GR11-E9 (Parte 15) - Volta à Lagoa de Óbidos
23 de Abril de 2026
Acordei com os pés doridos e as pernas presas. Em particular a perna esquerda, que sentia pouco flexível na ligação entre o gémeo e o calcanhar.... o esforço no tendão não estava a passar ao lado...
Os primeiros passos pareciam quase tirados de um velho filme do Charlot.... pequenos... corpo e perna direitos.. sem dobrar os calcanhares... iria ser assim durante algum tempo até aquecer e ganhar alguma flexibilidade.
Vinguei-me no pequeno-almoço, que terminei com um saboroso pastel de nata, porque sabia que o açúcar iria dar jeito, para os mais de vinte quilómetros que tinha pela frente, na circum-navegação da Lagoa de Óbidos.
Saí para o caminho por volta das 8 da manhã, o que, apesar de não ser propriamente cedo, representava um ganho de mais de duas horas e meia em relação ao início do dia anterior.
Gosto de começar a andar logo pelo início do dia, podendo beneficiar da sempre agradável visão da bola amarela a levantar-se sobre o horizonte. Hoje, no entanto, ela já estava no céu quando dei o primeiro passo em direção à pista que contorna o lado norte da Lagoa.
Durante os primeiros quilómetros, a pista acompanha literalmente o contorno do plano de água e, pelo caminho, cruzei-me com madrugadores praticantes de corrida ou de passeio dos respetivos animais de estimação. Uma característica unia-os a todos eles: nenhum era português. O litoral Oeste está efetivamente povoado por uma multidão de imigrantes europeus que, finda a vida ativa, por ali encontraram um pouso para, em paz e segurança, gozarem a terceira parte do trânsito pelo existência.
Com as pernas já quentes, a progressão era fácil, porque o caminho era todo a direito e, pouco tempo depois, chegava à Freguesia de Nadadouro, que se faz anunciar na estrada com um bonito e comprido mural que não resisti a fotografar.
Mais à frente um cais palafítico , de construção recente e industrial, (provavelmente substituindo outro, artesanal, que por ali terá existido) surge na margem da lagoa, embora nenhum barco por ali se encontre atracado.
A estrada inflete para norte para acompanhar o braço da lagoa que para aquele ponto cardeal se alarga, e eu sigo-a, até deixar o asfalto voltar a entrar numa zona florestal, onde a lama, a espaços, se me atravessa no caminho. Com cuidado consigo sempre contornar as zonas mais escorregadias até que, num cruzamento de tilha tomo uma opção errada, que me obriga a uma subida de umas centenas de metros apenas para depois notar que a terei de transformar em descida, porque o caminho não era por ali.
Retomada a pista correcta vou seguindo as indicações de percurso, que continuam a aparecer, referentes ao Caminho do Atlântico - Troço das Caldas da Rainha. o que me leva durante algum tempo por estrada asfaltada, até infletir de novo para uma área de pinhal, passando mais tarde por uma ETAR e seguindo ao longo de um estradão, que me há de conduzir ao termo desta pista marcada.
Um banco de betão aqui instalado, propõe uns minutos de descanso e contemplação, mas para mim a surpresa é outra: há aqui uma escada que leva lá abaixo ao canal que desagua na lagoa.
Este canal tem aqui cerca de 7 metros de largo e as imagens do Google Earth confirmam a existência de uma ponte sobre ele, identificada como ponte pedonal do Arelho.
Ora a ponte não está mais lá. Provavelmente terá sido vítima das intempéries do início do ano, concluo.
Não me resta alternativa para seguir em frente. Vou ter de contornar esta parte da lagoa, o que me obriga a mais um desvio de cerca de 4 quilómetros, o que, considerando o desconforto que começo a sentir nos pés, não me agrada nada. Mas contra factos, não há argumentos e, por isso, lá me ponho de novo a caminho, remoendo a contrariedade....
De novo na estrada, passo por um parque de merendas com mesas e sombra. Decido parar aqui para comer uma sandes e tirar as botas para refrescar os pés. Levo já quase 15 quilómetros de passeio e estou a começar a sentir abrasão da pele na almofada do pé direito, algo que nunca me acontecera e que eu creio se prende com o facto das botas me estarem agora apertadas, com a alteração da morfologia do pé, na sequência da operação e da tendência deste para inchar com mais facilidade...
Retemperado e descansado, retomo o caminho, que depois inflete para uma estrada de terra batida que passa ao lado do aeródromo de Óbidos.
Seguindo em frente vou por fim econtrar de novo a pista que pretendia seguir antes do desvio que fui forçado a fazer.
Daqui para a frente não há mais que enganar: é só seguir o caminho que, deviamente marcado como percurso de pequena rota local, vai bordejando a margem da lagoa, contornando um seu braço que inflete para nascente, para logo retomar já a margem sul, com uma pequena paragem para me dessedentar no "Covão dos Musaranhos", onde existem instalações sanitárias e apoio de bar.
Mais à frente, um pequeno braço da lagoa não tem, felizmente, que ser contornado, porque uns 40 metros de ponte de madeira permitem o seu atravessamento fácil e rápido.
Na lagoa, aqui e ali, garças aguardam imóveis que algum peixe se ponha a jeito.... de quando em vez, uma desfere uma certeira bicada e puxa para terra um peixe que com artes de malabarismo engole depois.
Cruzo-me ainda com um ou outro praticante de windsurf e com outro caminhante que, mais fresco que eu, me ultrapassa a bom ritmo.
A estrada seguirá até à praia do Bom-Sucesso, no fundo da Lagoa, mas eu não vou chegar lá agora (irei à vila depois, para jantar) porque o local onde pernoitarei fica a pouco mais de um 1 quilómetro dela. Para ele me dirijo, ansioso por me descalçar e pelo conforto do descanso que me aguardará e resguardará até à hora do jantar.
Por hoje chega. Amanhã seguirei até ao Cabo Carvoeiro, se os pés, cada vez mais queixosos, me lo permitirem.
Não terei desta etapa qualquer carimbo ou postal, porque o primeiro não consegui obter em local algum e o segundo porque pensava que não iria encontrar marco do correio aqui nesta pequena vila. Afinal havia um no local onde jantei, mas não tinha os postais nem os selos comigo....
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O bonito escudo da Vila da Foz do Arelho, que adorna a entrada para a Junta de Freguesia, de cujas funcionárias guardo amistosa recordação.
Tal como eu, outros se atiravam ao caminho com os pertences sobre o dorso....; tal como este companheiro, também eu, mais à frente, escolheria a curva, como trajeto mais curto entre dois pontos, contrariando o que sempre nos ensinaram....
A Lagoa de Óbidos, na calma de uma manhã fresca, sem vento... e sem pessoas.
Muda-se de Freguesia, mas não fora a tabuleta e ninguém o diria, olhando o calmo e continuo plano de água da lagoa.
Detalhes do interessante mural que nos acolhe no Nadadouro
O cais palafítico da Barrosa, inaugurado em Outubro de 2023
Parecia Trevo vermelho (trifolium encarnatum), mas as folhas não condizem.... A verdade é que enchiam um pequeno talude de côr..
Lírios dos pântanos (Iris pseudacorus)
Dedaleira (Digitalis purpurea) a crescer no tronco em decomposição.
O pântano no braço norte da lagoa
Iria jurar que um duende me observava, escondido entre o matagal...
Indicações de percurso, entre as quais a do GR11 E), Caminho do Atlântico, que eu seguia.
Uma bela casa ..
... merece uma bela vista.
Um cidadão ativo e dois mais recatados...
É variada a fauna avícola da lagoa, e, pelo caminho, passei por vários bem localizados e confortáveis observatórios.
A cor, que não se espera, quando se não espera... não pude deixar para trás este bonito rosa numa folha de eucalipto, sem lhe trazer a alma para casa.
A vista a partir do alto onde se encontra instalada a ETAR da Charneca.
O banco no miradouro onde pude constatar que teria de fazer um bom desvio para reganhar o caminho...

Restava-me disfrutar da vista, para pelo menos minorar o descontentamento...
As instalações do Aero clube de Óbidos. com um ar um pouco de "época baixa"...
Deste lado da lagoa pude atravessar o canal do rio Arnoia por uma ponte ponte. Antes de lá chegar temi que também esta já não existisse, o que seria uma tragédia para os meus pés, mas felizmente assim não foi
No centro da fotografia vê-se claramente o local onde iniciei o desvio, ao pé do que parece ser uma vinha.
o conforto da cor por várias vezes serviu para amenizar o desconforto que já sentia, em particular no pé direito,
Ao fundo, do outro lado da água, o Covão dos Musaranhos, onde termina o braço sul da lagoa e se inicia o trajeto reto em direção ao mar
... por vezes na companhia dos Eucaliptos.
A ponte que possibilita não ter de contornar mais um pequeno braço de lagoa.
As pacientes garças, iam calmamente enchendo o estômago com o resultados as suas bicadas certeiras
Uma esperança, pousada sobre um chorão.
As últimas imagens da Lagoa, antes de virar para dentro para a povoação de...
... Casais do Pinhal Velho, onde terminei a etapa e pude por fim dar descanso ao corpo e, em particular aos pés, que acusavam já o esforço.
















































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