quarta-feira, 21 de março de 2018



Dia Internacional da Árvore
Dia Mundial da Poesia
(histórias de um dia que é só um,
embalado em óbvia redundância)


Folha a folha constrói-se o pássaro
que sobra, fugaz, da ponta de um ramo.
No intenso escuro, que não vejo
a coberto do verde, adivinha-se o ninho.


Há histórias por contar na velha árvore.
Sabe-o o gato, ou não estaria aqui
a olhar para o céu, mesmo sabendo-se ateu.


Passa o camião do lixo;
As crianças correm para a escola;
os pais para o trabalho;
a nuvem para o chão (confirmando a acutilância do boletim meteorológico).


O gato, mesmo assim, não sai do sítio;
tampouco o pássaro, embora nem ele, nem eu, o consigamos ver,
no intenso escuro, a coberto do verde.
É só isto

A Primavera.

PS. Não fora a UNESCO e já há muito que este seria o dia da poesia. Parabéns Joan Sebastian Bach! 

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018


Das Palavras

Parece cega a vidraça que me separa do dia sombrio, invernoso, deitado sobre os telhados e ruas lá fora. Cega porque lhe é indiferente, na absurda transparência do vidro, apenas maculada por pequenas nódoas de tempo exibidas na contraluz difusa, quase etérea, que vem dourar o tampo da mesa onde escrevo.
Sem tema.
É assim que começo tantas vezes, tantas vezes para não acabar. Só pelo exercício, que é de prazer também. E no entanto algo fica, sempre, como marca, como rasto, lento, pesaroso, por vezes, como se a escrita fosse caracol ou vagarosa infiltração e, noutras mais felizes, mas mais raras, ocasiões, em tropel de teclas que se confundem em palavras ortograficamente imperfeitas, mas grávidas de impecável semântica (ou pelo menos eu assim acho, que, como seu autor, é-me de direito a glória).
Volto à vidraça - agora menos incandescente que, lá fora, sempre lá fora, as nuvens se adensam escondendo um sol cobarde e tíbio – como varejeira enganada pela luz. De repente, a  metáfora não me parece ocasional. A história do homem confirma-o ou não tivesse a humanidade  sempre ondulado laboriosa e sonoramente, numa densa coreografia errática mas impecavelmente marcada, em busca da claridade visivelmente oculta pelas mais cristalinas  paredes.
Homens, varejeiras, estorninhos, formigas, abelhas, medusas, tudo eternos migrantes. Em ciclos que, por definição e constatação, se repetem, para deleite dos que amam o previsível.
Era uma vez.
Todas as estórias do mundo dormem nesta pequena frase. Afirmá-lo apenas reitera o que se acredita matéria de unânime consenso, só porque com ela invocamos o passado e as estórias não podem ser de futuro, mesmo que se afirmem de ficção vindoura. As teias que lhes dão corpo vivem apenas o ínfimo tempo da tinta que as fixa, ainda que esta seja imposta sobre putativo papel pela magia da eletrónica e da modernidade. E, numa feliz inversão, é, regra geral, na cor que a ausência dela produz, na luz que a gritante falta dela faz brilhar, que se tatuam as letras sobre a tela de uma folha  agora inexistente, alva como alva é a cor que todas as outras cores contém. Pretas sobre o branco migram as letras, as palavras, também elas como varejeiras ou estorninhos, ou, tão óbvia e simplesmente Homens.
Para se escreverem, as palavras provocam o mais aceso vómito. Não raras vezes deixam mal-estar, um sabor acre e metálico que só encontra par no aço frio e cortante da imaginação. Não raras vezes, são o precipitado de uma aturada filtragem que começa na exigência de um sentido e termina na libertação de uma finalidade. As palavras são erva, verde, húmida, fresca, que incessantemente ruminamos para lhes extrair a seiva que nos alimenta.  Usadas e exangues da essência, cuspimo-las sem pudor para a borda do passeio, não sem que antes nos asseguremos de que ninguém nos está a ver. E lá ficam até que a chuva ou um cão de perna alçada as lave de encontro ao bueiro, ou que alguma alma curiosa as recolha, as conforte e as ordene, para seu deleite pela escrita, para deleite dos outros, pela leitura, ambos os atos evocando a transitividade de um processo, também ele forjado de eterno contínuo, como contínuas são as migrações, dos Homens, das varejeiras, dos estorninhos,
das Palavras.

terça-feira, 28 de março de 2017


 
 
Água,
 
tão só e ainda tanto!
 
Branco lamento fluído
de pedras, aves de estranho canto
em tronco e folhas diluído,
 
Mãe de musgos, primavera,
aneurisma vital
na seca terra que te espera
 
Água,
tanto e tão só, afinal!



terça-feira, 21 de março de 2017

Dia Internacional da Árvore
Dia Mundial da Poesia
(histórias de um dia que é só um,
embalado em óbvia redundância)
 
 


Nus, os plátanos procuram o céu
imóveis,
perfilados na berma do dia
que escorre lento
sobre a estrada
sobranceira ao mar
(que não ao homem).
Na sinceridade da nudez
esperam pacientes
a doçura da cor
que sobra até se diluir na água
azul, escuro
do oceano.
Disponíveis, os olhos cruzam-se:
se de verdade houve ilha dos amores
ela tinha plátanos e era nos Açores.
 
 

 
 


segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017


O chão está coberto pelas folhas que, húmidas, não crepitam quando se pisam, nem voam com o vento fresco que se faz sentir nos lugares mais altos da tapada. Seguimos o carreiro, quase sempre em silêncio, talvez a forma mais óbvia de dizer alguma coisa quando tudo à nossa volta parece convidar uma forma superior de bem-estar, como se déssemos as mãos, ou nos beijássemos, apesar de seguirmos separados pela circunstância neutra do tamanho da passada e das paragens que o nosso gosto pela fotografia ocasiona.

Chuvisca, de vez em quando. Pressente-se outra vida que a das árvores de ambos os lados do carreiro. A espaços ouvem-se alguns pássaros, que raramente se descortinam. Uma  e outra vez, o grasnar das gralhas faz-nos olhar para cima, para um céu leitoso, pardacento. À saída de uma curva alguns gamos olham para nós, também surpresos. De pronto se viram e fogem, encosta acima, rapidamente submersos pela cortina densa do arvoredo.

 
 
O solo que aqui pisamos é uma antiga chaminé de vulcão, diz-se numa das placas que identificam no percurso os pontos dignos de menção. Hoje é um prado que cobre o fogo apagado dos afloramentos de basalto que comprovam o que a placa diz, segundo leio, que de pedras pouco sei.

Não há mais vulcão, mas o fogo que dantes subia das entranhas, desce agora dos céus, a julgar pelo tronco negro da árvore que, aqui onde piso, é a mais alta, e por tal vaidade pagou com a dor fulminante do raio. Nem sempre a sorte protege os audazes…


E eu que o diga, estatelado na lama mole, depois de me ter deixado levar pelo deslizar da bota sobre a manta de folhas, só porque escolhi caminho não pisado, julgando-o mais seco e seguro…resta-me o consolo de ter caído com graça, quase em câmara lenta, com um braço bem erguido, tentando proteger a máquina fotográfica, e de não ter magoado nada mais que o orgulho…

Um veado indiferente olha-me nos olhos e deixa que me aproxime o suficiente para um retrato. Tens sorte amigo bicho: nem eu sou rei, nem o tubo que te aponto à cara dispara outra coisa que a vontade de te guardar. Os tempos mudam, os hábitos também, só o belo permanece e tu ou os teus já naquele tempo, o eram!
 
 

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017


 Lingerie

Piso-te a sombra leve, quase sem querer,
Na dobra das pernas, azul celeste, celestiais,
Com a vergonha de olhar e tentar ver
O que a saia tapa, ou talvez mais,
Se mais afoito inda me atrever
E para além da dobra imaginar
Que outra cor estás a esconder
Que outra cor vou encontrar
Quando o véu azul se transparenta
em sussurro de renda sobre a pele 
e me faz penar na agonia lenta
De adivinhar a cor que sabe a mel.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Resolução de Natal
 
 
Não abro o presente. Tampouco o futuro!
 
 
A Christmas resolution
 
I won't open the present. Nor the future!