Notas de viagem roubadas a um diário que não escrevi,
em partes, tantas quantas me promete a memória...
10 de Abril - Espanha - Galiza
A Coruña
Das Artes...
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| El boyero castellano, Joaquim Sorolla, 1913 |
Museu de Belas Artes... Como se pudessem existir arte que não o fossem, Feias Artes, portanto...
A designação sempre me causou estranheza. Na verdade, Arte é um nome que me parece encapsular o sema da beleza, mesmo quando se procura chocar, transgredir, iludir... "afeiar".
Nos locais que visito, procuro sempre estes emocionantes depósitos de belo, em particular as coleções de pintura e desenho, formas que são para mim incessantes motivos de descoberta e prazer. Não podia deixar de ser assim na Corunha.
Lá dentro, 3 pisos em duas alas, com paredes recheadas com obras dos séculos XVI ao XX e várias turmas de imensamente barulhentos alunos de colégios que descobriam, acompanhados pelos tão insistentes quanto infrutíferos apelos ao silêncio dos professores que os acompanhavam, a infinita magia traçada em tela por um dos muitos pintores maioritariamente galegos, representados na coleção.
Passei com agrado pelos pisos inferiores subindo depois àquilo que mais me interessava: o Séc XX, a modernidade...
e uma vez mais pude confirmar que só tenho razões para gostar tanto da pintura que se fez e faz desde o final do sec. XIX: as cores, os temas, as formas, a continua transgressão criativa que se revela em constantes universos que tantas vezes se completam e outras tantas se excluem uns aos outros, uma imensa vertigem sim... as artes... As Belas Artes!
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Jaime Morera y Galicia (1854-1927) Mariña |
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Retrato de Doña Herminia Rodríguez-Borrell Feijóo Elena Olmos Mesa (1899-1983) |
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Mujer saliendo del baño Germán Taibo González (1889-1919) |
Francisco Lloréns (1874-1948) Ignacio Zuloaga y Zabaleta (1870-1945)
Xardín do Pazo de Marcial del Adalid Antonia, a galega
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Las Mariscadoras Luís Seoane López (1910-1979) |
Estes apenas alguns exemplos de quadros que me chamaram particular atenção, apesar de muitos outros haver que poderia ter fotografado, como por exemplo o magnífico "
Epílogo" de Vicente Cutanda y Toraya, que só não fotografei porque iria interromper a explicação que um professor sobre ele dava aos seus alunos.
A Corunha sempre foi generosa para comigo. Lembro-me, com particular prazer, numa das minhas visitas à cidade de me ter deparado com uma extraordinária exposição antológica de Ansel Adams que ainda hoje recordo com imenso prazer, não fosse ele um dos fotógrafos que mais aprecio.
Desta vez a sorte cruzou-se novamente no meu caminho com uma não menos deslumbrante exposição da obra de René Lalique, que juntava a muitas peças da coleção Gulbenkian que eu já algumas vezes vira, acervo do próprio museu Lalique e de outras coleções particulares.
Joias, peças decorativas, desenhos, peças funcionais, tudo um encanto, oscilando entre a mais bela arte nova e a não menos deslumbrante arte déco.
Mas como não há duas sem três, nas instalações da Fundación Barrié estava ainda patente uma exposição do acervo próprio daquela instituição de um nome da pintura Galega com que me tinha cruzado apenas (que me lembrasse) há pouco, na visita ao Museu de Belas Artes: Francisco Lloréns, mas que me tinha decididamente chamado a atenção, ao ponto de fotografar um dos seus quadros.
Pelas notas da folha de sala, fiquei a saber que fora discípulo de Joaquim Sorolla, de quem eu tanto gosto
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| Puerto de la Coruña: Muelle de Santa Lucia, 1910 |
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| La del gorro encarnado, 1924 |
Só espero que esta tendência para ser prendando com magníficas exposições de que não estava à espera continue em eventuais novas visitas à generosa cidade.
O périplo artístico do dia completou-se com uma visita à Casa Museu Picasso, que embora não exibindo obras originais do artista, arvora a dignidade de local intimamente frequentado por ele e pela sua família, o que é suficiente para desencadear no visitante a estranha e difícil de explicar sensação a meio caminho entre voyeurismo e falsa intimidade com a ilustre personagem que locais com história semelhantes sempre provocam.
A escadaria da casa é, por si só, digna de um olhar mais detalhado, mas a luz era muito fraca e as fotos não lhe fazem total justiça, pelo tremor que as perturba. Não obstante, não poderia deixar de as fotografar, já que por ali passei, cruzando o mesmo chão que o autor de Les Demoiselles d'Avignon ou de Guernica.
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Desconhecia qualquer interesse de Picasso pela fotografia, para além da sua relação com Dora Maar, mas na casa museu esta interessante máquina lá estava... sem legenda.... seria dele? do pai? |
A curiosa escadaria que dá acesso à casa onde Picasso viveu
com a família, na Corunha, na Rua Payo Gómez, 14.
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