O Cometa
Encostado ao paredão de grossas lajes de xisto, ofereço o
corpo a um vento que, embora quente, acaba
por trazer algum conforto, quanto mais não seja por nele se diluir a lembrança
dos bem mais de 40 graus com que a tarde, uma vez mais, causticou árvores, pássaros
e pedras.
Quarto crescente, diz-me a lua que lentamente baixa sobre a
planície axadrezada de olivais, searas já cerceadas e esparsas filas de luzes,
quais marchas de estáticos pirilampos, anunciando no escuro, que aos poucos
se insinua, os locais onde brancas casas de
paredes largas e portadas cerradas resguardaram os homens da inclemente canícula.
Aqui e ali desponta uma luz no infinito pano de cena que
cobre o horizonte. Suspeito que esta seja a hora em que os anjos se assomam ou
se assumem e puxam da tabaqueira e das mortalhas para o cigarrito com que
embalam a noite, com mais um dia de trabalho pelas costas
naquela espécie de carreira de proteção civil a
que alguns os creem dedicados, ou em maquinações de cupido que outros lhes
reconhecem.
Os anjos são muitos, dizem;
tantos quantos as piriscas que se vão acendendo no escuro que agora tudo
envolve; tantos quantas as estrelas (e é nestas que acredito!)
Há mais estrelas no céu que grãos de areia em todas as
praias da terra!
Como não lembrar Carl Sagan olhando para o rendilhado de luz
que apenas
as luzes modernas da
vila medieva conseguem tapar, lá ao fundo, no
topo do cabeço.
São celestes e corpos, os corpos celestes! Imensos na
diversidade e inqualificável dificuldade de compreensão. A mim servem-me
apenas para lembrar a minha absoluta infimidade
e o meu contínuo trânsito, até um dia no futuro, em que, como qualquer corpo celeste,
tenha também o meu ocaso….(um ocaso sério, dir-se-á, mas inevitável!)
Tudo no universo é exagero, à nossa escala: distâncias,
massas, dimensões, propriedades. Tudo é sumamente complexo, mas infinitamente
belo. E infinitamente secreto, para os homens como eu que olham o céu e veem apenas
o que os olhos deixam (e, confesso, a limitada capacidade de entendimento
permite).
Melhor metáfora que o monólito de Kubrick não há para este
estado de coisas. No fundo, há sempre uma enorme pedra que nos impede de saber,
embora alguns, os nossos melhores, fustiguem e continuamente desbastem as suas arestas
… tanto que se avançou desde Platão; Copérnico;
Galileu; Einstein; Higgs.
Eu contento-me com maravilhar-me.
E um cometa, sim é um corpo celeste; mas vê-lo lá ao fundo,
na pantalha do planetário mais real que se pode imaginar, no meio de estrelas,
planetas, e asteroides que fulgem por frações
de segundo,
é
uma maravilha!