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sábado, 17 de maio de 2025

 Notas de viagem roubadas a um diário que não escrevi,

em partes, tantas quantas me promete a memória...

19 de Abril de 2025 - Khiva 


Encontramo-nos com Dil, ao pé do inevitável Kalta Minor, o minarete inacabado,  para as últimas visitas guiadas do programa.

Pouco passa das nove horas mas é já grande o movimento nas ruas da cidade amuralhada onde se entra apenas com bilhete, em acessos controlados com torniquetes. 

Turistas, quase todos. Locais e, como nós, estrangeiros, sobretudo Espanhóis e Franceses, embora também se ouça italiano, alemão e até mesmo português, nas conversas de quem passa.

Teremos a companhia do guia apenas durante a manhã, já que a tarde ficará livre para dela fazermos o que bem entendermos.

Dirigimo-nos ao museu da Kunya Ark, a cidadela: Somos dos primeiros a entrar para o pátio interior da área de receção. Enquanto o guia fala, como habitualmente tento concentrar-me na oportunidade de uma ou outra fotografia. Uma ou duas fotos de turista, típicas, à minha mulher, sem ninguém em todo o bonito alpendre coberto, todo forrado a belíssimos azulejos azuis.

Espero que ela saia do alpendre para fazer então algumas fotografias do local... pela esquerda do visor vejo um vulto que avança para a área da fotografia... e outro, e mais outro ainda... tiro os olhos do visor... "mas de onde é que veio esta gente toda...?" ,em questão de segundos, todo o pátio é inundado de grupos de turistas, tornando qualquer fotografia impossível e suscitando em mim uma enorme vontade de sair dali para fora.

Felizmente há mais que ver no monumento. Avanço para a área da mesquita e, antes que a multidão ali chegue também, faço uma ou duas fotografias ao mihrab, o nicho que indica a localização de Meca, e à escada onde o imam oficiava.

Como é belo também o teto de madeira do alpendre, todo ricamente pintado.

No local há um museu de numismática  e história que visito sem grande proveito por me sentir acossado por toda aquela gente que vai por ali entrando.

Finalmente saímos do edifício, de novo para a rua. Uma fila de outros grupos espera a vez de entrar.... esta foi, sem dúvida a visita em que menos frui, em toda a viagem. 

Seguimos para a mesquita Juma, a mais antiga de Khiva. Lá dentro, mais de duzentas colunas de madeira todas trabalhadas, (213 para ser mais preciso) todas diferentes umas das outras, suportam o teto igualmente forrado a madeira,  por onde entra a luz por duas claraboias.

Não havendo janelas e sendo a luz zenital, todo o interior mais afastado das zonas das claraboias fica remetido a uma penumbra condizente com o carater íntimo da funcionalidade do edifício.

Diz o guia que algumas das colunas de madeira tem mais de 900 anos. Não sei se assim será, mas algumas parecem efetivamente muito velhas. 

Junto a uma delas, observo uma mãe a industriar a filha para uma prece, pousando-lhe a mão de encontro à coluna.  Seguramente invoca um desejo... problema de saúde, casamento, um filho...quem sabe o que a jovem de olhos fechados e afetando evidente fervor reclama... em respeito, retiro os meus olhos da cena que ante mim se desenrola e vagueio pela mesquita por entre o quadriculado da miríade de pilares de velha madeira.

Uma última ironia para terminar a visita: purificados pela passagem pela mesquita, rumamos ao antro do prazer carnal... o harém do Palácio Toshhovli,, uma construção da primeira metade do sec. XIX, mandada erguer pelo Khan de Khiva, para albergar as suas quatro legítimas consortes, curiosamente todo forrado no exterior das quatro paredes que delimitam um grande pátio a painéis de azulejos azuis e brancos, todos diferentes uns dos outros.

Rodamos pelos aposentos do Khan e das concubinas, pela sua imperial alcova. Por baixo de um dos alpendres, um grupo de pessoas da nossa idade ocupa-se calmamente com cadernos de desenho, canetas e aguarelas a retratar o edifício e um sem número de detalhes do mesmo. Espio desavergonhadamente um dos cadernos, e, verde de inveja,  cumprimento a senhora que tão destramente desenha pela altíssima qualidade dos traços que lhe saem da mão. Penso nos meus desgraçados cadernos... na fraqueza do traço que os macula... não me resta senão praticar.. talvez um dia consiga estar a metade do que agora vejo...no Alpedre do lado, três senhoras cantam e tocam música tradicional que soa bem alto, refletido que vai o som no vidrado dos azulejos. 

Oficialmente a visita terminava aqui, que bom que o fizéssemos com música. Afinal a música é a marca dos grandes momentos e esta nossa visita ao Uzbequistão seguramente foi-o, por aquilo que vimos, pela forma o fizemos,  pelas pessoas que conhecemos, nós, os dois únicos portugueses entre quase cinco dezenas de naturais do outro lado da fronteira, marca que não pesa, ou não fôssemos todos Ibéricos e Europeus.

Fecho por aqui o álbum, com as última fotografias que, com o habitual cuidado, aqui colo, já que de uma ida para o aeroporto no dia seguinte, ninguém, nem mesmo eu próprio, quererá saber...

Vamos! Está na hora do chá, como tão bem me lembram os dois amigos entretidos em alegre conversa ao lado do sempre presente samovar, na base do Kalta Minor...

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Para onde quer que se olhe, o contraste das decorações, a sua complexidade - a lembrar minimalistas cadências repetitivas - e o ondular das formas  tornam os minaretes e torres dos vários edifícios num prazer de contemplação.


E, de repente, mais um boa fotografia salta à minha frente...


Já dentro da cidadela, faço uma ou duas fotografias e, de súbito...







Mesquita da Citadela


Um pachorrento camelo que alugava os seus préstimos aos turistas





A mais velha coluna da mesquita Juma... e mais uma prova da impreparação/inconsciência/boçalidade de algum turista











Harém do palácio Toshhovli




 Mausoléu de Paclavã Mamude







sexta-feira, 16 de maio de 2025

  Notas de viagem roubadas a um diário que não escrevi,

em partes, tantas quantas me promete a memória...

19 de Abril de 2025 - Khiva 

Último dia de visita... amanhã um dia inteiro de viagem me espera até rodar de novo a chave na porta de casa. 

Entretanto hoje, por ter ficado instalado bem dentro do centro histórico tenho a oportunidade de fazer o que sempre procuro fazer quando tenho oportunidade: sair para a rua antes do nascer do sol e do pequeno almoço, para poder fotografar na paz do silêncio e da ausência de pessoas, em particular de pessoas como eu... turistas...  ruído que somos sobre as paredes, céus, casas, monumentos, com o nosso insaciável apetite por mais uma selfie que vez alguma veremos, por mais uma fotografia que vez alguma mostraremos, por mais uma imagem que vez alguma terá utilidade... 

Fotografar, para mim, e suspeito que para muitos dos que o fazem por algo mais que encher um cartão de memória com  um hábito que sobre nós desceu com a modernidade tecnológica que nos acompanha, é tanto um gosto, uma procura artística, quanto uma catarse.

Que fique claro: não me considero nenhum fotógrafo de aptidão superior, mas, sem falsa modéstia, creio-me um praticante relativamente aclarado desta forma de expressão artística, embora esteja longe de dominar a tabela de conteúdos de uma manual exaustivo da arte fotográfica. Também porque tal não me interessa. Sou um empirista; outros dirão um mero diletante... pois seja. Alicercei em prática, ao longo de anos, conhecimento dos aspetos técnicos da fotografia e da teoria da composição, os dois esteios fundamentais de um bom pedaço de papel impresso, para pendurar na parede lá de casa... 

Sou de mim o meu melhor crítico, até porque ninguém costuma ver as fotografias que faço, como acontece com quase todos nós. Mas a verdade é que das horas que qualquer fotógrafo que se preze dedica, de alguma forma, a rever e "revelar" as imagens que recolhe, grande parte delas são gastas num contínuo processo de análise, de pergunta resposta sobre coisas tão díspares como a equilíbrio da composição, convergência de paralelas, saturação, contraste ete, etc.

E para este trabalho é fundamental o que o alimenta: a imagem.

Que procuro, sempre que possível nas condições que irei ter agora durante cerca de hora e meia, sem outra distração que os meus passos, ou a ocasional pessoa que por mim passa para ir abrir a porta de um monumento, as poucas pessoas com que me cruzo, ocupadas na limpeza da rua; uma ave desconhecida que me salta à vista e me desvia o olhar por algum tempo, até desaparecer atrás de um edifício.

Como tudo é mais claro: as linhas, as cores, as formas...

depois é juntar o puzzle; procurar que as peças encaixem, o que nem sempre é fácil apesar da qualidade inquestionável das peças. É aí que entra o equilíbrio, a busca assertiva da composição a que o acervo inconsciente de tanto folhear de livros ou páginas eletrónicas, de visitas a museus a exposições nos impele, nos mostra o caminho, sem que tenhamos necessidade de nos questionar, ampliado, formatado, educado que está o nosso olhar.

Para isto:


ou isto:


No espaço de hora e meia percorro praticamente todo a Itchan Kala (que é relativamente contida, um retângulo de setecentos por quatrocentos metros), com a oportunidade de olhar com olhos de ver, transportando em mim a felicidade da despreocupação e do puro prazer, que tento cristalizar com disparos do obturador.

Um casal vem a entrar por uma das portas da muralha e olha-me com curiosidade, retribuo o olhar e aceno-lhes com a mão, retribuem-me o aceno e dirigem-se para mim, tentamos conversa... percebo que me perguntam de onde sou; respondo; retribuem com o inevitável "Ronaldo". Tinha vontade de lhes responder, "Não, Pedro.", mas não iriam perceber a piada....

Poso para uma selfie com os dois; fotografo-os também. Mais tarde, iria encontrá-los de novo na rua e com eles trocar os sorrisos que fazem de nós pessoas e não meros animais.

Retorno ao hotel, para o pequeno-almoço e o início oficial do dia.

De novo na rua fico com a impressão que algures na procissão das horas terá tocado uma campainha e que todos os visitantes que se acoitavam nos vários alojamentos que existem dentro das muralhas teriam saído para a rua ao mesmo tempo....

"Ainda agora aqui não havia ninguém...", digo para com os meus botões, enquanto seguro na máquina fotográfica que levo pendurada no ombro, sem sequer pensar em a levantar à altura dos olhos....


Entrada da Kunya Ark, a velha fortaleza

Madraça de Maomé Raxim

 
Madraça Maomé Amim Cã 

O belo e inacabado Miarete Kalta Minor

Percebe-se que a rota da seda é parte da herança cultural que aqui se promove como chamamento turístico, tantas são as estátuas com este tema que encontrámos na viagem

Os altivos minaretes de Khiva:  mesquita de Juma e madraça de Islam Khodja



Mausoléu de Paclavã Mamude




 Madraça de Alaculi Cã


Madraça de Kutlug Murad Inak 

Madraças de Arab Muhammad Khan e de Maomé Raxim



 o casal que encontrei no fim do meu passeio.