II - Santa Iria da Azóia - Castanheira do Ribatejo
15 de Outubro de 2026
Testar a condição atual dos meus tendões, após meses de pouca atividade, fisioterapia e um recomeço incremental nas caminhadas diárias que me tinha já levado a percursos diários sucessivos de 10 km sem queixa de maior, foi a principal razão de me ter lançado de novo ao caminho, numa dia de meio de Outubro, que se diria ainda de fim de verão.
De facto, ainda que encontrasse a manhã, à saída de casa, fresca, em breve a temperatura aumentaria, em resposta à subida do sol sobre o curso do Tejo, que acompanharia durante vários quilómetros, até chegar aos 28 graus que se faziam sentir quando acabei a caminhada..
Para alcançar Santa Iria da Azóia, saí de casa por volta das seis da manhã, para tomar o autocarro que me conduziu à estação do Pragal. Aí chegado, continuei a viagem no comboio Fertagus até Entrecampos, tendo depois transbordado para uma composição CP da Linha da Azambuja, que me levou então até ao destino.
Estava escuro ainda quando desci da carruagem na estação de Santa Iria, por volta das 7h30. Consultado o mapa no Wikilock, tomei o caminho que me levaria até aos passadiços ao longo do Tejo por uma estrada de terra batida ladeada por altos canaviais, o que acentuava a profunda sombra em que me movia.
Por fim o passadiço e os primeiros alvores de amarelo no horizonte. Deveria seguir para Norte, mas como queria retomar o caminho precisamente no local onde antes o largara, andei cerca de 400 metros para Sul até encontrar o portão de onde anteriormente saíra. Agora sim, poderia começar a jornada!
E, não que o soubesse de antemão, seria bom tirar o melhor partido da paisagem agora, enquanto o caminho corria em passadiço ou terra batida ao longo do rio, na companhia de flamingos, garças, patos e demais passarada, porque uma vez chegado aos limites da base aérea de Alverca, local onde o trajecto inflete para Oeste, acompanhando uma vala que por ali existe, e onde várias famílias de patos me pareciam saudar à passagem, não há, do ponto de vista de paisagem, nada que se aproveite...
À chegada a Alverca, passei à porta do Museu do Ar e não pude deixar de recordar as várias visitas que lhe fizera com amigos, na adolescência, quando este era o único polo museológico dedicado à aeronáutica que existia em Portugal... como o tempo passa....
Uma vez que tinha que atravessar a linha férrea, aproveitei para parar um pouco na estação para tomar um café e comer um delicioso e açucarado pastel de feijão. Na bilheteira pude ainda obter o primeiro carimbo do dia na credencial que insisto em usar, não me dê vontade de ir seguindo até o Porto, e no meu habitual caderno de viagem.Alverca cruza-se pela falda, sem nunca se entrar verdadeiramente no núcleo urbano. E - lamento dizê-lo e os Alverquenses que me perdoem - é um percurso sem qualquer interesse e mesmo feio, atravessando áreas industriais, agrícolas e de canavial.
Mas como nem tudo pode sempre ser mau, acabei por passar por um local onde um senhor se ocupava a trasfegar água da vala para a sua impecavelmente viçosa horta com uma picota certamente por ele construída, sendo que a presença de ambos, homem e horta, surgiram como uma súbita nota de humanidade num espaço desorganizado, destratado, sujo....
Saído de Alverca esperava-me ainda pior que um caminho entre canaviais ou terras agrícolas: vários quilómetros percorridos na movimentadíssima estrada nacional N1 que, para além de nada terem de atraentes, me obrigavam a mudar de um lado para o outro da estrada amiúde, para procurar a berma mais larga, já que, por vezes, a berma da esquerda, por onde deveria caminhar, de frente para o trânsito, pura e simplesmente não existia.
Seria assim até chegar à estação de Caminho de Ferro de Alhambra, onde pude novamente atravessar a linha, para visitar o centro da Vila e obter, na Junta de Freguesia, um novo carimbo de passagem.
Depois da fealdade da estrada nacional, Alhambra, para além do bem tratado centro, acolheu-me com a simpatia de e uma praça e de um jardim junto ao mar. Como levava já 17,5 km percorridos decidi parar tirando partido de um banco à sombra, ao pé do parque infantil, para retemperar forças com a habitual sandes que trouxera de casa e para refrescar os pés, já um pouco inchados, retirando-os por alguns minutos dos sapatos.
Atrás de mim, numa sala do conservatório instalado no edifício da Sociedade Euterpe Alhandrense, alguém se afadigava em prática de uma peça de piano que não identifiquei, mas que me serviu de excelente banda sonora para os momentos de repouso que ali passei.
Atrás de mim, numa sala do conservatório instalado no edifício da Sociedade Euterpe Alhandrense, alguém se afadigava em prática de uma peça de piano que não identifiquei, mas que me serviu de excelente banda sonora para os momentos de repouso que ali passei.
De novo calçado e mochila assestada, retomei o caminho, agora novamente junto ao rio, no trajecto ribeirinho em pista de cimento que me conduziu até Vila Franca de Xira.
Aí chegado, voltei a atravessar a linha de comboio, para me dirigir ao centro da vila onde, no Posto de Turismo, obtive o último carimbo do dia e comprei o postal que, como habitualmente, mandaria para casa no final da tirada.
Não me queria demorar em Vila Franca, até porque já tinha por ali tinha andado em anteriores visitas, por isso voltei a passar a linha na estação ferroviária e segui em frente.
Restava-me cerca de hora e meia de caminhada até chegar ao limite que me impusera: Castanheira do Ribatejo. Uma vez mais percorreria o trajecto em estrada e terrenos agrícolas sem o mínimo interesse para o caminhante, medindo o progresso primeiro pela distância ao Edifício do Hospital Beatriz Ângelo, lá ao fundo, do outro lado da auto-estrada, e depois pela aproximação à Plataforma Logística de Castanheira do Ribatejo, que se situa mesmo ao lado da estação de comboio, termo da jornada.
Conseguia ver parado na estação um comboio que sabia me poderia levar já de retorno a Vila Franca, onde pretendia parar para descansar e almoçar, antes de voltar a casa. Estuguei, por isso, o passo e em pouco tempo estava já instalado na carruagem, à espera de seguir viagem, não me tendo sequer lembrado de tentar obter um carimbo na estação, embora admita que a mesma não dispusesse de bilheteira tradicional.
Estava terminada a caminhada. O melhor é que os tendões tinham aguentado e todas as vezes que retomara a caminhada depois de algum tempo de descanso, fizera-o sem a desconfortável rigidez nos gémeos que tanto me acossara em ocasiões anteriores, obrigando-me àquilo que descrevo como andar de pinguim...
Haveria agora que verificar como seria no resto do dia e nas vinte e quatro horas subsequentes.
Na verdade, no dia seguinte sentia alguma rigidez, que ainda assim não me impossibilitava de me deslocar normalmente e que após algumas passadas acabava por desaparecer.
Resta-me pois continuar a fazer os exercícios para reforçar os tendões, pensando que o melhor é continuar a ir incrementando o esforço e a "quilometragem", para ver se consigo resolver esta questão de uma vez por todas.
Em resumo, e não obstante a fealdade cénica de grande parte do trajecto, a caminhada trouxe-me a satisfação de ver que o investimento em descanso e exercícios teve resultados positivos, principal objetivo desta tirada que tinha pensado não iria exceder em muito os 20 kms mas que acabou por ultrapassar os 27, sem problema de maior, o que muito me alegrou.
Talvez daqui siga um dia a fazer mais duas ou três etapas, até chegar a Santarém....
A ver vamos!
__________________________________________________________________________________________
Passagem superior da estação de Santa Iria da Azóia. A noite saía de mansinho...
...para dar entrada a um dia que começava a despontar para dourar o calmo Tejo.
![]() |
Este o local onde tinha abandonado o passadiço na etapa anterior. Começava pois aqui a nova etapa.
Ao longo dos passadiços quem passa é constantemente confrontado com instalações industriais (algumas convertidas já às necessidades dos novos tempos) e armazéns, enquanto que, no rio, alguns pontões servem de amarra a barcos de faina (que a pesca ainda por aqui se pratica) ou lazer.
Ao fundo, velhas instalações agrícolas no Mouchão da Póvoa. Outrora solo extremamente fértil, hoje estéril, devido a salinização dos solos, em consequência de um rombo no dique que os protegia.
Existem planos para a transformação do Mouchão para turismo de Natureza, reabilitando as construções que lá existem...
A sinalização dos Caminho de Santiago e de Fátima é clara e abundante até se chegar a Alverca.
Nunca me tinha passado pela cabeça que os tetrápodes se faziam com formas, mas depois de ver uma, parece óbvio....
A partir do momento em que se abandona o curso do rio, para infletir para Alverca, o percurso torna-se Alverca verdadeiramente desinteressante, para mais encafuado em paredes de canavial....
O Museu do Ar, das minhas memórias de adolescente (e não só, que ainda o gosto de visitar, nos seus vários polos)
Mais do mesmo na passagem pelas traseiras de Alverca
O Senhor da Picota e a sua belíssima horta
Quinta do Pinheiro, casa solarenga setecentista, leio na internet... merecia recuperação....
Chegada a Alhandra. O trajecto, aqui, fi-lo pela estrada, saltitando de berma para berma. Não encontrei qualquer marcação do "Caminho" durante alguns quilómetros, sempre bordejados a indústria, como a centenária fábrica de cimento da CIMPOR...
Há horas de espera em estações de comboios que parecer correr lentas, sem cor...
... talvez porque a tivéssemos deixado lá, na praça principal da vila.
O bem estimado coreto de Alhandra
Homenagens a dois nomes indelevelmente ligados a Alhandra: Soeiro Pereira Gomes, o autor de "Esteiros", o livro que o autor dedicou " Aos Homens que nuca foram meninos", de um tempo que felizmente, já la vai, e Baptista Pereira..., um desses meninos, cujas capacidades físicas o libertariam da amarra da pobreza e o tornariam numa lenda da natação, vencedor de várias provas de fundo, entre as quais a travessia do Canal da Mancha em 1954.
A pista que liga Alhandra a Vila Franca de Xira...
... e a Ponte Carmona, que atravessa o Tejo em Vila Franca desde 1951 e que até à inauguração da Ponte 25 de Abril era a única ligação rodoviária sobre as duas margens na zona da grande Lisboa.
Busto do escritor Álvaro Guerra, em Vila Franca de Xira...
Terra de touradas, querem-nos lembrar, logo à saída da estação de comboio...
Homenagem à Comunidade Avieira,
Já no caminho para Castanheira do Ribatejo, as antenas no topo do Monte Gordo e o Hospital Beatriz Ângelo
Finalmente a ponte do outro lado....
... e a passagem novamente por campos agrícolas com a plataforma logística de Castanheira no horizonte.
Não há como não achar graça às máquinas que se deslocam sobre carris...
Final da linha.... para mim :-).
















































Sem comentários:
Enviar um comentário