quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

 



Vem lá ao fundo, a chuva. Pode-se vê-la avançar, a coberto do enorme cinzento que, lenta mas percetivelmente, vai cobrindo o horizonte e tornando-o cada vez mais curto. Sente-se também no ar: o vento que se intensifica, o frio que se torna mais nítido e que morde as orelhas por baixo do gorro… não há escape aqui, à beira de água, em Alcochete. Até onde a vista alcança, um magro e fustigado pinheiro é a única árvore que se avista, mas nem vale a pena procurar a proteção da sua copa, tão descomposta e rala se afirma, para além de estar relativamente longe de onde nos encontramos.


Um primeiro pingo, frio, denso, logo seguido de um segundo e de tantos, tantos outros que mais parece que, de repente, nos cruzámos com alguém que, inadvertidamente, nos atirou um balde de água para cima. Chuva densa, oblíqua, como a sentia o Pessoa em pessoa.

Resignados, seguimos pelo areal com as roupas saturadas de cor, e o corpo saturado de água, no lado oferecido ao vento.


Arenaria interpres - Rola-do-mar

Sinto-me garoto, de novo. Rompendo determinado pela chuva adentro, sou um novo capitão Scott, na conquista do pólo. Nada me pode parar e cada grosso pingo que me cai na cara é como uma condecoração para a minha superior valentia.  Avanço na certeza de que irei conseguir; o destino está perto, muito embora a espessa cortina de chuva me lo esconda da vista. Sigo em frente com a cabeça dobrada para a frente, para me proteger. A areia que se prende aos sapatos pesa nos pés e na passada. Deve ser assim com a neve. O vento amaina, a chuva também, o horizonte clareia.

Sou já eu, outra vez.

Protegido por roupa grossa, consegui safar-me relativamente incólume da chuvada. O impermeável, esse utilizei-o para embrulhar a máquina fotográfica e a longa objetiva que lhe tinha montado, na esperança de me cruzar com algumas aves, no passeio. À falta delas, fotografo a ponte que me lembra um longo esqueleto de algum animal primevo, quiçá afetado por nefanda escoliose.


Espero pela minha companhia que, estoicamente, aguentou com brio a chuvada (embora não creia que aquela história do capitão Scott lhe tenha passado pela cabeça…)

O sol e o vento acompanham-nos no final da caminhada e, aos poucos, vão-nos secando a roupa no corpo.

Indiferentes às flutuações atmosféricas, as rolas-do-mar e os pilritos continuam o seu alegre mariscar na linha de água.


Olho para o outro lado do rio, para Lisboa. Um espesso manto cinzento tapa outra vez os contornos da cidade. Sei que vem na nossa direção. Agora já não importa. Resguardados, na vila, procuramos, em fim de manhã, o conforto de uma chávena de café.

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