segunda-feira, 22 de abril de 2013


Alcochete

Não passa mais ninguém.  Só o tempo e os pombos. Daquela varanda, de onde já viu passar o mundo (aquele que acaba alí ao cimo da rua) pergunta-se se valerá a pena continuar, agora que o sol enche as ruas estreitas e brancas e que a luz se sente quente na pele.

Não está só: ali perto, as irmãs sofrem o desconforto da mesma dúvida. Com a vaidade da pedra,  mantêm-se vigilantes, embora no fundo acreditem que é pura perda de tempo. Não o querem admitir, no entanto, por isso olham em frente. Talvez o dia desista primeiro....


Ele, porque igualmente imóvel, sabe o que elas pensam. Ainda assim, não é coisa que o apoquente e pouco se lhe dá que que se interroguem ou finjam não querer saber: nos pés descalços traz a agrura do sal e, com ela, toda a certeza da terra.



No one passes by anymore, except time and the pigeons. From that balcony, wherefrom  she has seen all the world pass by (the one world that ends over there, by the end of the street) she questions herself if it is worth continuing, now that the sun fills the white narrow streets and that light can be felt warm on the skin.

She is not alone: nearby her sisters endure the uneasiness of the same doubt. With a vanity of stone they keep alert although knowing it all is but a waste of time. They do not want to admit it, though, so they look ahead. Maybe the day will give in first...

Equally motionless, he knows what the others think. Nothing that would bother him, though, and he really doesn't care if they question themselves or pretend not to know: on his bare feet he carries the harshness of the salt and with it, all the certainty of the earth.




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