terça-feira, 30 de janeiro de 2024

 

Mês a mês, contado à vez


X - Janeiro

 Olho-me triste. Seco e mudo.

Talvez por pecado de voz

ou outro ainda, maior que tudo,

que me condene ao frio algoz

de um  silêncio que me desquieta.


Calado, sou busto em pedestal

ou velho rádio sem sintonia.

Onde o canto? Onde o sal

da terna luz da  harmonia,

que me preenche e me completa?


Quisera-o agora na garganta;

sentir-lhe o frémito que urge em som,

sublimada gota de  vontade tanta

que parece coisa de estranho dom...

Quisera-o agora … mas não adianta.


IX - Dezembro

Uma ténue vírgula de ar

em frase escrita a nevoeiro

guia os olhos de um olhar

que me olha por inteiro,

baixo  a cima, e me pergunta

se o ano fez bem as contas

ou se tanta miséria junta,

tantas mortes tontas,

são obra do acaso.


Eu, que com o mundo me inquieto

e do mal dos homens me interrogo, 

falho de letras no alfabeto

para resposta, que não arrogo, 

cabisbaixo-me impotente,

em respeito envergonhado:

tomara fosses diferente

ano reles e malfadado, 

que de bom só tens ocaso!

VIII- Novembro

Mais vem o vento por estes dias

a siflar forte em desafino,

temperado de sal e maresias,

sem lugar de onde e sem destino.

E rodopia e saracoteia

e sobe a rua, como se gente,

desliza bruto, tudo pateia

ou já mansinho, que nem se sente,

sopra nas folhas, muda-lhes a cor

fá-las voar e já cansadas

tombam ao chão, lágrimas sem dor

que douram tristes as calçadas.

E rodopia e saracoteia

e sobe ao céu a descansar

e, enquanto sobe, esperneia

de encontro às nuvens sempre a rodar,

toma-as nos braços em despudor

e são um só até cansar,

e elas choram de tanto amor,

esfumam-se em água, já são só ar…

Mais vem o vento por estes dias,

não traz consolo nem mais alento,

só manhãs escuras, húmidas e frias,

qual noite em dia triste e cinzento,

e saracoteia e rodopia

na minha cara, como que a gritar,

que o sopro certo da invernia

também um dia me vai levar!



VII - Outubro

Outonal, a sombra cai.

Fosse folha e não metralha,

fosse lábio e não navalha,

sobre a terra que se esvai

em púrpuro rio e se amortalha 

de virgens vozes, 

                            deus me valha…


esse, que os homens inventaram

para que ele os inventasse...


É de ódio a maresia

que tudo galga e acoberta,

pútrida maré, ferida infecta.

Tudo é escombro, até o dia.

Fértil enchente que deixa e espalha

tão vil essência, 

                             soez, 

                                       canalha!


essa, que esventra corpos como o teu

ou soterra gritos, que jamais saberás gritar. 


Em razão de quê? em nome de quem?

Se ele é um e é de três,

porque não o és também, 

                                                   Jerusalém?


VI - Setembro

Sigo as estrelas e sigo-as só,

no firme lamento de um firmamento

em breu solvido,

que mete dó,

por minha escolha, e meu intento.

Queixa não tenho.

Só a vontade,

tecida a passos, de abrir caminho.

Não tarda é dia e a claridade

far-me-á em sombra: 

não mais sozinho.

Pouco procuro: apenas ser

de tudo um pouco. 

Parco pedir,

Mas inda assim, tamanho querer…

Será possível? Vou conseguir?

Sigo as estrelas, a sua estrada,

como antes outros e outros depois,

serei só pó, ténue pegada,

desvanecida por mil sóis

e pelo vento, no seu passar.

Mas restará de mim a prova,

como me atrevo a reclamar, 

que era falsa a ilustre trova

do nobre vate, que eu declino,

correndo o risco de o enfadar:

Caminante, sí! Hay buen camino!

Só tens é que o procurar…


V - Agosto


A gosto, escrevo-te quente,

que o dia arde e eu também, 

em mês de pasmo e mês de gente,

cadente de estrelas num vaivém,

ferida de céu, incandescente.


Fora só isto e bastaria

mas anda estranho o firmamento,

tanto que me perguntaria

de quem o poder ou o talento

que urde tamanha magia.


É que há no mês estranha teia,

sem par nas folhas do anuário…

Só sei que alguém teve a ideia

de baralhar o calendário

e pôr em dobro a lua-cheia.


IV - Julho


Que bem que vão todos na areia:

o menino, corpinho ao léu;

o papá põe óculos, para a apneia;

a mamã a corar tudo o que é seu;

o lulu a esgravatar a maré cheia;

a menina a ver se há namorado;

a ti-tia a chamar pela filha:

"Não vás para aí; está agitado.

Anda comigo à conquilha".

O velho verga-se à geleira,

que o dia está longe do fim,

enquanto atira à praia inteira:

"Olhá bolinha de Berlim!"

O instagram quase que explode

com tanta foto de beldade

"É só mais uma, antes qu'engorde",

que consciência não é vaidade...

 

Passeiam lentos de mão dada,

quais Dom Quixote e Dulcineia,

enchem a tarde ensolarada,

que bem que vão todos na areia...


III - Junho


Dia a dia, alastra o  dia...

Faltam-me as estrelas, será?

Tamanha monocromia

de céu azul ao deus dará

nada acrescenta, só me cansa.

 

Mas tão só o tanto cresce,

logo o dia se amingua,

pois tudo aquilo que sobe, desce

e atrás do sol vem sempre a lua,

sei-o seguro, desde criança!


II - Maio

 

O Bom Pintor tudo pintou

de verdes tantos e tantas cores.

... e ao sétimo dia,  descansou,

p'ra contemplar os seus labores.


Mas tudo isto numa só semana?

Como quer ele que se acredite?

São 31 dias, já  não me engana,

por mais que alguém o diga e cite.


P’ra que se saiba, aqui declaro

que em tal patranha eu só não caio,

como até acho que é descaro:

Se tudo é verde, é porque é Maio!

I - Abril


Descansa agora bom abril, 

bem o mereces, por inteiro,

sussurra um céu azul anil,

que faz do dia travesseiro


Lençol de trigo eivado a flores,

tela de artista, aguarela

de todas e mais outras  cores,

qual delas a mais pura e bela...


Descansa pois meu bom abril,

descansa que eu daqui não saio;

só não trouxeste as águas mil...

será que as deixaste p'ra maio? 

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