terça-feira, 28 de janeiro de 2025

GR11-E9 (Parte 9) - Porto - Espinho - Ovar

Etapa 1 - Porto -  Espinho

24 de Janeiro de 2015


Não podia ser de outra forma: dali tinha partido para norte, olhos postos nas estrelas que, dizem, nos mostram o caminho; dali partiria para sul, olhos postos de novo no céu, mas desta vez mais preocupado com a eventualidade de dele cair uma daquelas enxurradas que tornam o caminho em tudo menos naquilo que nele busco e que se pode precipitar no simples vocábulo "prazer".

A Sé do Porto.  Quase deserto o terreiro que a sobremonta à cidade e que, em dias soalheiros, está apinhado de turistas. Mau dia para o saxofonista que ainda assim insiste em soprar mais um clássico para o vento que também por ali vai passando, em tempo de invernal matinada. 

Subo as escadas e vou à bilheteira onde, atrás do balcão, há mais gente que na sua frente, coisa por certo inabitual. Peço para colocarem um carimbo no meu caderno de viagem. Agora sim, estou pronto para começar a tirada.

São quase dez horas da manhã, quatro a mais sobre a hora a que apanhei o autocarro na Estação do Oriente, em Lisboa, depois de uma curta viagem no primeiro 728 do dia, que me trouxe da Portela, onde pernoitei.

Tenho uma vontade  enorme de começar, só comparável à vontade igualmente desmesurada de apanhar um café pelo caminho, para tomar uma outra bica que reavive o sabor já há muito perdido da outra que tomei na autoestrada, durante a habitual paragem do autocarro na área de serviço de Leiria.

Ligo o gravador do Wikilok, atiro uma última olhada e um rápido clique de máquina à sempre bonita vista que dali nos recomenda uma visita à cidade, com os aprumados Clérigos como um convidativo dedo a chamar-nos para tal devaneio. Certo que não me tomarão por grosseiro, viro-lhes, no entanto, as costas e estugo o paço em direção à belíssima Ponte Luís I, que, desta vez, o caminho fá-lo-ei ao longo do rio, sim, mas do lado de Gaia, até à foz e, depois direito a sul, até chegar a Espinho, local que escolhi para termo da etapa.

Não posso deixar de notar a calma que por ali vai. A última vez que calcorreei estes passeios foi no final de agosto passado e era impossível andar a direito sem me ter de desviar desta ou aquela pessoa. Agora, só o vento me acotovela enquanto  deixo o tabuleiro e viro no jardim do morro para iniciar a descida para o rio, acompanhado durante algum tempo por um pit bull desaçaimado, irresponsavelmente liberto pelo dono ou dona, parte de um pequeno grupo de pessoas que cavaqueiam no topo do morro.

Tenho por estes bichos verdadeiro temor, mas mais temor tenho pelo donos que assim os largam... temor de que nunca cheguem a perceber o quão idiotas são...

Escadas, travessas e vielas e eis-me ao lado do rio, que quase não vejo, tantos os longos barcos de cruzeiro fluvial que por ali estão amarrados, à espera de mais uma leva de turistas que queiram subir o Douro.... um dia, subo-o também, mas primeiro quero experimentar fazê-lo de comboio... mas quero tantas outras coisas e sítios....

Ah! Um café sem ar de armadilha turisteira, finalmente. "Bom dia" e uns justos 80 cêntimos depois, sigo de novo caminho, agora já reconfortado pela doçura acre do viciante soluto. A Foz vai-me parecendo cada vez mais próxima. Já perto dos pilares da ponte da Arrábida, retiro da mochila uma sandes e um iogurte, que sentia alguma fome, tão cedo tinha quebrado o jejum da noite.

Debaixo do gracioso arco de betão, riscado por Edgar Cardoso com um ar decididamente moderno, algumas canas de pesca erguidas ao céu lançavam por certo preces para que algum peixe que por ali passasse se deixasse cair na tentação de uma apetitosa minhoca. 

"Bom dia. Um pregado?"

"Não. É uma solha."

"E bem boa. Belo almoço...", retorqui em resposta ao sorriso orgulhoso do velho pescador com que cruzei estas breves palavras enquanto olhava para o peixe que jazia já inerte dentro do balde transparente, cheio de água. 

Mais à frente, o observatório de aves da Reserva Natural do Estuário do Douro anuncia o fim do rio, apenas separado do mar pela língua de areia que dá forma à Praia do Cabedelo do Douro.

Sobre ela, vários blocos de granito, rompem, inusitados, da areia.. são as Pedras do Maroiço, parte de um afloramento granítico que dali se estende para sul....a história deles, recolhi-a aqui, porque isto de andar com os olhos bem abertos tem recompensas várias, não sendo a menor o poder juntar ao prazer da passada, a vantagem da descoberta.

Hoje, tudo é mais simples ainda, tamanha a quantidade de recursos que podemos consultar, sem que tenhamos sequer de nos deslocar a uma biblioteca. Tudo no conforto de uma qualquer secretária e de um monitor ligado a um computador, como este onde consigo agora perceber que a velha construção, grafitada sem qualquer jeito, que tomei por um ex-restaurante, no início da marginal que segue para sul a partir deste ponto é, na verdade um antigo posto da Guarda Fiscal que aqui existiu, erguido no final da primeira metade do sec XX e hoje classificado como imóvel de interesse municipal... (aliás, vê-se bem o interesse que gera, pelo estado em que se encontra...).

Na prática, uma longa reta, aguarda-me agora daqui até ao final do dia, em Espinho. E praticamente toda ela calcorreada nos bem mantidos passadiços que a Câmara Municipal instalou aqui na frente de mar. De facto, à medida a que avanço, não posso deixar de reparar no ótimo estado de conservação dos passadiços, com óbvios sinais de manutenção e substituição de elementos deteriorados. Reparo também num pequeno placard com que me cruzei, já não sei em que parte do percurso, que convida os utilizadores a reportarem à Câmara quaisquer danos no passadiço que eventualmente detetem, com vista à sua reparação. Mentalmente comparo-os com a infraestrutura POLIS que em tempos deu um ar de graça à Caparica e que agora lhe dá novamente o ar decrépito e decadente que lhe parece herança genética.... basta olhar para as traseira do edifício da Polícia Marítima, ou para os enferrujados apoios de praia, para perceber do que escrevo....

Valadares. Um longo e interessante edifício, com ar de hospital, mas que se nota ter sido recuperado sobre uma estrutura original, surpreende-me pela dimensão.

Mais uma  vez recorro às fontes que se despegam das teclas em clarões no monitor do computador em que escrevo: 

O Sanatório Marítimo do Norte foi erguido em 1917, pelo médico e benemérito Joaquim Ferreira Alves.

Tinha por fim último possibilitar, pelos benefícios da talassoterapia e da helioterapia, o combate à pecha que, na altura e por durante largos anos ainda, assolava, e assolaria até à descoberta da estreptomicina (nome que eu nunca esquecerei, por várias vezes ter acompanhado o meu pai, em recuperação da tuberculose, quando ia levar uma injeção da dita) uma enorme percentagem da população, vítima do bacilo identificado em 1882 pelo médico patologista Roberto Koch. 

Não posso deixar de me lembrar que, infelizmente, hoje, tantos anos passados, esta verdadeira praga vai fazendo um retorno,  com formas ainda mais complexas por mais resistentes, fruto em grande medida da estupidez do nosso apetite pela automedicação e pelo ainda muito divulgada ideia de que os antibióticos curam tudo o que é infeção...

Mas este sanatório, que hoje, após recuperação, integra o Centro de Reabilitação Física do Norte, tem ainda outra característica curiosa: foi desenhado pelo mesmo arquiteto que concebeu, em conjunto com o seu irmão, escultor, o monumento aos Heróis da Guerra Peninsular, ou seja, o monumento lisboeta da rotunda de Entre-Campos. Francisco (o arquitecto) e José (o escultor) de Oliveira Ferreira, foram, pois, os responsáveis por esta monumental peça da estatuária urbana da nossa capital.

Valadares vai já para trás e diviso a aproximar-se no horizonte uma outra construção curiosa: a capela do Senhor da Pedra, erguida num rochedo na praia do mesmo nome, em Miramar, ainda Concelho de Vila Nova de Gaia.

De curiosa planta hexagonal, foi erigida no rochedo que lhe serve de fundação em 1763 e acredita-se que, no local, existissem anteriores tradições de culto, traçáveis até à antiguidade pré-Cristã.

Estando fechada não a pude desta vez visitar, algo que já fiz há vários anos.  A maré em ascensão banhava já os rochedos que a sustentam e não pude deixar de pensar que a subida das águas poderá um dia chegar-lhe ao nível da entrada....

Retomado o interminável passadiço, acabei por parar de novo, um pouco mais à frente, num dos compridos bancos que, a espaços,  possibilitam ao caminhante uns minutos de confortável descanso,  para retemperar as forças com um iogurte e mais uma sandes que tinha preparado na véspera. 

Comer, quando se caminha, tem, para além do natural efeito de recarga energética, a vantagem de eliminar algum do peso que se transporta às costas e, se bem que a mochila, desta vez, não fosse muito carregada, o somatório do consumo de água ao longo do trajeto e de dois iogurtes e duas sandes em outras tantas paragens mais longas, facilmente se traduziu em um quilo e pouco a menos a arrastar no costado (claro que Lavoisier tinha razão e o que saiu das costas ia agora na barriga, mas aí a gente não dá por ela com tanta facilidade.... )

O dia continuava a ameaçar, mas a chuva não caía. Aguda. O aquário da estação litoral... ainda estive tentado a visitar o aquário, mas não queria abusar da sorte, que o céu estava mais escuro, a temperatura tinha baixado e a humidade sentia-se no ar.  Segui em frente,  mas tive de parar um pouco porque uma topada valente numa tábua do passadiço um pouco sobrelevada (uma das únicas que encontrei desalinhada e tinha logo de lhe acertar....) deixou-me a coxear durante alguns minutos, com o pé entorpecido pela dor que me causou.

Recuperado, segui em frente com os olhos já postos na linha do horizonte urbano da cidade de espinho, onde cheguei pouco depois, no termo também do passadiço que me trouxera desde a foz do Douro.

Sentia-me bem, mas cansado, porque a noite anterior tinha sido de pouco sono e a brincar, a brincar, tinha já calcorreado mais de vinte quilómetros, muitos deles de frente para um vento que para além de constante soprava por vezes forte.

Ansiando por uma banho e algum repouso, dirigi-me de pronto para o alojamento que reservara para a noite. 

Telefonei para o número, para levantar a chave, mas quem me atendeu pareceu espantado com o contacto:

"Tem a certeza que tem reserva para hoje?"
"Ora essa, como não? Claro. Tenho aqui no Telemóvel".
"Mas olhe que eu não tenho nada"
"Como assim... deixe ver.. cá está dia 24.... de março!!!!!!" 

Eu e a minha eterna incapacidade de gerir datas... desta vez tinha reservado para 2 meses depois, nada diferente de me apresentar à porta do teatro no dia anterior à récita para a qual tinha bilhete, ou no dia a seguir, ou de faltar ao espetáculo por o julgar a ocorrer só uma semana depois. ou outra reserva trocada no tempo num hotel no Porto... os exemplos são vários e habituais...

Por sorte, havia ainda um quarto disponível e apesar da troca pude ficar  no sítio que pensava ter reservado....

Ele há coisas que não mudam, pensei.... 

Lá fora, o dia caminhava a paços largos para o fim, e o sol que quase nunca vira, por causa das nuvens baixava também, no prenúncio da noite que, dali a umas duas horas, cairia

Ele há coisas que não mudam, pensei...





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Sempre que aqui venho, tiro a mesma fotografia... não resisto.

Lá em baixo, a estrada esperava por mim

o V da InVicta (ou será da InBicta? 😉)

Outra imagem a que eu não resisto e já fotografei diversas vezes

A frota dos rabelos... Quantos mais seriam no princípio do século passado?

Tanta cadeira vazia...vê-se mesmo que não é verão...

Os telhados das adegas e armazéns de Gaia

A caminhada é também uma oportunidade de descoberta de cantos e recantos
 que sempre lá estiveram sem que nós por eles déssemos  

Provavelmente o barco estaria com comichão, porque não o vejo a ser todo esfregado de popa à proa.... 😀

Os barcos modernaços que fazem a subida do Douro...

... contrastam com os que já a fizeram em tempos idos

ou são reconvertidos / construídos para passeios turísticos

Ponte Luis I

O velho e o novo

Algures em Gaia...

... alguém tem uma  bonita Bedford...


... comentam os corvos marinhos, enquanto procuram algum calor de um sol que teima em se não mostrar.

Há alturas em que mesmo os maiores amores se põem de cabeça para o ar...

A foz do Douro

O observatório de aves na Reserva Natural do Estuário do Douro

Pedras do Maroiço



Praia do cabedelo do Douro

Antigo Posto da Guarda Fiscal 




Um inesperado bando de rolas-do-mar passeava no relvado

Edifício do antigo Sanatório Marítimo do Norte 



Senhor da Pedra

Passadiços repostos, a comprovar a excelente manutenção a que são sujeitos.

Casas de gentes do mar, na Aguda ...

... os seus barcos...

...e as suas histórias, nem sempre felizes.




Farolim da Praia da Aguda

Espinho, lá ao fundo, no limite do concelho de Vila Nova de Gaia.

Fim da Linha, para o dia














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