Mostrar mensagens com a etiqueta Outono. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Outono. Mostrar todas as mensagens

domingo, 1 de novembro de 2026


Sim, é verdade: puxei um pouco os cursores do contraste  e acentuei o preto para gerar silhuetas no primeiro plano, mas a verdade é que o céu estava assim há dois dias, quando o sol estava a nascer.

Assistir a tamanho espetáculo é condição que só está ao alcance de quem se levanta cedo. Não obstante, mesmo entre esses, só dela se podem arvorar os que se permitem olhar para o céu, porque não precisam de se concentrar a mirar o carro da frente nas longas filas de trânsito em que exercem o direito ao exaspero matinal, ou de olhar para nada para pensar em tudo, enquanto os autocarros, os comboios ou os metros, os transvasam do leito para a secretária ou para a linha de montagem.

Tenho portanto, eu, esta dupla condição de madrugador e alforriado do quotidiano, que me impele quotidiana e despreocupadamente ao longo de caminhos e ruas, ao ritmo da minha, por enquanto, segura passada.

Faço-o em paralelo com as estações. Vejo chegar as andorinhas; vejo-as partir; vejo as folhas verdes cobrir os ramos do velho freixo que antes vira nu; vejo os bandos de pintassilgos aparecerem e, como que por magia, desaparecerem de novo; vejo o milagre das magnólias no jardim que se cobrem de flor antes de terem folhas; vejo os plátanos, que já vi nus e verdes, cobrir o chão de castanho a seus pés; vejo o céu, antes pardacento, amorfo, sem cor, retorcer-se em rasgos de amarelo, laranja, vermelho, lilás e vejo

isto que vi anteontem: a desconcertante beleza de um manto rasgado de nuvens, como só um amanhecer de outono nos pode dar

e fico imensamente grato por o poder fazer, sabendo-me rico de privilégio, pois que nunca mais tão bela tela se irá exibir.