Notas de viagem roubadas a um diário que não escrevi,
que me lembram um prato... que não comi,
à maneira de epílogo para a minha visita a Valência
Arroz à Valenciana, era assim que a minha mãe lhe chamava, e não só ela, porque o dito prato era convidado habitual dos menus de muitos dos pequenos restaurantes que, um pouco por todo o país, ofereciam comida com sabor de prato feito por alguém que de nós gosta.
Que eu me lembre até, o arroz solto e fumegante, em que despontavam aros de lula, redondas e verdes ervilhas, pedaços rosados de salsicha fresca, rodelas de chouriço, nacos de frango e um sem número de outras possibilidades, podia ascender à categoria de manjar de ocasião festiva, chegando mesmo a coroar bufetes de boda ou batizado.
Hoje, que eu me lembre, é raro, senão impossível, encontrar tal proposta na carta de um dos muitos comedouros hodiernos que tomaram o lugar das velhas tascas de bairro, propondo agora coisas muito mais ao gosto dos adeptos da massificação instagramada, como o inefável brunch, os pratos livres desse assassino do corpo e alma que dá pelo nome de glúten ou da não menos perigosa lactose, ou ainda seja o que for acompanhado das absolutamente horríveis batatas congeladas pré-fritas.
E eu gostava, quando a minha mãe fazia aquele arroz… tanto que agora que vou escrevendo estas linhas e dele me vou lembrando, quase salivo de antecipação….
Arroz à Valenciana…. Só muito mais tarde compreendi a razão de tal designação, quando descobri que a paella era coisa tradicional na terra ao lado da minha, e que a mesma tinha as suas origens na região de Valência… ora aí estava: o Arroz à Valenciana que a D. Hortense (todas as mães deviam ter nome de flor… a minha tem!) fazia com tanto esmero e cuidado era não mais que uma versão lusitana da paella Valenciana…
E como poderia ser de outra forma. Espanha e Portugal são nomes de irmãos. Com algumas diferenças, é certo, até com algumas embirrações mútuas. Mas todos os irmãos as têm; eu sei e posso dizê-lo de experiência, porque não sou filho único…
Muitos serão seguramente os pratos que compartilhamos em versões levemente diferentes. A gastronomia tradicional é filha do modo de vida das populações e Portugal e Espanha (no seu todos, com todas as suas Nacionalidades) partilharam ao longo dos séculos muito do caminho que os teceu como culturas indissociáveis por fronteiras, esses riscos artificiais que se tecem sobre os mapas, mas que não apagam as ligações de sangue e amor que constantemente as cruzam.
Pote ou Fabada nas Astúrias, Cozido à Portuguesa, Cozido de Garbanzos da Andaluzia e do nosso Alentejo… tudo declinações da mesma tabela periódica que nos fez elementos raros, únicos: Os Ibéricos
Os mesmos que há 40 anos, num dia de sorte pela clarividência de políticos que saíam de ditaduras cruéis e teimavam em procurar caminhos de desenvolvimento e aproximação, assinaram no Mosteiro dos Jerónimos e no Palácio Real, ambos nas capitais dos respetivos países, tratados de adesão a um sonho…
Tem sido difícil, hoje parece até em retrocesso, mas as boas ideias são difíceis de concretizar, têm escolhos pelo caminho, e, inevitavelmente, nem sempre agradam a todos da mesma maneira.
Mas hoje, eu, que amo a liberdade de movimento e de palavra, posso escrever o que quero, dizer o que quero, meter-me num carro e conduzir sem parar de minha casa até à fronteira com a Ucrânia, sem sequer ter que mudar de moeda pelo caminho….
Graças ao fim das ditaduras, passei a sentir-me em casa, tanto em Portugal como ao seu lado, em qualquer das maravilhosas cidades Espanholas;
Graças à CEE e depois à União Europeia, passei a sentir-me em casa também em mais 26 países e isso não há ninguém que me tire. Agora que, passados 40 anos, aprendi a ser, além de Português, primeiro Ibérico e depois Europeu, só me falta ser do mundo… e não deve ser difícil, afinal Sócrates já o afirmava há quase 2500 anos…..
Será que o afamado filósofo também gostava de Paella? Arroz à Valenciana?
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