Por isso busco o prazer em formas simples, procurando interpretar o mundo em meu torno, olhando, ouvindo, sentindo, ao longo do caminho que escrevo em passos, que me levam tantas vezes aos mesmos locais que, sim, lhes poderíamos atribuir a classificação de rotina.
Hoje foi um desses dias de sobressalto no hábito.
Caminhava eu já no regresso a casa do meu higiénico passeio matinal, que venho tentando compatibilizar com a recuperação dos tendões de Aquiles, o que, infelizmente, nem sempre tem sido linear, quando me cruzei com ela.
Deitada no chão, imóvel, silente, olhava-me, de frente, com grandes olhos redondos, com tanto de amarelo como de desafiantes, como se interrogasse a minha intenção.
Aproximei-me, não reagiu; mais próximo ainda: moveu-se e compreendi que tinha, pelo menos, uma asa partida.
Liguei para a GNR. Ficaria ali com ela até a virem buscar, se preciso fosse.
Atenderam-me do posto:
- Vou passar a chamada aos colegas dos animais, mas informo-o já que não o devem ir buscar... vou passar...
bip. bip.. bip... bip....
Desliguei.
Procurei outras opções na internet:
Linha SOS Ambiente e Território
bip.. bip.. ... o número que marcou não está disponível (ou algo do género e com o mesmo efeito)
PSP Almada
bip.. bip... lamento mas esse assunto é com os colegas da GNR que têm brigada especializada...
Novamente GNR
bip... bip...
- Desculpe, liguei há pouco, mas ninguém me atendeu do número para que depois me passaram...
- Ah, sim. E não pode ir a um veterinário?
- Um veterinário??????
- Não abrem às oito? já passa das oito.
- Não é vossa competência?
Claro que não vou contar o que se passou depois, durante o triálogo que mantive com dois guardas, porque não é edificante (e não me refiro a mim...)
- ... vou passar outra vez...
bip. bip.. bip... bip... click (som de chamada desligada automaticamente)
Tentei também um número da Câmara de Almada. É cedo, ainda os serviços estão fechados, pelo que não atenderam (espero que tenha sido só por isso...).
Vejo que há um Centro de Recuperação de Animais em Monsanto. Talvez seja mesmo a melhor opção, mas tenho que ir a casa buscar uma caixa, umas luvas e uma toalha para apanhar o pobre animal, que não deixa de ser uma ave de rapina, com bico e garras afiados...
Por sorte estou perto; em 10 minutos chego a casa e apanho o necessário para poder recuperar o que me parecia ser uma coruja, tão grandes os olhos que olhavam frontalmente para mim.
Volto com o carro e estaciono o mais perto possível do local onde deixara a ave. Por ali, àquela hora, por vezes pessoas passeiam com cães soltos e, se tal acontecesse, duvido que o resultado fosse o melhor, por isso apresso-me.
Lá está ela... avanço com a toalha na sua direção; já muito perto, levanta-se e tenta fugir, mas não consegue, coitada.
Atiro a toalha para cima dela; não resiste.
Com cuidado apanho-a, embrulhada no pano turco, e meto-a na caixa que também trouxera. Não emite um som; não se mexe.
Partimos para Lisboa; felizmente não há trânsito e a chegada a Monsanto é rápida. Tão rápida que chego ainda meia-hora antes da abertura do Centro.
Por fim, dois trabalhadores camarários indicam-me onde me devo dirigir e lá vou eu transportando a caixa como se de nitroglicerina se tratasse, tentando não perturbar a infeliz ocupante.
- Então que temos aqui?
- Uma coruja; encontrei-a com a asa partida quando passeava, há cerca de hora e meia.
- Uma coruja? Nada disso. É uma águia.
- Uma águia? Erro de palmatória... que vergonha. Como pude eu confundir? (Eu, que tenho a mania que sei distinguir algumas aves e outros animais....)
Foram os olhos, grandes, redondos, e a cabeça redonda a olhar para mim, e a verdade é que nem olhei com muita atenção, preocupado que estava em garantir o socorro, o mais rapidamente possível.
Agora, é com os veterinários do Centro, que, sei, farão o melhor. Espero que se safe... estava tão fraquinha.... segunda-feira telefono. Depois digo alguma coisa....
(Contínua....)
Já no LxCRAS - Centro de Recuperação de Animais Silvestres de Lisboa ... Boa sorte!




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