Da Luz e da sua falta....
Há dias cheios de sol, resplandecentes de luz, mesmo que o céu que os cobre se revista de nuvens, pardacentas, deslavadas, exangues de cor.
Este é um dos melhores segredos do outono, só mesmo irmanado pelo agasalho reconfortante de um bom caldo verde ou pelo crepitar quebradiço da casca das castanhas assadas a saltitar de quentes nas nossas mãos ou, melhor ainda, pelos dois ao mesmo tempo.
Ontem foi um desses dias.
Não que me apetecesse caldo verde. tampouco castanhas. Estamos já bem adentrados em Outubro e as temperaturas, se bem que tenham baixado um pouco, continuam longe do que seria previsível, antecipando-se já para a próxima semana nova subida...
Se nós, humanos, que nos arvoramos em racionais, temos (ou melhor, alguns de nós, que se sabem humanos, têm) dificuldade em interiorizar tão estranho comportamento dos calendários, imagino que plantas ou animais mais confusos ainda se apresentem... em particular animais para quem a migração sazonal seja parte integrante do ciclo vital.
Mas voltemos à luz, que é dela que se fez a história deste meu dia.
Uma manhã de descanso nas minhas habituais caminhadas matinais (que procuro agora ir incrementando de novo em distância para testar a resposta dos meus problemáticos tendões de Aquiles).
Não obstante, nem por isso me levantei mais tarde, que não queria perder o espetáculo que suspeitava se iria produzir.
Pequeno-almoço tomado e segui de carro pelas ruas desertas e apenas não escuras pela presença constante da iluminação pública até ao parque de estacionamento de Cacilhas, local que habitualmente me permite vista desimpedida para nascimentos e ocasos astronómicos.
Os primeiros traços de púrpura e laranja começavam a riscar o pano escuro que tapava o horizonte quando cheguei ao destino.
Instalei-me rápido e fui-me deixando por ali estar a sorver a beleza de mais um nascimento do dia, dramático nas cores e, apesar de tudo, tranquilo na muda banda sonora que o acompanhava, apenas aqui e ali golpeada pelo bater de asas ou pelo grito de uma madrugadora gaivota....
Corrida a cortina, que é como quem diz subido o sol o suficiente para que a deslumbrante confusão cromática se esboroasse em cinzentos e azuis sem chama nem contraste, voltei a casa para buscar companhia para a segunda golpada de luz do dia: uma visita ao MNAC, Museu Nacional de Arte Contemporânea.
De visita a Lisboa, por empréstimo, para exibição naquele museu estava também a luz. Não de um nascimento de dia, mas antes, creio, do seu ocaso. E queríamos revê-la.
A luz, a sublime luz que dourava os rostos e os braços das maravilhosas figuras das Pescadoras Valencianas de Joaquim Sorolla.
Aqui, como em Madrid, onde a tinha visto na casa museu do Pintor, parecendo saltar da parede vermelha em que o quadro se afixa cá, como lá, as três mulheres, duas delas amparando ao colo a próxima geração de pescadores, olham para fora do quadro, cabendo-nos a nós supor o que tão atentamente observam.
Mas o que mais me cativa vem precisamente na perpendicular do que as preocupa: a luz de um sol poente, que deita sombra sobre as brancas vestes ou doura a pele, o ar (só génios ou feiticeiros podem pintar o que não tem expressão física), os corpos das crianças que ao fundo se banham na alegria da espuma.
Em boa hora o quadro veio de novo a Lisboa (creio que deveria ter estado também na grande exposição do autor que visitei no Museu de Arte Antiga há uns anos, e que me alertou para a grandeza do pintor Valenciano). Em melhor hora o voltei a ver.
Fim do dia. Costa de Caparica, em passeio de fim de tarde pelo paredão cheio de gente que como nós passeia ou se exercita em vaivéns contínuos de skate, bicicleta, patins ou apenas pernas.
A bola de luz que vi hoje nascer vai de novo passar para baixo do mar que me ocupa o horizonte.
Esperava mais nuvens e consequentemente maior variação cromática no céu. Assim não é. Não obstante, não deixo de ir ao carro buscar a máquina e o tripé.
O dia não o é mais. Em breve nem as silhuetas do enorme navio de cruzeiro que roça o horizonte ou dos pescadores lá ao fundo no cimo do pontão se deixarão ver, que é noite de lua nova.
Será então ainda mais fácil perceber a falta que nos faz um quadro de Sorolla!