixo relevo, entitulado "Dormición o tránsito de la Virgen", datado de 1498 e da autoria de Carles Gonçálbez.







Não sou crente, mas as igrejas são espaços que convidam quem nelas entra ao recolhimento, à reflexão, à contemplação, ou até e apenas, a um respeitoso descanso, no conforto da temperatura constante e amena que dentro delas se costuma sentir.

Também nós nos deixámos cativar por estes convite, durante vários minutos, sentados na lateral do belíssimo altar, cuja cúpula ornada com travejamento de talha barroca deixa ver magníficos frescos renascentistas de múltiplos anjos músicos,  anteriormente escondidos sob o teto barroco, que foram, felizmente,  postos à vista  e  competentemente restaurados em 2004.



Metade da programação que tínhamos previsto para o dia estava concluída. Era tempo de nos dirigirmos para uma visita que esperava com bastante ansiedade, e a primeira que tinha apontado na nossa lista, quando a certeza da vista a Valência se cristalizou.

Na rua, uma estátua parecia brandir uma espada, talvez zangada com alguém que deixa o cão aliviar a bexiga ali, mesmo a seus pés, perante a indiferença de uma turista que aproveita o banco para mais um reforço de melanina.... Leio depois que se trata de Rafael Gustavino Moreno o arquitecto que deu a conhecer aos Estado Unidos da América, e em particular a Nova York,  o segredo da construção de abóbodas em tijolo, sendo que a espada que parece brandir é, na realidade uma fita metálica flexível com que molda um arco no espaço.

Da visita seguinte falarei então na próxima entrada do blog, para não alongar em demasia o post nem sobrecarregar a paciência de quem, porventura, vier a passar por estas linhas...




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