quarta-feira, 15 de abril de 2026

    Notas de viagem roubadas a um diário que não escrevi,

em partes, tantas quantas me promete a memória...

9 de  Abril - Espanha - Galiza

 A Coruña


A primeira coisa que notei foi o desaparecimento dos carros elétricos. Irmãos gémeos dos elétricos de Lisboa (e em muitos casos, os próprios, trabalhando para outro patrão) coloriam de amarelo a linha que corria ao longo do passeio marítimo, com as catenárias suspensas nos belos postes vermelhos que ainda lá estão, agora apenas remetidos ao papel de interessantes candeeiros.

A segunda, decorre da primeira: a última vez que tinha estado na Corunha ainda os elétricos circulavam por ali. Uma rápida consulta à internet informam-me que o serviço foi terminado em 2011, na sequência de um descarrilamento; ora, concluo assim que pelo menos há quinze anos que não enchia o horizonte com a eterna Torre de Hércules, também ela por estes dias fechada a visitas, por obras de manutenção.

O dia estava meio gasto. Grande parte fora passado na estrada que de casa aqui se ultrapassam os seiscentos quilómetros, a que se acrescentava o tempo fruído na visita à exposição da Annie Leibovitz. 

Como habitualmente levava uma lista de lugares para passar. O monte San Pedro era um deles. Nunca lá tinha estado, por isso para ele me dirigi, com a facilidade que agora temos de um caminho apresentado na janela do telemóvel a debitar instruções de "vira para aqui" ou "segue por ali", tão diferente dos tempos em que levava folhas e folhas de instruções de trânsito, recolhidas no Autoroute Express da Microsoft.

Pelo caminho, a primeira paragem: o obelisco do milénio, obra de 2000, concebida por Gerardo Porto. 47 metros de altura de uma estrutura de aço forrada a cristal de rocha, cujos primeiros 13 metros encapsulam cenas da história da corunha, visíveis quando o obelisco está iluminado, o que não era o caso.


Iluminado ou não, a flecha ergue-se para o céu como se fosse resposta aos mais de 50 metros da Torre de Hércules, lá ao longe do outro lado da baía e acrescenta interesse a um passeio já de si  recomendável pelas vistas que dele se disfrutam e pelo ar puro e tisnado a azul que sobe do Cantábrico.

Frio, vento, cinzento o céu. Enfim, como eu gosto, diria mesmo. De que vale por aqui passar nos dias em nada tuge nem muge e o céu em vez de azul tem aquela cor desmaiada dos dias de canícula, que desconcerta, só de para ela olhar?

Deve ser fundo aqui o mar, a julgar pelo escuro que contrasta com a branca espuma que sobra da base das rochas e dos muitos carneiros que saltitam no azul.

Um pouco mais à frente uma curiosa e bem humorada evocação da Galiza: Um enorme polvo, feito banco para a fotografia, mas por si só uma atraente escultura, verdadeira homenagem ao delicioso molusco que  povoa as cozinhas de restaurantes, arraiais e feiras, para acabar cozido, cortado às fatias nos típicos pratos de madeira, regado a azeite e acrescentado de flor de sal e pimentão... quem disse que a delícia tem de ser complicada?


No topo do Monte San Pedro há um mirador, mas há também um bateria de artilharia de costa datada do período entre as duas guerras mundiais. Votadas ao abandono, foram em boa hora reconvertidas em espaço museológico, tendo toda a zona sido também convertida num agradável parque, ao qual se pode ascender diretamente desde o passeio marítimo por um ascensor que, lamentavelmente, se encontra desativado.


Aqui acima chegado, o visitante pode aventurar-se por um curioso labirinto de Metrosideros (deve ser belíssimo, quando em flor), passear pela bateria de costa visitando o centro de interpretação ou apenas deixar tomar-se pelas magníficas vistas que alguém orgulhosamente decidiu reclamar como as melhores do mundo.



Tirando o labirinto, (em que não me atrevi a entrar não fosse o minotauro esperar-me) aproveitei em pleno as duas outras possibilidades, esticando as pernas durante largos minutos pelo aconchegante relvado do morro, passeando entre os enormes canhões a lembrar o épico "os canhões de Navarone". 

  















O sol caminhava rápido para o ocaso e a temperatura baixava com promessa de chuva eminente, era pois hora de procurar o local de pernoita e pensar em jantar. Amanhã voltaríamos à cidade, que, do outro lado da baía, se nos oferecia, aberta, larga, disponível, como que gritando: "Venham, que muito têm ainda para ver".



4 comentários:

  1. Ontem comecei a ler a crónica da tua viagem, e hoje recebi o polvo. Muito obrigada!

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  2. Obrigado eu.
    Fico muito contente por ver um comentário neste blog, já que é coisa que raramente ocorre, e por saber que estás a espreitar a minha visita à Corunha.
    Também fiquei contente por saber que o Polvo chegou ao destino :-)
    Já agora, recebeste o postal do cabo da Roca, que mandei há uns tempos?

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    1. Ooops... peço desculpa por não te ter dito que o "Cabo da Roca" chegou há dez dias!

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  3. Ok. ótimo! não tens que pedir desculpa. Só queria ter a certeza que tinha chegado :-)

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