domingo, 1 de agosto de 2021

 

GR11-E9 (Parte 2) - Praia do Meco - Cabo Espichel

Lógico seria continuar: Fonte da Telha – Praia do Meco, pensei, até porque o caminho a partir das instalações NATO na Fonte da Telha seria sempre a descer até encontrar o areal que contorna  a Lagoa e, depois de passar por esta, haveria sempre a opção de seguir pela borda de água, se a maré estiver vazia, para fugir da areia solta, ou por cima da encosta (embora suspeite que também aqui  a areia não deva estar lá muito compactada).

Mas a lagoa está aberta para o mar. No final de Maio, as retroescavadoras  a mando da Câmara Municipal de Sesimbra abriram o canal de ligação que permite a renovação da água do sistema lagunar, essencial para a estabilidade do ecossistema e a passagem agora implicaria uma banhoca no canal…

Decido, por isso,  esperar pelos efeitos do inverno e fazer este troço para o ano, quando a boca da lagoa estiver de novo fechada pela acumulação da areia empurrada pelo mar e pelo vento.

Mas como portas fechadas abrem janelas, o mesmo olhar sobre o Google Earth que me disse ser impossível  este percurso, pôs-me a pensar que nada impedia que continuasse em frente até à ponta onde a linha de costa inflete para Oriente, na direção de Sesimbra  e onde há milhões de anos, foram outros os caminhantes que deixaram para sempre as pegadas marcadas na rocha. Praia do Meco-Cabo Espichel… estava decidido! Se Maomé não vai à montanha…

 Alguns obstáculos seriam de esperar. Não tanto por dificuldades do caminho, embora também as houvesse, mas mais pela orografia da zona, marcada por várias gargantas de ribeiras que atravessam  a paisagem perpendicularmente à costa e me pareciam poder vir a colocar alguns problemas  no atravessamento, para mais indo eu fazê-lo sem a companhia de alguém  que me pudesse ajudar na procura do melhor caminho.

Consultei o Wikiloc. Várias pessoas já tinha feito este trajeto, pelo que estava provada a sua viabilidade, embora o tempo registado de percurso, muitas vezes superior a 5 horas, numa distância que não excederia os 14 kms, me deixasse um pouco apreensivo sobre o que iria encontrar pela frente.

Estudei e memorizei os acidentes de percurso, marquei a data, tratei das barritas e das sandes e záz…







Meti-me no carro - sim, aquele ali por debaixo de um dos toldos no estacionamento da praia - pouco passava das seis da manhã. A noite fora húmida e o principio da manhã dava-lhe continuidade. na estrada entre a Lagoa de Albufeira e a praia do Meco uma chuva miudinha, assim como se de bafo do nevoeiro se tratasse, colava-se ao vidro, mas, felizmente, ao pé do mar. as nuvens acabavam e a chuva também. 

Estacionei, agarrei na mochila e nos bastões, porque agora seria a subir e lá fui..."Merda! areia solta!" Lá trepei os vinte metros de desnível que me levaram até ao topo da arriba. Percebi logo que a areia solta ia ser minha companheira por uns bons quilómetros nas trilhas que seguiam para sul, as mais largas revolvidas por pneus de quads e 4x4, o que contribui para a falta de compactação do piso.

Os bastões ajudam a manter um bom ritmo ainda assim, embora já sinta o desconforto da areia dentro dos sapatos (que estão ambos um pouco rotos à frente, por onde entra a areia, mas que são os mais confortáveis que tenho e aqueles com que mais gosto de caminhar).  A distância para trás vai aumentando, mas, para a frente ainda não se vê o destino, que a ponta dos lagosteiros o tapa e mesmo que assim não fosse, as nuvens que por lá pairam escondem a linha que separa o céu da terra.



Suo. O dia vai húmido e o sol ainda não aperta, e, depois, esta areia mole não ajuda. O que vale é que a paisagem vale a caminhada,  com o tomilho - que bem que cheira o caminho - e a perpétua das areias, em flor (pena que das armérias já só restem as hastes e a flores secas). Mas o melhor ainda é que as camarinhas são muitas, maduras, e, como choveu, surpreendentemente frescas, quando rebentam na boca com aquela mistura de doce e ácido que não se encontra em outra coisa que não as humildes bagas perladas de que eu tanto gosto.

Ah, o raio da areia... só espero que não seja assim até ao fim. Distraio-me de vez em quando com uma fotografia ou outra, também para parar um pouco e retemperar o folego, que não quero abusar  do esforço.

Andar sozinho tem a desvantagem disso mesmo (um tipo pode sempre ter azar e partir um pé numa escorregadela, ou qualquer outra coisa), mas tem a imensa vantagem de se olhar em torno e se sentir a paisagem de outra forma, mais arguta, mais pessoal, sem distrações causadas pela presença de outros.

O areal, lá em baixo, estende-se convidativo, mas eu quero ir cá por cima, pela arriba, até porque ao pé da arriba a areia da praia ainda deve ser mais solta que a cá de cima...

Uma primeira garganta sai-me ao caminho. não sei como atravessá-la, sigo uma estrada de terra batida que aqui passa e entro para oeste, à procura de um ponto de ponto de passagem...tento várias vezes mas não o encontro. Por fim dou com uma cerca. Devia seguir ladeando-a, pelo que me lembro dos mapas do Google Earth, mas para isso tenho de encontrar caminho que me permita transpor a linha de água.

Um caminho ingreme parece-me viável. Desco e subo pela encosta íngreme de areia solta. Arfo quando chego ao topo. sigo colado à vedação que está cortada, Passo para o outro lado à procura de melhor caminho.


Provavelmente não deveria passar por aqui, para isso existem cercas, mas não tenho qualquer intenção maléfica, apenas quero continuar caminho.

Na Escócia existe o Right to roam, lei que permite que qualquer pessoa passe em qualquer parte, desde que não estrague e em todo o lado devia ser assim.


Enfim de pouco me vale a transgressão: a esforço, porque a densa vegetação por vezes tapa o caminho, se alguma vez o houve, lá consigo dobrar o vértice da cerca, apenas para descobrir que o trilho é perigoso demais para o tentar sozinho. Resta-me voltar para trás, o que faço agora por o caminho que já percorri. Consulto o Wikilok para ver como outros fizeram antes de mim e descubro que  seguiram pela praia, (a mesma que tinha visto há algum tempo atrás)  coisa que me resigno s fazer, consciente de que perdera quase uma hora nesta escusada aventura.

Desço então até ao areal e 300 metros à frente volto a subir pela arriba, na praia naturista do meco, ainda absolutamente deserta àquela hora,  ajudado pelas cordas que alguém, sabiamente, lá instalou. 

Retomo o carreiro que bordeja a cerca do parque de campismo (era dele a cerca, apercebo-me então) e  prossigo a bom ritmo, agora que o chão está bem compactado e firme. no final do carreiro está a porta do parque e a estrada de alcatrão que desce para o estacionamento da praia das bicas.

Paro para manutenção, embora não haja sombra alguma para me proteger do sol que agora começa a aquecer: descalço-me para tirar a areia dos sapatos; bebo um bom gole de água, besunto-me na pele descoberta com uma boa dose de fator 50 e como uma barrita. Faço também uma chamada para casa para dar conta que "so far, so good"


O caminho agora é muito melhor. o chão é duro e a areia bem compactada, sigo a bom passo até encontrar nova garganta e, desta vez, a coisa fia um pouco mais fino, porque se bem que haja passagem, as paredes da garganta são quase a pique. 

Com muito cuidado e com a preciosa ajuda dos bastões (sem eles provavelmente não teria conseguido), lá vou descendo a encosta pelo carreiro até à linha de água, agora seca, que desagua,  na Praia da Pipa.


A subida, do outro lado, se bem que íngreme, é bem mais segura e fácil de suplantar e, a arfar, lá chego de novo ao topo da arriba, onde aproveito para sentir o afago fresco do vento que agora se faz sentir e que felizmente sopra da melhor das direções possíveis, de norte para sul, como se de propósito me quisesse empurrar pelo caminho fora.

O dia está agora claro, límpido, sorvo-o com o vento. Ainda não consigo ver a ponta do Cabo Espichel daqui, mas sei que devo estra mais ou menos a meio da jornada.



De repente, de um ponto mais alto, vislumbro finalmente a silhueta do Santuário, lá ao fundo.


Praia da Foz. Aqui começa o Parque Natural da serra da Arrábida. aproveito para mais uma pequena paragem para descanso e para sacudir o pó, porque na descida, um pé mal colocado na gravilha solta, fez-me perder a compostura e deslizar alguns largos centímetros sobre  os bolsos de trás das calças...


O Santuário do Cabo apercebe-se agora francamente, apesar das nuvens que sobre ele ainda pairam. um pouco mais à frente encontro os primeiros sinais de marcação das pequenas rotas que aqui existem e que eu também já percorri, há uns anos. 

O passeio é agora mais exigente: há subidas, descidas, caminhos estreitos e danificados entre a vegetação. Mais uma vez bendigo os bastões que me ajudam a tudo passar sem outra dificuldade que o arfar dos pulmões e um bater de coração mais acelerado que, com paragens, tento de quando em vez aplacar.



Chego ao miradouro da Pedra da Mua: admiro, como se da primeira vez se tratasse, as pegadas dos dinossauros que por aqui passaram há milhões de anos, com a ajuda de uns pequenos binóculos. Também eu parecerei um dinossauro, a julgar pela cara de uma turista que se surpreende de me ver, quando se julgava só.


Cumprimento-a, como que a provar que um dinossauro também pode ser bem-educado, e percorro os poucos metros que me levam ao miradouro dos Lagosteiros onde quero novamente olhar as lajes com os outros trilhos dos dinossauros.... onde estão os binóculos?

A pequena bolsa que trago à cintura está vazia. volto atrás, percorro o caminho que fiz uma e outra vez e nada, resigno-me, mas ainda assim quero tentar só mais uma vez, e em bora hora o faço, porque lá descubro os binóculos entre as pedras por onde antes tinha passado. 



Estou perto do fim; sigo o estradão que circunda a arriba no acesso à praia dos Lagosteiros. Paro encostado à sombra que me proporciona  a casa da água no fim do aqueduto agora recuperado, já bem próximo do santuário. Como sabe bem o vento na camisa encharcada e como melhor sabem as amoras que por aqui encontro, já maduras e algumas delas bem gordas. 

Dirijo-me à igreja do santuário. Está aberta. Uma senhora à porta avisa-me que não se pode tirar fotografias.

É bonita a igreja, com o teto coberto de uma pintura tromp-l'oeil que a prolonga no sentido do céu que os crentes procuram (eu procuro-o por outras razões, mas não posso deixar de admirar a beleza do exercício artístico).






Vou até ao outro lado, para o pé da ermida da memória... o vento é forte, como sempre, tão forte que me custa a manter a estabilidade de que necessito para fazer uma ou duas fotografias.

Volto para o lado de cá e aproveito a sombra das colunas do santuário para me sentar e comer a sandes que levara, enquanto espero pelo sinal da boleia que me levará até à  praia do Meco, de novo, para recuperar o carro e seguir para casa.

14,82 km, diz o telemóvel, 4h51 minutos de tempo total e 3h25 de tempo ativo, com uma média de andamento 4,3 km/h... nada mau, acho, para um andarilho intermitente, como eu.

está na hora de voltar a casa....e de voltar a olhar o mapa, que este já está!

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terça-feira, 13 de julho de 2021

 GR 11 – E9 – Trafaria - Base Militar NATO Fonte da Telha



O GR11 – E9 é um  trilho de Grande Rota que atravessa a Europa. Os seus dois pontos de origem e destino provam bem pelas diferenças que lhes são aparentes que este é um trilho longo e, seguramente, diverso

São Petersburgo dos Czares e o cabo de S.Vicente  do Infante… 5.000 km de costa atlântica debruçada sobre o Báltico, o Mar do Norte, o Canal da Macha, a Biscaia e, por fim, as arribas da costa ocidental Ibérica, da Finisterra à ponta de Sagres.

Tenho andando bastante a pé, ultimamente, mas ao ritmo que venho cumprindo diariamente levaria alguns 500 dias até descalçar as botas à porta do farol algarvio. Talvez por isso, resignei-me a um trecho bem mais curto, e bem mais consentâneo com a minha experiência de andarilho, o que não me impede de dizer orgulhoso que “já fiz um pedaço do GR11-E9”, quanto mais não seja para me confortar o ego.

Tinha lido que a Câmara Municipal de Almada, seguindo a boa moda que as Camaras parecem estar todas agora a descobrir, de recuperar, definir, remarcar, manter, percursos pedestres, tinha marcado um percurso pedestre entre a Trafaria e as instalações da NATO na Fonte da Telha.

Há uns tempos que o andava para fazer, porque, primeiro, é às portas de casa, segundo, passava por sítios que eu nunca passei, embora more no Concelho há uns bons anos e já o tenha corrido quase todo e, terceiro, tendo 18 km de extensão e uma ou duas subidas mais ingremes pelo meio, daria para me aperceber de como me encontrava fisicamente.

Por isso, numa folga, meti as barritas, a  clássica sandes de ovo e alface e a garrafa de água  na mochila, ataquei bem os sapatos, enfiei o chapéu na cabeça, apesar do dia estar para o encoberto (mas nunca se sabe, não é…) peguei num bastão e meti tudo no banco ao lado do condutor.

Destino: Trafaria.

Àquela hora, apesar de ser segunda-feira, o trânsito não seria problema e estava o relógio do meu fiel Skoda Fabia quase a latejar as seis e meia da manhã, quando passei à porta do centro de saúde onde alguns candidatos à benfazeja vacina se aprestavam já a guardar vez (depois não admira que as filas se adensem ao longo do dia….).  Grande sorte: um sítio para estacionar mesmo ao fim da rua. Um bom presságio para o dia.

Fui até ao largo do cais dos barcos, local onde oficialmente começa o trilho. Não vi o painel de início, talvez  retirado por causa das obras que por ali havia, ou então talvez o painel estivesse localizado no Porto Brandão, local onde o trilho se pode também iniciar, numa variante de percurso.

Ah. É por aqui!

Um poste com a primeira marcação apontava em frente e, em frente, eu segui. O relógio marcava seis e trinta e quatro;  o dia estava fresco; a vontade de andar era grande. Como seria? Difícil? Muita subida? O coração, para mim, que já lhe mexeram, é sempre uma preocupação, não posso abusar, mas sentia-me preparado e, com passada segura e determinada, lá iniciei a caminhada, na contramão das pessoas que se dirigiam à paragem do autocarro para também elas iniciarem o seu dia, seguramente menos prazenteiro que o meu.

Era óbvio que estava a uma cota muito perto da do nível médio do mar, por isso, a partir daqui, e sabendo que o percurso iria passar pelo Convento dos Capuchos, e que não acompanharia a estrada para a Caparica, seria a subir.

Muitas vezes fui à Trafaria de bicicleta. Gostava muito de fazer a descida desde o cruzamento para o Murfacém, com as alegres curvas e contracurvas a embalar o descanso após a ligeira subida que tomava a estrada a partir da  rotunda da Unversidade.

Desta vez o sentido era o contrário, por isso, saquei do bastão e resignei-me. Toque; toque; a ponta de metal a bater no asfalto marcava o ritmo de uma passada que tomava dinâmica de ralentando na justa inversa medida da pendente que esforçada mas resolutamente ia vencendo, parando de quando em vez para uma fotografia de ocasião e também para garantir que o ritmo cardíaco se mantinha num nível aceitável.

Pouco mais de um quilómetro percorrido e o pior parece passado: no cruzamento para a bateria de costa da raposeira, a estrada que lhe dá acesso segue de nível, o que se faz imediatamente sentir nas pernas e na passada.

Passo uma visita mais detalhada à bateria, porque, há pouco tempo, lá estive a fotografar, e sigo a estrada, recuperando o folego e o ritmo de passada.

Entre  Corvina e Raposeira. Não, não falo de peixe acompanhado de espumante, mas sim dos dois sítios que enquadram a estrada militar que me leva à escarpa sobranceira  a S. João da Caparica, um local onde nunca tinha estado.


Atrás de mim, as ruinas do forte de Alpena, parte do complexo da bateria do Regimento de Artilharia de Costa, à frente, um dia ainda novo, mas encoberto, que se anuncia húmido e me convoca um olhar panorâmico desde o dedo espetado no oceano do Cabo Espichel, lá longe, ao fundo, até à serra de Sintra, anunciada a meio caminho pelo ilhote do Bugio. 

Sigo ao longo da escarpa , com cuidado, porque o tombo, a haver, é grande. O caminho inflete de repente para norte, novamente, recusando cruzar o que já foi a vedação (hoje  uma vedação com várias possibilidades de fácil violação) do  aquaparque da Caparica.

Começamos de novo a descer, e percebo que os meus passos me levam em direção ao IC 11, assustando no caminho dois ou três láparos, que correm a esconder-se nas silvas que ladeiam a estrada.



Cruzada a estrada, via passagem aérea, deparo com as primeiras pessoas que encontro, desde que deixei a Trafaria. Esperam o autocarro, parece. Novamente a pendente da estrada se faz sentir nas pernas e no folego. Continuo com calma, preocupado, como sempre, com as rpm do meu motor de combustão interno.  Atravesso aquilo que o Google Earth me diz ser a Quinta da Aldeia e  continuo a subida pela Aldeia dos Capuchos, em direção ao Convento que lhe deu o nome, onde chego após passar uma vereda cuja existência desconhecia de todo.


É a semana do Festival de Música dos Capuchos, e as bancadas ainda lá estão montadas. Gostava de as ter usado, em particular para assistir ao recital do Hopkinson Smith, mas afazeres e compromissos vários impediram-me de o fazer.  A visão das cadeiras vazias tornam mais aguda a mágoa de não ter podido usá-las para fruir a noite embalada nos sons do alaúde do mestre…


Sigo a estrada de novo até virar para a estrada do Robalo (depois da corvina, já não é de estranhar e, na verdade,  la em baixo é terra de pescadores… ainda….). Outro caminho a descobrir…


Caminho entre as vivendas, grandes e recatadas. O ladrar contínuo de cães faz-me saber que estão todas ocupadas, o que aliás se deixa perceber nos jardins bem cuidados e no um ou outro automóvel com que me cruzo. A estrada transforma-se em pista, de repente, bordejada por centenários pinheiros. Estou na mata dos medos, na paisagem protegida da Arriba Fóssil da Costa de Caparica. De alguma forma estou em território meu conhecido, embora nesta zona em particular nunca tenha passado. 


A areia está cada vez mais solta, seguramente efeito das passagens de jipes todo o terreno e motas de motocross. Ainda bem que é a descer, sempre custa menos, mas a areia solta é um piso cansativo e desagradável. Para mais tenho ambos os sapatos ligeiramente rotos, à frente, de lado, o que faz que, com cada passada, alguma areia entre para dentro deles e se vá anichando contra os dedos, o que aumenta imensamente o desconforto, a ponto de ter de parar, de vez em quand,o para uma rápida operação de “vazamento”.

O caminho leva-me arriba abaixo, o que não me agrada de todo, porque sei que terei novamente de ganhar cota,  uma vez cruzada a estrada que segue para a Praia da Mata, por onde tantas vezes passo.

Meu dito, meu feito:  cruzo a estrada e embrenho-me de novo na picada, que segue agora ao longo da Caparica agrícola onde água e fertilizantes dão corpo ao milagre de retirar brócolos, couves e milho do que me parece ser não muito mais do que areia…. Passo por aspersores a funcionar e deixo que o chuveiro me apanhe. Sabe bem, estou já bem suado e o dia húmido, embora com uma temperatura muito agradável, não ajuda a que a camisa seque. 




Como são bonitas as perpétuas-das-areias, agora que estão em flor e mancham de amarelo quente o areal por onde alastram também os malfadados chorões… paro um pouco a fotografá-las.



Sei que estou quase, quase, a cruzar de novo o asfalto, no desvio para a praia do rei, e é na pequena clareira que aí existe, para parqueamento de viaturas de emergência, que me sento num providencial tronco de pinheiro para me dessedentar,  descansar um pouco, vazar uma vez mais os sapatos e trincar uma barrita energética, com dois terços do caminho andado. 

Retomo o caminho: há um desnível de cerca de 20 metros, que se vence com facilidade porque a trilha apenas tem 5 ou 10 metros mais inclinados. Depois,  alcança-se de novo o plateau da mata e será sempre a direito até ao final do trajeto, num caminho que me é totalmente familiar e que já várias vezes percorri, num sentido ou noutro.


Sigo o caminho bem marcado, cruzando a espaços a areia solta dos corta-fogos que conduzem a miradouros sobre as praias. Já estive em todos muitas vezes, e apenas paro no que mais gosto, para a habitual fotografia.


Sinto que vai chover: a brisa está mais fria e a humidade sente-se.

Já não é presságio, é mesmo água que cai do céu, em versão molha-tolos, mas persistente, ao mesmo tempo que chego ao limite exterior norte da bateria de costa da Raposa. Sento-me no portão móvel que barra a estrada alguns metros antes da porta da bateria. Passados os corta-fogo tenho de novo os pés atolados em areia, dentro dos sapatos. Descalço-me de novo para operação de “manutenção”, volto a calçar-me  e retomo a trilha que segue a vedação da bateria. 

O parque de merendas sobranceiro à Fonte da Telha está ocupado pelo apoio logístico de uma equipa de filmagens, embora não veja qualquer tipo de ação por ali. Já só me falta o trecho que vai da Fonte-da-Telha até às instalações da NATO, dois ou três quilómetros, a direito, sem outra dificuldade que a falta de rede telefónica a espaços, por isso telefono para casa, para avisar  o meu apoio logístico, (não sou menos que os outros, não é verdade?) que pode vir andado para me recolher (que voltar para trás a pé, não era opção….)


A chuva parou, de novo. em todo o caminho na mata, ter-me-ei cruzado com 2 pessoas e um cão (à trela de uma delas). Sinto-me imensamente bem,  não demasiado cansado, ainda com reservas para mais uns quantos quilómetros.. se o soubera, teria definido a Lagoa de Albufeira como termo da viagem, já que seria sempre a descer (mas provavelmente com mais areia solta) e não mais do que uma légua...

 

Não importa, o que sei é que estou a chegar. Mais passo, menos passo e ,de repente, vejo à minha esquerda a estrada e ao fundo da mesma o portão da NATO. Olha… cheguei…

Também aqui alguns carros de apoio à produção cinematográfica esperam uma ação que não vejo acontecer em lado algum. Sento-me ao lado do painel do percurso. São 10h50. Confiro o gps do telemóvel  - 18, 52 quilómetros – respeitável distância, rumino orgulhoso. Da mochila, saco a minha magnífica sandes de ovo. Haverá melhor prémio?

segunda-feira, 28 de junho de 2021

Abro a janela, está sol, começou o verão
Será dos tempos? Do hábito de recluso?
é que nada me interessa nesta estação
sem graça e monótona, sem forma de uso…

idiota, pedante, de mim outros dirão
ao saber que proclamo este meu enfado
contrário aos cânones da uniforme multidão
que em imutável alteração de estado

ano após ano se reagrupa e anseia,
qual sincrónica e coletiva alcateia
pela areia dos algarves ou do Iucatão

enquanto eu remoo triste “Ai que me dera
voltar atrás…” pr’a não sair da primavera
de flor subtil, que sei florir no teu botão.

sábado, 5 de junho de 2021

A generosidade é, de entre as qualidades que reservamos para a nossa espécie - já que qualidades e defeitos parecem relevar de um grau de consciência e racionalismo apenas ao alcance de seres com capacidade de elaborar juízos sobre si próprios e os outros - a generosidade, dizia, é uma das qualidades que mais prezo.

Na verdade, e mentiria se dissesse o contrário, enche-me de prazer ser o sujeito da generosidade de outros, da mesma forma que me agrada retribuir tais gestos ou, inopinadamente, tê-los para com outros.

 Vem isto a propósito de muito recentemente, pessoas que me nunca viram, me não conhecem, nada de mim sabem, terem tido para comigo atos generosos de oferta, só porque sabiam que os objetos oferecidos, no caso selos de correio, me agradariam.

Quiçá, se melhor me conhecessem, discordassem das minhas opiniões, me achassem escasso em qualidades, me encontrassem rotundo de defeitos, ou pura e simplesmente - como tantas vezes acontece sem que consigamos explicar -  “não fossem com a minha cara”, ainda assim o fariam.

É isto que me agrada pensar.

Apesar de todas as diferenças, juízos de valor, preconceitos, ideias bem ou mal formadas, pode sempre haver um ponto de contacto, um elo de cadeia, um mínimo denominador comum que nos aproxime e nos acomode enquanto espécie diversa, plural, multitudinária.

Um selo,  o que ele representa - o direito de viagem, uma afirmação de nacionalidade (que não de nacionalismo, hoje tão em voga pelas piores razões) e soberania – e no que ele se centra – um marco cultural, uma efeméride, uma realização científica, o nosso património, natural ou construído, etc., etc. – é talvez um exemplo perfeito disso mesmo.

Em todo o mundo, pessoas como eu, desconhecem outros que com eles partilham um interesse. Fundamental  é que esse interesse seja positivo, construtivo, contribuinte líquido para a concórdia e o entendimento (que não o unanimismo e o chauvinismo), numa palavra, é fundamental que esse interesse se alicerce numa dimensão cultural.

Depois, é não menos fundamental que nos descubramos, uns aos outros e nos deixemos tomar pelo nosso dever de embaixadores culturais, que todos somos, ao pertencermos a uma (ou diversas) unidade(s) cultural(is) que no simples ato de viver nos forjou os gostos, os costumes, as crenças (ou a sua ausência).

Porque se a cultura é base, fulcro e sustentáculo de relacionamentos geradores de entendimento e progresso, o sermos isto ou aquilo; de aqui ou de ali; assim ou assado é, não o esqueçamos, obra do acaso. Não pedimos aos nossos pais para sermos, nem para nascermos, muito menos aqui ou ali.

Não percamos a capacidade de nos questionarmos. Não fomos mandados ao mundo com uma missão. Fazemos o caminho que escolhemos, sempre, e esse pode sempre ter espaço para acomodar caminhantes outros, todos, desde que connosco partilhem a vontade da caminhada, ou um gesto sincero e generoso como comigo aconteceu há pouco quando pessoas que me nunca viram, me não conhecem, nada de mim sabem, me ofereceram selos, que eu gosto de colecionar.

quinta-feira, 27 de maio de 2021


 

A maior do ano!

Televisão, jornais, web… por todo o lado por onde nos empurram para títulos grandiloquentes na mira de capturar a nossa atenção para mais um clique faturante, a promessa era consistente: assim, deste tamanho, com esta cor, a ver-se tão bem, só para o ano, pelo menos; por isso é pegar ou largar, a partir das nove e um quarto da noite, na direção és-sueste, resultados garantidos!

E eu, que há algum tempo não olho para o céu, achei que esta seria uma boa oportunidade para o fazer, para mais que a noite se anunciava agradável de temperatura e brisa.

Trouxa pegada e metida no carro, ordenei à tripulação mecânica que se esconde por baixo do capot do meu velho skoda, que apontasse o azimute a Cacilhas, ali mesmo ao lado da D. Fernando e Glória, porque se é para falar de pontos cardeais, corpos celestes, azimutes e quejandos, convém sempre estar na companhia dos nossos (como se eu disso percebesse alguma coisa….)

Enfim… tripé colocado; objetiva assestada; relógio na mão…. Tudo quase como nas fantásticas largadas de Cabo Canaveral: “All systems Go; T-10 and counting”;

10 segundos, quando se espera ansioso, é uma eternidade, mas estes, por certo, sofreram algum entorse quântico daqueles que se movimentam na famosa notação E=mc2, porque apesar do mostrador do telefone me jurar que as tão ansiadas 21h14 estavam já para o lado esquerdo da história, da redonda explosão de luz, erguendo-se lenta no horizonte, que tanto me havia sido prometida…. apenas um perfeito Nada (ainda que bem redondinho, como a lua que o deveria substituir).

E nada foi durante uns bons 20 minutos - o tempo que o nosso singular satélite demorou a mostrar-se super, por cima da neblina que, infelizmente, tapou o horizonte ali para os lados do Barreiro - até que lá deu um ar da sua graça, deixando-se adivinhar num círculo de luz,  por sob as nuvens que a escondiam, agora dobradas a rosa e ouro no ardor do exultante reflexo.

Uma ou duas fotos, pouco mais. Confesso que desalentado, porque quando se mostrou, já estava bem mais acima do horizonte do que eu gostava de a ter visto;  arrumei uma vez mais a tralha e lá voltei a ordenar ao meu imediato mecânico que aproasse ao ponto de partida.

Avé Lua, cheia de graça, pensei… mas até o conforto do trocadilho foi… sol de pouca dura, quando a graça emperrou no euroevinte que, diligentemente, a máquina do parque de estacionamento engoliu antes de me abrir a cancela.

 


 

 

quinta-feira, 20 de maio de 2021

Um dia de postal, ilustrado com um sol soprando mais quente que a pouca brisa, tão pouca que tudo a nossa volta mais parece detalhe de fotografia… de postal ilustrado.

Escrevo-te o dia, portanto. Como te não conheço, é bem mais fácil assim evitando entrar em intimismos que, mesmo que de primeiro ou ainda menor grau, é coisa que se guarda para quem já se conhece… pelo menos… um pouco.

E nem é tanto as palavras. Para mais, tenho letra grossa e descontrolada, e preciso de espaço para a espalhar. Um postal pouco me deixa escrever, mesmo que viole, no limite do praticável, o lugar reservado ao inescusável endereçamento…

Na verdade, o grande prazer esconde-se no objeto em si.  Nem sequer seria preciso texto; só mesmo  um singelo e sequencial caro(a); rua, nº; código postal; país e a grande aventura estaria lançada.

O resto está impresso no papel, seja a pindérica foto de um pôr de sol manhoso a adoçar um recorte de falésia, que, ainda assim, nos força a desejar lá estar; seja  a vista da cidade; do imponente monumento; o detalhe do azulejo; a reprodução a obra de arte e  - oh, prazer dos prazeres – a lambidela no verso adocicado do magnífico selo, que lhe irá comprar o direito de viagem .

Mas até um postal pode ser difícil enviar.

Há não muito tempo, numa saída de verão, que incluiu Belgrado na lista, procurei afincadamente, como sempre faço numa cidade dos países que visito, em quiosques, lojas de rua, supermercados, em todo o sítio que fui, o almejado retângulo de cartolina policroma e … nada.

Belgrado, capital da Sérvia, antes disso capital da Jugoslávia do Tito, não tem um postal à venda em lado algum? Será tal coisa possível?

Aguardo que alguém de lá me escreva a provar-me o erro.

Foi por isso que me inscrevi no Postcrossing!