quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Amsterdão 21-24 novembro - III

Gosto de museus e de tudo o que servem. Mais que depósito são livro, mais que texto são coisas e, não raro, arte, que só assim podemos ver, que só assim são também nossas. É por isso que são pedra de toque de conhecimento, que fundamentam a perceção que temos do mundo, que sustentam a democracia, a verdadeira, a do acesso livre e público à educação, a que se ampara em saber e não apenas em folhas de balanço e anuários estatísticos.

 Nada mais os povos deixam que cultura. Em pedra, em tinta, em letra,... em eletricidade, hoje.

I like museums and the purpose they serve.  More than depository, they are book, more than text they are things - art, more often than not -  that one can actually see, that as such are also ours. That is why they play cornerstone to wisdom, they support what perception we have of the world, they sustain true democracy, that of  free and public access to education; that which is anchored in knowledge and not in balance sheets and annual statistics reports.

When a civilization disappears it  leaves nothing but culture. Etched in stone, in paint, in characters,… in electricity, nowadays.



É isso que os distingue, é isso que todos têm para oferecer uns aos outros. E os museus servem abnegadamente este propósito. Independentemente de velhas querelas (indiscutivelmente justificadas) que possam pairar sobre a origem e a posse deste ou daquele artefacto, deste ou daquele pedaço de história, a verdade é que os museus, mais que donos, são guardiões de um património que transcende os limites da geografia política, do mapa das nações.

Arquivo de tempo, livro de obra, memória para futuro, de uma espécie que tem de diverso o ser única, e na etimologia da designação a tradução do que tantas vezes a move:…sapiens, sapiens… sapiens…

Foi esta a razão porque fomos à Holanda, foi esta a razão porque fomos a qualquer outro lugar: …sapiens…sapiens…sapiens

Nas salas do Rijksmuseum a luz faz-se nas telas e no brilho dos nossos olhos, a princípio desconcertados pela arrojada mistura de um século que se fez de asas – ou não fosse a engenharia também uma forma de arte – com as galerias pejadas de magníficas telas percorrendo a história da arte ocidental, principalmente no que ela deve aos artistas dos países que se dizem baixos, por falsa modéstia, certamente, porque basta olhar para qualquer uma das telas cuidadosamente expostas para se ser convidado às alturas. 

This is what tells one from another, what they have to offer each other. And museums unselfishly serve this intent. Notwithstanding  old (and undoubtedly justified) disputes that might hover on the origin and possession of this or that artifact , of this or that piece of history, truth is that museums, more than owners, are keepers of a patrimony that transcends the boundaries of political geography, of the map of nations.

Archive of time, log and memory for the future of a species that is diverse for being unique, and that carries in the etymology of its designation the translation of what so many times moves it: sapiens… sapiens….sapiens…

This was why we went to Holland, this was why we went to all those other  places: …sapiens…sapiens…sapiens

The light inside the rooms of the Rijksmuseum is made of the paintings and the glow in our eyes, at first bewildered by the daring matching of a winged century – would not engineering also be a form of art – to galleries filled with magnificent paintings that illustrate all the history of western art, particularly that of the artists from countries said to be low…, a measure of false modesty, though, since it takes only a glimpse at one of the carefully exhibited canvases to be invited to the heights.

Bat Bantam


Rembrandt e Vermeer serão aqui as estrelas da companhia, repartindo o corredor principal do museu, onde, ao fundo, os soldados atentos da magnífica Nachtwacht parecem mirar desconfiados os inquiridores olhares ávidos de visitantes, que os fotografam despudoradamente com os ubíquos telemóveis.

Rembrandt and Vermeer are the stars of the company here, sharing the main nave of the museum where on the end wall the soldiers of the magnificent nachtwacht seem to distrustfully gaze at the inquiring glances of the visitors shamelessly snapshooting them with the ubiquous mobile phone.

Nachtwacht, Rembrandt


Ali ao lado, outro dos filhos insignes da terra que, como tantas vezes acontece com os insignes até que a morte os separe do comum resto, foi nada, van Gogh tem hoje um magnífico museu dedicado à sua ímpar obra.

Moderno, pedagógico, claro na exposição, informativo…sapiens…sapiens….sapiens….


Close by, another of the country’s most notable sons ( who, as so often happens with most notable people, until death do them apart from the common rest, was naught),  Van Gogh,  now has a magnificent museum, totally dedicated to his unique works.

Modern, pedagogic, clear in the explanations, informing… sapiens…sapiens..sapiens…

A paleta de Van Gogh


 Delírio de cor em pinceladas fartas, rudes, rápidas, de absoluto espanto. Bastava uma tela (tantas quantas terá vendido em vida) - “Campo de trigo com corvos” – para sermos todos melhores porque um de nós a pintou. Foram muitas.

Saímos e é já noite. Ao fundo da larga alameda brilham as luzes do Concertgebouw. No reclamo luminoso que encima a portaria a Cecilia Bartoli sorri para mim. Se eu soubesse que ela aqui estava, tinha roubado um malmequer à jarra do Vincent , só para lhe oferecer….


A delirium of colour in generous, harsh, fast, absolutely amazing brush strokes. One single painting (as many as he actually sold in life) – “wheatfield with crows” would have been enough. There were many.

We go out and night is already looming. By the end of the large avenue, the lights of the Concertgebouw shine in the cold evening. In the  luminous electronic billboard over the front door, Cecilia Bartoli smiles at me. Had I known that she was here, I’d have pinched one of Vincent’s sunflowers for her…..









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